O Globo, Ciência, p. 3
06 de Set de 2007
Xenofobia científica
Holandês preso por biopirataria diz que foi vítima de preconceito e burocracia
Reinaldo José Lopes
Menos de um mês depois de deixar a prisão, em Manaus, onde foi acusado de biopirataria, o ecólogo holandês naturalizado brasileiro Marc van Roosmalen disse que foi vítima da burocracia científica e reclamou da xenofobia.
- O governo e o povo brasileiro sofrem de um complexo coletivo de inferioridade em relação aos estrangeiros. Isso cria um clima de xenofobia - afirmou o pesquisador.
Para Roosmalen, se os naturalistas do século XIX, que descreveram inúmeras espécies brasileiras, como Alfred Wallace (co-criador da Teoria da Evolução), estivessem vivos hoje, "teriam sido considerados os maiores biopiratas de todos os tempos".
Roosmalen foi preso em junho passado por acusações como transportar ilegalmente macacos e orquídeas do interior da Amazônia para sua casa (o que configuraria biopirataria) e se apropriar de andaimes do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, onde trabalhou (o que seria peculato, ou seja, desvio de recursos públicos).
- Teria sido fácil fugir para a Holanda. Mas teria sido uma confissão de culpa. Sou totalmente inocente - disse.
Roosmalen foi sentenciado a mais de 15 anos de detenção. Seu processo, agora, será revisto com o pesquisador em liberdade.
- Acredito que existe justiça neste país. Perdi cinco anos de trabalho científico por causa desse drama, mas não é tarde demais para recuperá-lo - afirmou Roosmalen, que já retomou o trabalho.
Deve ser publicado em breve um artigo científico no qual o polêmico pesquisador descreve uma raridade: uma nova espécie de grande mamífero amazônico. Apelidado de porco-do-mato-gigante, ou caitetú-mundé, o bicho foi achado por Roosmalen e colegas da Alemanha, da Holanda e da Bélgica.
Antes de ir para a cadeia eu tinha feito a correção das provas do artigo, então deve estar para sair. E essa é só a ponta do iceberg garantiu.
Conhecido por descobrir seis novas espécies de macacos na Amazônia, o pesquisador diz também ter evidências de outras surpresas de grande porte na maior floresta tropical do mundo. Entre elas, uma nova espécie de anta; um peixe-boi pigmeu; e até um tipo desconhecido de onça. Descobertas de grandes mamíferos como esses são consideradas, em qualquer parte do mundo, um evento raríssimo. As afirmações são ousadas, mas as credenciais científicas de Roosmalen deixam pouca margem para dúvida.
Aliviado por poder falar de ciência de novo, o ecólogo relata com entusiasmo a descoberta do porco-do-mato-gigante, cujo nome científico é Pecari maximus. Duas das próximas descobertas do pesquisador a serem descritas também já têm nome. Uma delas é anta-anã, que será batizada de Tapyrus pigmaeus. A outra é o peixe-boi-anão, ou Trichechus pygmaeus. Mas a mais incrível de todas é a onça, que teria uma pelagem totalmente preta e pescoço esbranquiçado.
Acredite se quiser - brincou ele.
Novo mamífero amazônico
A descrição do porco-do-mato-gigante (Pecari maximus), que está pronta para publicação, revela um animal que, por ter vivido numa área isolada durante milhares de anos, desenvolveu características distintas do porco-do-mato comum. Ele tem 1,30 de comprimento, cerca de 50 quilos e pernas longas, quase como as de um veado. O suíno tem quase o dobro do tamanho de sua espécie-irmã. Segundo Roosmalen, ele se especializou em comer frutos e sementes do chão da floresta, e a fugir correndo. "Por isso as pernas compridas."
O Globo, 06/09/2007, Ciência, p. 33
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