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AL reduz devastação da Mata Atlântica e começa a ver novas áreas verdes surgirem

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Autor: Eduardo Almeida e Jamylle Bezerra
28 de jan de 2018

AL reduz devastação da Mata Atlântica e começa a ver novas áreas verdes surgirem
Estado é o segundo do país que menos desflorestou o bioma; iniciativas promovem conscientização e recuperação da mata

gazetaweb.com - Por Eduardo Almeida e Jamylle Bezerra

Por muitos anos, os alagoanos usufruíram das matas de forma desenfreada. O resultado disso foi uma destruição em massa da Mata Atlântica, que foi quase dizimada, chegando o estado a contar, na década de 70, com uma área equivalente a apenas 3,5% de remanescente desse bioma. Cerca de 50 anos depois, quando todos vivem uma realidade voltada para a necessidade de abraçar o conceito de sustentabilidade no dia a dia, Alagoas dá exemplo de conscientização e união de forças, e começa a ganhar mais verde em meio a tanto azul do mar.

Ainda há muito o que ser feito, mas dados da ONG SOS Mata Atlântica e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que, em 2017, Alagoas figurava entre os cinco estados que estão no nível do desmatamento zero, que é quando há o registro de menos de 100 hectares (o equivalente a 1km²) de desflorestamento. Entre esses cinco, Alagoas ocupa a segunda posição, com 11 hectares de desmatamento, ficando atrás apenas do Rio Grande do Norte, com 6 hectares. Os demais são Pernambuco (16 ha), Paraíba (32 ha) e Rio de Janeiro (66 ha).

De acordo com o vice-presidente do Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, Afrânio Menezes, a recuperação florestal no estado é fruto do trabalho conjunto dos órgãos ambientais, das ONGs e até do setor sucroalcooleiro, que começou a se conscientizar sobre os prejuízos de destruir a mata e passou, após anos de devastação, a investir no replantio.

Todo o esforço já fez com que Alagoas saísse da zona crítica de ameaça do bioma, passando a contar, atualmente, com 16,80% de remanescente de Mata Atlântica. No Brasil, esse percentual é de 8,5%, o que deixa o país em área de "hot spot" - que são pontos considerados pela Unesco como extremamente devastados, já que têm menos de 10% do remanescente florestal, podendo desaparecer caso não sejam adotadas as providências visando à recuperação das matas.

"Alagoas já chegou a ficar com uma cobertura de menos de 4% e hoje alcança o percentual de 16,8%. É o estado que está em melhor situação no país, percentualmente falando. Isso dá um orgulho muito grande, porque mostra que criou-se uma consciência ambiental que tem ajudado a preservar o bioma", afirma Afrânio Menezes.

A área de influência da Mata Atlântica alagoana é de cerca de 54% do território do estado, se estendendo por todo o litoral e adentrando até a região próxima à cidade de Arapiraca, onde já começa a zona de transição para o Sertão, onde o bioma que predomina é a Caatinga.

Um dos destaques da guinada que diz respeito à cobertura vegetal da Mata Atlântica é a atuação do setor sucroalcooleiro, com usinas de cana-de-açúcar que cultivam viveiros, preservam os animais e promovem ações de educação ambiental com a comunidade em meio a matas fechadas que são frutos de reflorestamento.

Afrânio cita, por exemplo, que a Usina Coruripe foi a primeira empresa a receber o selo de Amiga da Mata Atlântica, concedido pelo Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, em virtude das ações desenvolvidas no âmbito da conservação e uso sustentável da mata.

"A Coruripe tem uma área fabulosa de mata conservada. São cerca de 7.500 hectares", conta Afrânio Menezes, que também integra o Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA).

RESERVA ECOLÓGICA RECEBE CERTIFICAÇÃO DA UNESCO

Quem vê a Reserva Ecológica Santo Antônio, na cidade de São Luiz do Quitunde, não imagina que até bem pouco tempo atrás o local era considerado uma área ociosa, onde a preocupação ambiental ficava em segundo plano. Uma pitada de boa vontade e pouco mais de uma década foram suficientes para transformar o espaço em uma Reserva Particular de Patrimônio Natural (RPPN), reconhecida até pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Mas, o caminho até a certificação como Reserva da Biosfera da Unesco exigiu planejamento, dedicação e esforço. A área pertence à Usina Santo Antônio e integra um projeto mais amplo, que conta com outras duas reservas: a "Garabu", que também fica em São Luiz do Quitunde, e a "Serra D'Água", na cidade de Matriz de Camaragibe. As três áreas juntas somam quase 500 hectares, ou seja, cinco milhões de metros quadrados de matas e nascentes, que abrigam espécies nativas.
O grupo que administra a usina estima que, desde o início dos anos 2000, foram plantadas cerca de 270 mil mudas. Para se ter uma ideia do que representa a iniciativa, a área total beneficiada é equivalente a 500 campos de futebol.

"A ideia de criar um espaço para desenvolver ações ambientais surgiu no início dos anos 2000, quando o superintendente agrícola da usina, Marco Cabral Maranhão, pensou em um local que pudesse integrar o meio ambiente e a comunidade. Em 2003, demos início a essa obra e, em 2011, conseguimos concluir. Desde então, nós desenvolvemos uma série de atividades", explica Marcos André de Moraes, coordenador ambiental da Reserva Ecológica Santo Antônio.

