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A voz menos rouca das ruas

CB, Política, p. 2
18 de Abr de 2004

A voz menos rouca das ruas
Capitaneados pelo abril vermelho organizado pelo MST, os movimento sociais aumentam a pressão sobre o governo. Reajustes do mínimo e do salário dos servidores definirão a intensidade das manifestações

HELAYNE BOAVENTURA
DA EQUIPE DO CORREIO

O governo do presidente Lula tem o desafio de evitar que a insatisfação que alimenta os conflitos no campo avance para os movimentos sociais até agora adormecidos. Uma das senhas para o comportamento futuro de setores historicamente ligados ao PT depende de duas decisões que o presidente tomará nos próximos dias. O novo valor do salário mínimo e o percentual de reajuste para o funcionalismo. Para integrantes de entidades organizadas, o primeiro teste do governo petista dará as pistas da sua identidade. Resposta que orientará a intensidade das manifestações.
Uma pergunta inquieta os aliados do PT: "Qual é a cara do governo Lula?". Como as mudanças demoram a acontecer, organizações não-governamentais e associações começam a impacientar- se. Temem que o governo se renda à influência de setores conservadores. Advogam a tese de que sem ruptura não será possível implantar os projetos que o presidente prometeu na campanha. E prevêem um futuro trágico se a mudança não vier. "Se no meio do caminho se percebe que é um engodo, os movimentos sociais não vão aceitar pacificamente", avisa o coordenador nacional do Movimento Negro Unificado (MNU), Edmilton Cerqueira. "Nosso compromisso não é com este ou aquele governo, é com causas históricas".
"Se o governo não enfrentar o latifúndio, nós é que vamos enfrentar o governo", reforça o coordenador nacional do Movimento Sem-Terra, João Paulo Rodrigues. 0 MST comandou a reação das organizações populares. Cumpre a promessa de um "abril vermelho". Na esteira dos sem-terra, outras entidades começam a demonstrar inquietação. Na semana passada, ONGs vinculadas à Associação Brasileira de ONGs (-Abong) reuniram-se para avaliar o governo. Traçaram um panorama desolador. "0 dilema do presidente - fazer um reajuste maior do salário mínimo ou realizar investimentos que propiciem crescimento - ocorre porque não se considera a hipótese de tocar nas clásulas pétreas da atual política econômica", cobra o documento resultante do encontro.
Índios descontentes com a indefinição na homologação da reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, postaram-se diante do Ministério da Justiça para cobrar as promessas do presidente. Ainda candidato, Lula esteve em encontros de líderes indígenas no estado e prometeu demarcações, lembra o cacique da aldeia Maturuca, Ivaldo André. "Ele demonstrou estar muito do lado do povo indígena, mas ainda e só promessa, reclama.
Desmobilização
Avaliação corrente é a de que os aliados conservadores levaram a melhor até agora. 0 próprio movimento social reconhece que contribuiu para isso. A trégua do primeiro ano reduziu a pressão sobre o governo. A participação institucional também desarticulou algumas entidades. "Como integrantes dos movimentos assumiram cargos no governo, houve certa desmobilização", avalia o diretor financeiro da ONG Enegrescer, Gustavo Freitas Amorim.
As reações, por enquanto, são de colaboração. Ainda há uma dose considerável de esperança na condução governamental. Acredita-se que o problema reside na necessidade de o governo equilibrar-se para acomodar a base heterogênea. Quem pressionar mais, obterá os melhores resultados. "Não é da trajetória do Lula tomar esse caminho. São pressões", justifica Dom Tomás Balduíno, presidente da Comissão Pastoral da Terra, o braço agrário da Igreja Católica.
"Este é um governo em conflito, que abriga setores contraditórios, por isso as decisões oscilam", analisa o deputado petista João Alfredo (PT CE), ligado às ONGs ambientalistas. Ele lembra, por exemplo, os embates entre a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, ligada aos movimentos ambientalistas, com o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, defensor do agronegócio, e deste com o ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rosseto, que mantém boa relação com os trabalhadores sem-terra.
Com as manifestações, as entidades populares querem fazer a balança-pender a seu favor. A estratégia tem simpatizantes no próprio governo. Há quem acredite que as invasões de terra e manifestações de rua são a única forma de oferecer unia justificativa para contrariar forças conservadoras. "Não há um pensamento único no governo sobre a condução dos movimentos sociais. Alguns preferem permitir as pressões, outros acham que quanto menos pressão melhor", explica João Alfredo.
Pragmatismo
A pressão calculada tem uma boa dose de pragmatismo político. Com vínculos estreitos no PT e nos partidos de esquerda da base de sustentação, essas entidades esperam que o governo acerte. Eles acreditam que uma derrota do governo Lula dificultará ainda mais a implantação de sua pauta. "Não queremos ver este governo desmoronar, até porque para a elite é importante que dê errado para que ela se perpetue no poder", justifica Cerqueira.
Eles reconhecem que houve um avanço, por exemplo, em relação ao diálogo. Lula criou secretarias submetidas à Presidência da República para marcar a sua preocupação com a área. Mesmo com baixo orçamento, as secretarias especiais de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e de Políticas para Mulheres são instrumentos importantes de comunicação com o governo. "No governo Lula se alterou o processo de interlocução", reconhece a secretária- executiva da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), Silvia Camurça.
Há, porém, dois pontos de preocupação. 0 primeiro é o de que as consultas e discussões não se transformem em ações concretas. E o de que as mudanças na política econômica e no trato de questões históricas nunca ocorram. A decisão sobre o salário mínimo, por isso, representa um primeiro sinal de qual será a aparência do governo. Se o comportamento ortodoxo se estender, o PT pode perder sua base histórica de apoio.
O subsecretário-geral da Presidência da República, Cezar Alvarez, diz não temer, porém, um rompimento com a base social. Como o Palácio do Planalto não trabalha com a hipótese de um fracasso e promete uma mudança de rota econômica, Alvarez acredita que o importante é o diálogo. Com ele se reconstrói o acordo político. "É uma discussão legítima que fez a sociedade, não apenas os movimentos sociais, mas também empresários e sindicatos", argumenta. "E preciso sempre estar repactuando as relações".

CB, 18/04/2004, Política, p. 2

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