VOLTAR

Xique Xique, calango e juazeiro

CB, Super, p. 4-5
25 de Set de 2004

Xique xique, calango e juazeiro
Por trás de uma paisagem cheia de Espinhos, o espetáculo de uma Natureza que aprendeu a se adaptar ao calor e à seca do Interior nordestino

Sebastião Vicente
Da equipe do Correio

Talvez você, ou algum dos seus amigos, tenha um primo pobre que mora numa cidadezinha bem distante de Brasília ou das grandes capitais. Provavelmente nem você nem seus amigos dão a mínima para ele. Acham que não passa de um bestalhão que fala errado, anda sempre malvestido, e nem sabe o que é a internet.
Certamente você está se perguntando o que diabos essa conversa de primo pobre tem a ver com o assunto desta reportagem. Quase tudo. Imagine que a natureza existente na Terra seja uma grande família, em que os pais são o Sol e a Lua. E os filhos, aquilo que os especialistas chamam de "ecossistemas": como o cerrado, que você conhece bem; a Floresta Amazônica, de que você já ouviu muito falar; ou a Mata Atlântica, uma flora que crescia paralela ao litoral brasileiro e hoje está praticamente destruída.
Tudo bem, a comparação continua pela metade. Mas você não perde por esperar. Acontece que, se a natureza fosse uma grande família cheia de trapalhadas como aquela do programa de tevê, a caatinga, o ecossistema lá no interior do Nordeste, seria como um primo do interior. Pobre, esquecido, desprezado.
Quer ver? Assim como ninguém dá
muita atenção ao seu primo do interior, os pesquisadores da geografia brasileira também nunca estiveram muito aí para a caatinga. Só agora esse mundo de cactos, sagüis e calangos começa a ser levado a sério e melhor estudado.
Quer mais? Siga o raciocínio: assim como todos os seus amigos torcem o pescoço para o seu primo do interior só por causa das roupas humildes que ele usa, a caatinga também vinha sendo desprezada por ser considerada... feia. Uma feiúra ainda mais insuportável quando vem uma seca, as plantas perdem as folhas e a paisagem fica toda cinzenta. Tinha muita gente boa, com diploma debaixo do braço, que confundia essa feiúra aparente com falta de vida - uma crença que outros diplomados, mais antenados com as características da caatinga, vêm desmentindo. Fique sabendo que há muita vida sob a "mata branca", que é o que significa a palavra caatinga na língua dos índios da região.
Hoje, graças ao trabalho de novos pesquisadores, a caatinga é reconhecida como um sistema natural de rica biodiversidade (grande variedade de espécies vegetais e animais), enorme relevância biológica e beleza peculiar. É só saber estudá-la com atenção, paciência e uma curiosidade que vá além das imagens das secas que periodicamente atingem o sertão do Nordeste.
Já pensou corno é que plantas e animais podem resistir, florar e se reproduzir em meio a tamanha falta de água? Eles resistem, sim, e bravamente. E se você estudar um pouquinho vai entender por que a caatinga, no auge da seca, parece tão feia. Vai entender que muitas plantas se livram das folhas com o propósito de necessitar de pouca água. Outras guardam o líquido em seus tecidos. E há também as espécies que não passam de arbustos, em mais uma estratégia de sobrevivência. 0 resultado é aquela mata baixa, sem folhas e cheia de espinhos que engana muita gente e parece feia, mas é apenas forte.
É, talvez esteja na hora de você dar mais importância à caatinga e mais atenção àquele seu primo pobre do interior.

Saiba Mais

Clima
A vegetação xerofitica e caducifoliar típica da caatinga ocupa cerca de 800 mil km2 de terras nos estados nordestinos, além de um pedaço de Minas Gerais (vale seco do rio Jequitinhonha) e até de partes do arquipélago de Fernando de Noronha. Tudo somado, representa 11% do território brasileiro. 0 clima é quente e as chuvas, mais do que escassas, são mal distribuídas - é comum que passe de sete a dez meses sem cair um pingo de água ou chova muito mas em poucos dias e lugares. Como o solo é superficial e cheio de pedras, a água da chuva praticamente não se acumula no subsolo à disposição das plantas - ao contrário, acaba se perdendo pelo efeito da evaporação.

Resistência
A rigidez climática não impede que, por de trás daquela paisagem que parece triste e monótona, exista muita vida natural. E, o mais importante, vida natural adaptada para se manter em atividade sob condições extremas. Como os vários tipos de cactos, as umburanas, aroeiras e juazeiros. Ou, na fauna, a cotia, o preá e o tatu-peba. Uma vida natural que se mantém sobre lajedos, na mata de espinhos ou no leito seco de rios que só vêem água no "inverno' (como é chamado, lá, o período de chuvas).

Fauna
Em números, sabe-se hoje que a caatinga tem 932 espécies de plantas conhecidas (380 delas são endêmicas), 148 espécies de mamíferos (10 delas próprias de lá), 348 de aves (15 só encontradas ali), sem falar na variedade de anfíbios e répteis. Na verdade, essa contagem é provisória. Deve haver um número muito maior de espécies, já que, tendo sido pouco estudada, a caatinga ainda é subestimada.

Proteção
Talvez esse desconhecimento explique o fato de a caatinga ser, infelizmente, a região natural brasileira menos protegida pelos órgãos de defesa do meio ambien te. Só 2% do território da caatinga é protegido por unidades de conservação. Um dos poucos exemplos é a Estação Ecológica do Seridó, no município de Serra Negra, no Rio Grande do Norte. Essa ausência de proteção é muito grave, pois o uso errado dos recursos naturais - a madeira, por exemplo, vira carvão natural no forno das cerâmicas - contribui para a chamada "desertificação" de vastas áreas do sertão nordestino.

Dicionário
Agora, espera aí: endêmica, xerofitica, caducifoliar, ninguém tem como dominar tanta palavra difícil, admito. Calma: consulte o dicionário e descubra que, também do ponto de vista da linguagem, a caatinga é um lugar riquíssimo.

Xerofítica
Planta com estrutura celular diferenciada para suportar a falta de água por longos períodos

Caducifoliar: Planta que não se mantém verde o ano todo e perde as folhas na estação seca

Endêmico: Espécie animal ou vegetal que só existe em uma área restrita ou é associada a ela

Lajedo: grande pedra que reveste vastos terrenos

Preá: Pequeno mamífero roedor muito comum no interior do Nordeste

Anfíbio: Animal ou planta que vive tanto na terra quanto na água

Réptil: Animal que anda de rastros; sem pés, ou de pés tão curtos que parece andar se arrastando

Juazeioro: Árvore alta típica da caatinga. O fruto tem uma casca que no passado era usada pelas populações rurais como pasta de dentes. A copa fornece boa sombra para o gado, já que não perde a folhagem nem durante a seca.

Umburana: Pequena árvore da caatinga, com muitos galhos, flores pequenas e madeira branca e dura, muito usada em carpintaria e construção. Também conhecia como "imburana"

Unidades de conservação
Áreas protegidas da devastação ambiental, mantidas e fiscalizadas pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), como os parques nacionais.

CB, 25/09/2004, Super, p. 4-5

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.