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Amazônia ilegal: desmatamento e informalidade são motores da economia

Mongabay - http://news.mongabay.com/
Autor: FABIO NASCIMENTO (FOTOS) E GUSTAVO FALEIROS (TEXTO)
10 de jun de 2020

Nesta reportagem fotográfica, acompanhamos de perto a retirada ilegal de madeira no estado de Rondônia - um dos pilares que sustentam a atividade econômica na Amazônia brasileira.

As árvores são cortadas e serradas em grande parte por homens que, além de operar na ilegalidade, também trabalham na informalidade.

Devido ao coronavírus, era de se esperar que o corte de madeira diminuísse na Amazônia, mas não foi o que ocorreu: entre janeiro e abril, os índices de desmatamento aumentaram 55%.
Em um assentamento da reforma agrária, como muitos existentes no estado de Rondônia, fomos recebidos com desconfiança. Ninguém perguntou nossos nomes. De nossa parte, tampouco procedemos com a tradicional prática jornalística de anotar os nomes completos, idades e ocupações. Esse era o acordo: estávamos ali para observar, entender e registrar imagens de como funciona a máquina de desmatamento da Amazônia. Fizemos uma imersão, entre setembro e outubro de 2019, neste universo de madeireiros e garimpeiros. São homens e mulheres que na maioria das vezes tratam estes trabalhos como bicos, arranjos temporários. Mas muitos se mostram resignados e simplesmente justificam seu trabalho. "Temos que sobreviver de alguma forma", dizem.

Alguns se arriscam ainda como empresários nesta economia que funciona à margem da lei. O dono da propriedade em que estávamos - um senhor sisudo, mirrado e fumando o tempo todo -, orientava dois homens robustos, que com motosserras faziam tábuas de toras enormes deitadas ao solo. Essa operação de fundo de quintal, ou seja, cortar pranchas fora de uma serraria, denotava exatamente a ilegalidade que estávamos investigando.

A madeira vinha da mata ao fundo do assentamento. Era retirada sem guias de transporte, sem planos de manejo. O senhor sisudo, nosso anfitrião, era o operador de um trator rústico, conhecido também como jacaré. Uma máquina antiga com uma corrente na rabeira adaptada para puxar a madeira do meio da mata. Naquele dia, no período da tarde, depois que acompanhamos a serragem manual, fomos com os madeireiros à floresta onde duas novas árvores foram derrubadas, uma garapa e uma roxinho. Um dos motosserristas, talvez percebendo nossa apreensão diante da morte dos gigantescos seres vivos, comentou em voz alta. "Ah, eu corto mesmo, não tem problema."

Um operador de motosserra na Amazônia e um motorista de Uber têm algo em comum: ambos são informais na economia brasileira. E mais: ambos não pararam suas atividades no meio da pandemia do coronavírus.

Nos termos modernos, alguém poderia dizer que eles fazem parte da "gig economy." Ou seja, profissionais autônomos que vão saltando de trabalho em trabalho. Acostumados a navegar em marés de instabilidade, muitos que vivem na Amazônia estão há tempos não apenas na informalidade, mas também na ilegalidade.

Para passar o dia serrando uma tora de madeira, um daqueles homens recebeu 100 reais, o que equivale a nada mais do que dois metros cúbicos de uma árvore cortada. Árvores como as duas que vimos sendo derrubadas renderam algo entre 16 e 18 metros cúbicos. O dono da propriedade lucra um pouco mais revendendo a intermediários.

Mas certamente quem lucra mais são os revendedores finais, sejam eles nas capitais da Amazônia ou enviando carregamentos para as cidades do sul do Brasil. Enquanto um metro cúbico de árvore derrubada na Amazônia custa em torno de 50 a 60 reais, ele custará no mínimo o dobro no balcão de uma loja de construção em São Paulo ou Rio de Janeiro.

O Brasil é o segundo país com o maior de número de pessoas contaminadas pela covid-19. E a curva segue subindo. A região amazônica, onde a cidade de Manaus foi a primeira do país com o sistema de saúde colapsado, deve sofrer no interior seu pior impacto exatamente no momento da estação seca, ou seja, o período das queimadas. Esse cenário deve agravar o impacto na saúde das populações da região.

Uma dúvida que chegou a surgir neste momento é se, assim como ocorreu com as emissões de carbono e poluentes, as emissões pelas queimadas também reduziriam durante a pandemia. Seria possível que o desmatamento parasse ou que tivéssemos queimadas menores?

Infelizmente, os primeiros indícios não são nada positivos. De acordo com dados preliminares do sistema de detecção em tempo real (Deter), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), há um crescimento de 55% nos alertas de desmatamento entre janeiro e abril de 2020 em comparação com o ano anterior.

Segundo Paulo Moutinho, pesquisador do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Ipam), o cenário que está se configurando aponta um índice de desmatamento e queimadas ainda maior do que o do ano passado. A razão seria que muitos dos desmatamentos ocorridos recentemente não foram seguidos de queimadas. Ou seja, as árvores derrubadas terão que ser queimadas em algum momento.

Embora o estado vizinho do Amazonas tenha adotado medidas mais rígidas de isolamento social, Rondônia não seguiu as mesmas diretrizes, e a economia do desmatamento apresenta sinais de que continuou funcionando a todo vapor. Entre os estados da Amazônia Legal brasileira, Rondônia é o que apresenta o maior crescimento percentual de alertas de desmatamento entre janeiro e 23 de abril (último dado disponível).

Joelinton Silva, um empresário de Rondônia que hoje tem investimentos no sul do Amazonas, conta que houve uma redução nos negócios por conta da demanda. Emulando o discurso do presidente Jair Bolsonaro, a quem apoia de maneira incondicional, ele aponta a "histeria da mídia" com relação à pandemia como causa para a queda na economia.

Como muitos proprietários de terra, ele reclama da fiscalização dos órgãos ambientais e da vigilância da sociedade civil organizada. "Na questão dos planos de manejo [de madeira], o que atrapalha muito são os ambientalistas. O Ibama não tem conhecimento técnico e o que acontecia com muita frequência era a apreensão de madeira sem razão."

Os homens do assentamento que visitamos seguiram trabalhando nestes meses de pandemia, provavelmente acreditando que a fiscalização estava desmobilizada ou não atuante. Recentemente, fomos informados que foram presos em uma operação na entrada do município de Porto Velho.

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