A iniciativa deu tão certo que hoje os moradores do município não só reconhecem as ações desenvolvidas no local, como ainda colaboram com as atividades sempre que são convidados. São frequentes as visitas de alunos de escolas da região - ou até mesmo de outras partes do estado - para participarem de palestras, minicursos e oficinas. O artesanato sustentável, que tem como base a palmeira Titara, é uma atração à parte, gerando emprego e renda para famílias da região.

"Ao longo do ano, nós promovemos eventos e recebemos grupos de estudantes. Durante as visitas, nós apresentamos o trabalho realizado na reserva e abordamos um tema específico, sempre com foco na realidade local. Então, abordamos a importância da mata ciliar, falamos sobre caça ou ainda sobre reciclagem. São temas que fazem parte do dia a dia dos estudantes e que vão nos ajudar a preservar o meio ambiente", ressalta o assistente ambiental Carlos Henrique de Farias.

Além de atividades educativas, os visitantes da reserva podem percorrer uma trilha com cerca de um quilômetro de extensão por dentro da área de mata. Durante o percurso é possível ver animais exóticos ou ainda plantas como imbiribas e copiuvas.
"Esse é um projeto importante, que a gente busca melhorar a cada dia. Além da trilha da Reserva Santo Antônio, nós contamos com outras duas trilhas. Na Reserva Garabu e na Reserva Serra D'Água é possível encontrar mais espécies exóticas tanto de plantas quanto de animais, porque as áres têm mata mais densa, por se tratarem de locais mais acidentados geograficamente", acrescenta Marcos André de Moraes, coordenador ambiental da Reserva Ecológica Santo Antônio.

ARTESANATO SUSTENTÁVEL É PASSADO DE GERAÇÃO PARA GERAÇÃO

É unindo força e delicadeza que o artesão José Carlos Tibúrcio, de 57 anos, constrói há 45 anos cadeiras, centros de mesas e sofás. Seu Zé Carlos, como é conhecido, aprendeu a profissão com o pai aos 12 anos e hoje repassa as técnicas para o filho, Ariclenes da Silva Tibúrcio. A diferença, no entanto, está no processo de criação: o modo de produção se tornou sustentável e ambientalmente correto.

"Quando eu comecei, a gente ia na mata, fazia a retirada da madeira e construía os móveis. Hoje não, nós compramos a madeira com certificado e utilizamos a Titara [palmeira nativa da Mata Atlântica] para revestir e fazer o acabamento. Tudo isso respeitando o tempo da planta, para não comprometer o meio ambiente", destaca Zé Carlos, que se tornou funcionário da Reserva Santo Antônio.

Os produtos de Zé Carlos e Ariclenes fazem sucessso. Os móveis já foram expostos em feiras ocorridas em Maceió, no Recife e até no Rio de Janeiro, durante a Rio +20. "Eles são sucesso por onde a gente passar", garante o artesão. "A gente faz de tudo: cadeira, sofá, mesa, centro, abajur e o que o cliente quiser. Tudo usando a Titara. Essa é a nossa marca, que já foi até certificada pelo IMA [Instituto do Meio Ambiente], acrescenta.
Foi vendo o pai trabalhar que Ariclenes da Silva Tibúrcio aprendeu a profissão. Ele conta que nunca fez curso de formação, mas que, há 15 anos, vive exclusivamente do artesnato produzido em parceria com Zé Carlos. "Hoje em dia, ele [Zé Carlos] faz a parte estrutural dos móveis e eu faço a parte de acabamento. Trabalhamos nós dois para abastecer a loja da reserva e para atender as encomendas", conta.

Para o artesão, trabalhar com um produto sustentável é motivo de orgulho. "Os móveis são bons, resistentes, e ainda são ecologicamente corretos. Vou querer mais o quê? A gente consegue unir duas coisas muito importantes. O mais relevante é saber que a forma de construir melhorou com o passar dos anos", finaliza.

ENTENDA COMO FUNCIONA A RETIRADA DA PALMEIRA TITARA

Apesar de todos os esforços, Alagoas ainda precisa percorrer longos caminhos para, um dia, poder ver com fartura espécies como o Murici, que deu nome ao município alagoano e que é dificilmente encontrado nos dias de hoje. Assim também acontece com a planta que deu nome à cidade de Arapiraca, hoje escassa.

Para o biólogo Iremar Bayma, ainda é pouco o que tem sido feito em benefício da Mata Atlântica e também da Caatinga, biomas que predominam em Alagoas.

"Todos os dias chegam solicitações de supressão de matas ou áreas arborizadas, mas não se percebe nenhuma grande ação de reflorestamento de nada. Quando isso acontece, não ocorre a manutenção. Manter unidades de conservação não é barato, tão pouco realizar programas de recuperação de áreas degradadas. Por outro lado, para se fazer qualquer supressão de vegetação, é preciso pedir autorização ambiental e isso envolve ações de compensação, que muitas vezes se arrastam por anos e não são bem sucedidas", completa.

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