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ZELIK TRAJBER: 'A culpa disso é da sociedade branca'

O Globo-Rio de Janeiro-RJ
Autor: Soraya Aggege
03 de Mar de 2005

O pediatra Zelik Trajber, de 58 anos, há quatro anos trabalha com os guaranis-caiovás em Dourados, em Mato Grosso do Sul. Integrante da ONG Missão Kaiowá, diz que não adianta dar cesta básica com sardinha em lata a quem sempre comeu peixe fresco e perdeu os rios na expansão do plantio de soja.

Quais as dificuldades para levar a medicina às culturas indígenas?

ZELIK TRAJBER: Depende muito da região, da etnia. É preciso que o médico faça uma convivência e aceite as comunidades. O médico, não o índio, precisa aceitar a diferença cultural. Não adianta chegar com sua sabedoria. Não há receita médica que sirva.

O caso dos guaranis-caiovás é específico?

TRAJBER: Em Mato Grosso do Sul eles enfrentam o maior conflito fundiário e a maior concentração humana do país, com 11 mil índios para três mil hectares de terras. É pouco espaço, com a expansão do agronegócio. A cada dia eles são mais expulsos.

O senhor tem tido dificuldades para prestar atendimentos e fazer internações?

TRAJBER: Antes era mais difícil. Hoje há poucos casos em que eles preferem os rezadores. Nós, médicos, fazemos parcerias com os rezadores. Eu trabalho com eles.

Em algumas tribos, os adultos têm o direito de comer mais do que as crianças?

TRAJBER: Não é verdade. Quem diz isto tenta jogar a culpa da tragédia indígena nos próprios indígenas. Quando têm o que comer, todos comem. Quando não têm, não comem. O que acontece é que os adultos comem alimentos que as crianças não usam, como mandioca dura. Falta-lhes lenha para cozinhar. A culpa disso é da sociedade branca.

As cestas básicas são bem aceitas?

TRAJBER: Elas vêm naquele padrão do governo. Não adianta dar sardinha em lata para quem comia peixe fresco. Não tem mais rio, não tem mais peixe. Fazer o quê? Ouvir os índios, entender o que é possível fazer. Ninguém procurou os índios para ouvi-los. É preciso olhar de frente para a realidade. Eles estão sendo massacrados. Não adianta a solução de cima para baixo, o paternalismo de sempre.

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