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Apiaí sonha com Tijuco Alto há 16 anos

OESP, Economia, p. B7
22 de ago de 2004

Apiaí sonha com Tijuco Alto há 16 anos
Esperança de progresso gerado pela usina volta a animar cidade do Vale do Ribeira

Renée Pereira

APIAÍ - A retomada do processo de licenciamento ambiental da Hidrelétrica Tijuco Alto, no Rio Ribeira de Iguape, reacendeu mais uma vez o sonho de progresso da cidade de Apiaí, no Vale do Ribeira, 326 quilômetros ao sul de São Paulo. Desde 1988, quando o projeto foi concedido ao Grupo Votorantim por meio de decreto, os moradores do município acompanham de perto a novela em que se transformou a construção da usina, questionada judicialmente por causa dos impactos ambientais que seriam causados pelo enchimento do reservatório.
Durante esses 16 anos, apesar de decisões contrárias à obra, muitos mantiveram a esperança de que o empreendimento pode ser a salvação da região, uma das mais carentes do Estado. Quase 60% da população do município, de 30 mil habitantes, vive da agricultura de subsistência na zona rural. As dificuldades são visíveis e constantes. A renda per capita da população não ultrapassa R$ 170.
O restante ganha a vida prestando serviços para a Prefeitura, fazendo artesanato ou trabalhando na indústria de cimento da Camargo Corrêa, a única da cidade. A empresa, que já foi a maior empregadora de Apiaí, desativou um dos fornos da fábrica e transferiu parte da produção para Ijaci, em Minas Gerais, aumentando o desemprego, comenta o prefeito Emilson Couras da Silva.
"A construção de Tijuco Alto traria muitos benefícios para o município, geraria emprego, elevaria a arrecadação e, conseqüentemente, os investimentos em educação e saúde", afirma o morador José Maria Pelegrina.
Durante a obra, que deve durar cerca de 4 anos, a usina de 215 megawatts (MW) pode criar entre 4 e 5 mil empregos na região.
Impactos - Mas o projeto, criado em 1988, vive afundado em problemas ambientais. Inúmeros órgãos de defesa do meio ambiente reclamam dos impactos que a hidrelétrica traria à região, como a inundação de cavernas e a contaminação da água pelas antigas minas de exploração de chumbo, afirma o coordenador do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), José Rodrigues. "O Ribeira é o único rio de São Paulo que não tem barragem.
A autorização de uma hidrelétrica desencadeará a construção de outras no mesmo rio, causando impactos irreparáveis para o meio ambiente", argumenta.
Por causa de todos esses problemas, o projeto de Tijuco Alto teve o licenciamento - concedido pelas secretarias Estaduais de São Paulo e Paraná - indeferido pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama) no ano passado, depois de dez anos de processo. Como o Ribeira de Iguape é interestadual, a responsabilidade pelo licenciamento é do governo federal, portanto, do Ibama.
Mesmo com os entraves ambientais, o Grupo Votorantim, responsável pela usina, já tem quase todos os equipamentos e parte da terra necessária para o empreendimento comprados, afirma o empresário Antônio Ermírio de Moraes.
Segundo ele, a hidrelétrica já consumiu investimentos da ordem de R$ 50 milhões em 16 anos.
"Apesar do tempo, não perco a esperança de concluir esse projeto", admite ele, que usará a energia gerada pela hidrelétrica para o desenvolvimento do setor siderúrgico. Foi com esse pensamento que o empresário retomou o processo de licenciamento há cerca de dois meses. A autorização do Ibama para a realização dos estudos foi dada em 30 de julho. A empresa terá de refazer todos os relatórios e mostrar alternativas para tornar o empreendimento viável do ponto de vista ambiental. Somente depois da conclusão desse trabalho é que o Ibama avaliará se concede ou não a licença para a instalação da hidrelétrica.

