CB, Mundo, p. 23
09 de Out de 2004
Zebra africana
A ambientalista Wangari Maathai, fundadora de uma organização não-governamental que plantou 30 milhões de árvores no Quênia, desbanca favoritos e leva o prêmio. Resultado foi uma surpresa até para ela
Mariana Mainenti
Da equipe do Correio
A ambientalista queniana Wangari Maathai, de 64 anos, venceu ontem o Prêmio Nobel da Paz. Ela, que é a primeira mulher africana a receber o prêmio - de US$ 1,36 milhão -, comemorou a vitória fazendo mais uma vez o que fez ao longo de toda a sua luta em defesa do meio ambiente: plantou mais uma árvore. Maathai é fundadora do Movimento Cinturão Verde, uma organização não-governamental que estimulou mulheres pobres no plantio de 30 milhões de árvores no país.
''Essa é a maior surpresa da minha vida inteira. Sabia que nosso trabalho era importante, mas nunca havia sonhado receber tal reconhecimento'', reagiu Maathai, chorando de alegria. Em seguida, ela plantou uma árvore o terreno do hotel Outspan, onde recebeu os cumprimentos pela premiação. ''Quando plantamos árvores, plantamos sementes de paz'', declarou Maathai, que desbancou concorrentes como o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Mohamed El-Baradei.
Nascida em 1940, Maathai está há 30 anos à frente do Movimento Cinturão Verde. Segundo ela, o plantio de árvores desacelera a desertificação, preserva os ambientes florestais para a vida selvagem e provê uma fonte de combustível, material de construção e comida para as futuras gerações. A atividade se torna, assim, um meio de combater a pobreza.
''Maathai combina ciência, compromisso social e atividade política. Mais do que simplesmente proteger o meio ambiente que existe, sua estratégia é assegurar e fortalecer a própria base para o desenvolvimento ecologicamente sustentável'', disse o comitê do Nobel no comunicado que anunciou a premiação.
Ministra comemora
Apesar de pouco conhecido do grande público mundial, o trabalho de Maathai é famoso entre os ambientalistas, que também comemoraram a vitória da queniana. ''O trabalho de plantio de árvores realizado por ela alia desenvolvimento sustentável ao combate à desertificação. É algo fantástico'', afirmou a ministra brasileira do Meio Ambiente, Marina Silva, em entrevista ao Correio Braziliense.
Segundo a ministra, não faltam motivos para celebrar a vitória de Maathai: ''Acho fantástico, pelo fato de ela ser uma ambientalista, o que reforça a grande utopia deste milênio, que é a preservação do meio ambiente; pelo fato de ela ser mulher; e por ser africana, de um dos países mais castigados pela pobreza no continente'', disse Marina Silva. A ministra comparou a luta da queniana à de Chico Mendes que, segundo ela, ''infelizmente não teve esse reconhecimento em vida''.
No entanto, o porta-voz do Departamento de Estado norte- americano, Richard Boucher, disse que os EUA têm divergências em relação a algumas posições da ambientalista. ''Trabalhamos com ela, mas não estamos de acordo em todos os aspectos'', afirmou, depois de dizer que os EUA têm ''grande respeito'' por Maathai e estão contentes com a premiação. O ponto de divergência entre a ambientalista e o governo norte-americano está no fato de ela ter afirmado que a Aids foi uma invenção dos laboratórios ocidentais para se tornar arma biológica.
Semeadores de consciência
O movimento Cinturão Verde (GBM, sigla em inglês) foi criado por Wangari Maathai em 1977. Os programas da organização não-governamental baseada no Quênia, que já resultaram no plantio de mais de 30 milhões de árvores no país, aliam preservação ambiental e desenvolvimento comunitário.
A partir do incentivo ao plantio de árvores por mulheres pobres, o GBM busca desenvolver entre os quenianos uma consciência de luta pela melhoria das condições de vida associada ao cuidado com o meio ambiente. O trabalho da ONG envolve a capacitação de meninas e mulheres, em especial, para atuar em uma ampla variedade de aspectos da vida social - do direito ambiental à segurança alimentar.
O GBM atua em nove localidades do país: Bungoma, Embu, Kisii, Machakos, Maragua/Muranga, Meru, Nyeri, South Nyanza e Trans Nzoia.
CB, 09/10/2004, Mundo, p. 23
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