Entre a preservação ambiental e o desenvolvimento

Além da criação de emprego, moradores crêem que hidrelétrica pode atrair outros empreendimentos
APIAÍ - A falta de perspectiva de crescimento econômico da cidade de Apiaí, no Vale do Ribeira, tem levado ao êxodo da população rumo a cidades mais desenvolvidas, seja em São Paulo ou Paraná.
Sem faculdade e escola de qualidade, os jovens não têm outra alternativa a não ser ir embora. Carlos Augusto Depetris, de 17 anos, por exemplo, já se prepara para deixar Apiaí. Estudante do 3.o ano do ensino médio, ele sonha em cursar Relações Internacionais na faculdade, em Marília ou Franca. "Tenho vários amigos que foram embora para Curitiba. Aqui não tem futuro."
Jaqueline Camargo de Oliveira, de 16 anos, também planeja deixar a cidade, como fez seu irmão há alguns meses ao trocar Apiaí por Tatuí, na região Oeste do Estado de São Paulo. "Em dois meses ele conseguiu um emprego e está feliz da vida", destaca a garota, que pretende fazer faculdade de Turismo.
"Mas, para isso, preciso arrumar um emprego que me garanta na universidade", ressalta ela, cujo pai trabalha na prefeitura da cidade. Os adolescentes também reclamam da falta de opções de lazer. À noite, a única alternativa é sentar na praça e ver o povo passar, afirmam.
Ao contrário dos jovens, alguns não têm a opção de deixar a cidade. É o caso de Olga Santos, de 48 anos, e a filha Maria de Lourdes Santos, de 36 anos.
As duas moram no bairro Pinheiros, um dos locais mais pobres da cidade. Por ironia do destino, o bairro fica localizado praticamente atrás do Morro do Ouro, que durante anos no século passado foi explorado por estrangeiros e aventureiros vindos de todas as partes do País. No local, ocorreu uma das maiores tragédias de Apiaí. Um dos túneis da mina desabou e soterrou centenas de pessoas, a maioria escravos a serviço dos garimpeiros.
Olga tem seis filhos, 11 netos e 1 bisneto. A filha, Maria de Lourdes, tem 4 filhos e 1 neto. As duas passam a tarde fazendo tapetes e capas para banheiro e se divertem bastante, apesar da vida dura. Olga mora numa casinha bastante modesta, como todas as demais residências no bairro Pinheiros.
Praticamente todos os móveis da casa foram encontrados no lixo e aproveitados pela moradora, desde o sofá até as cortinas, que escondem os defeitos das paredes mal construídas. A máquina de costura antiga, responsável pelo seu ganha pão, é emprestada da vizinha.
"Gosto de Apiaí, mas o problema é a falta de emprego. O que ganho dá apenas para comer", afirma Olga, que tem problemas cardíacos e hipertensão. A filha Maria de Lourdes trabalha na parte da manhã como doméstica em casa de família, mas a renda é apertada.
Equilíbrio - Encravada no meio da Mata Atlântica, a cidade de Apiaí quer encontrar um equilíbrio entre a preservação ambiental e o desenvolvimento econômico e social do município. Hoje, reclamam os agricultores, não se pode tocar em nenhum tipo de vegetação da região, mesmo que seja para agricultura de subsistência, afirma o agricultor Thomas Tordson Linden, um sueco que chegou ao Brasil em 1977 e descobriu Apiaí em 1984. Mas, segundo ele, muita coisa mudou na cidade. "Era tudo muito melhor.
Hoje se produz menos e a economia piorou. A região ficou estagnada e eu perdi muito dinheiro com essa falta de perspectiva."
A usina de Tijuco Alto seria instalada a 30 quilômetros de Apiaí, próximo da cidade de Ribeira. Além da criação de empregos, a expectativa é que o projeto seja capaz de atrair outros empreendimentos para a cidade e traga desenvolvimento, afirma o morador Raul Miranda. (R.P.)

OESP, 22/08/2004, Economia, p. B7

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