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Vou ao espaço ver a Terra do alto

O Globo, Ciência, p. 35
Autor: LOVELOCK, James
15 de Jan de 2010

Vou ao espaço ver a Terra do alto
Pioneiro do aquecimento global, James Lovelock quer observar as transformações

Entrevista: James Lovelock

Os anos 70 nem tinham começado ainda e o britânico James Lovelock já trabalhava numa teoria que soou muito hippie, num primeiro momento, mas se revelaria profética.
Considerado o pai do ambientalismo, o cientista foi um dos primeiros a levantar a questão do aquecimento global em sua hipótese de Gaia - em que apresenta a Terra como um organismo vivo e o homem como o seu maior predador. Seu novo livro, "Gaia: alerta final" (Ed. Intrínseca), em que trata das mudanças climáticas, acaba de ser lançado no Brasil. Em entrevista ao Globo, por telefone, ele criticou as previsões do IPCC e diz que, aos 90 anos, está pronto para ir ao espaço, ver a Terra do alto

Roberta Jansen

O Globo: O senhor pretende ir ao espaço ver a Terra do alto?

James Lovelock: Sim, eu quero ver a Terra do alto, antes que desapareça. Acho que não há nada como ver essa imagem. As fotos dos astronautas são tão impressionantes, quero ter a chance de ver por mim mesmo.

Em seu novo livro o senhor diz que essa imagem icônica da Terra "está sofrendo uma mudança sutil à medida que o gelo branco desaparece gradualmente, o verde das florestas e das pastagens se transforma lentamente no tom pardo das regiões desérticas e os oceanos perdem a tonalidade azul-esverdeadas (...) ao se tornarem desertos".
O senhor espera conseguir ver essas diferenças?

Lovelock: Tenho pensado sobre isso. Não vou tão alto quanto os astronautas. Talvez não consiga ver as mudanças que estão acontecendo. Não sei ainda quando vou partir. Fui conhecer a espaçonave em dezembro, mas o lançamento depende da aprovação do governo americano (Lovelock pretende ir ao espaço com a primeira companhia espacial privada do mundo, a Virgin Galactic).

Por que o senhor diz que a situação do planeta é pior do que aponta o relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU?

Lovelock: Acho que eles subestimaram as mudanças. Mas o que me incomoda mais sobre as previsões é que ninguém tem muita certeza sobre o que está acontecendo. O cenário intermediário do IPCC fala em um aumento de temperatura de 3 graus Celsius até o fim do século, o que é muito ruim. Mas não sei se é real. As alterações não são tão suaves assim, acontecem mais abruptamente. O fato é que não sabemos o suficiente e é tolice fazer esse tipo de previsão.

Mas qual é a alternativa?

Lovelock: O mais importante é ter bons dados, vindos de toda parte. Não podemos fazer boas previsões se não tivermos bons dados, sem entender o que está acontecendo. Nos faltam dados da temperatura do oceano, por exemplo. E isso é importante porque todo o calor do Sol é absorvido pelo oceano.

O que o senhor achou dos resultados da reunião de Copenhague, que produziu apenas uma carta de intenções e não estabeleceu metas climáticas como se esperava?

Lovelock: Não esperava que nada de muito bom viesse de lá, e não veio mesmo. E nem poderia, se pararmos para pensar. As previsões do IPCC são muito amplas. Vão de (um aumento da temperatura média de) 2 graus Celsius até 8 graus Celsius no fim do século. Veja, é uma grande diferença e é difícil para os governos saberem em que acreditar.

O senhor acha que o acordo, como muitos disseram, é um bom primeiro passo?

Lovelock: Acho que é pura política. Não acredito que façam nada efetivamente. As intenções podem até ser boas, mas acho que nem sabem o que fazer exatamente. Não sabemos quais mudanças (climáticas) vão acontecer. E o público fica pressionando: "onde está o aquecimento global com todo esse frio?". Não é fácil.

Os políticos têm a exata noção dos riscos que o planeta enfrenta. Por que não conseguem adotar medidas mais significativas?

Lovelock Porque as principais coisas nas quais estão pensando são recessão e desemprego em seus países. Mesmo em Copenhague eles estavam pensando dessa forma. Não querem se comprometer com gastos (para deter o aquecimento global) que possam ampliar a recessão ou o desemprego.

O senhor acha que teremos outra oportunidade como essa? Outro momento político tão simbólico, com 110 chefes de Estado reunidos?

Lovelock: Mesmo que tenhamos, será inútil. Nada foi feito depois da Rio-92, nem depois de Kioto, exceto mais reuniões. A única forma possível é enxergarmos vantagens financeiras no combate ao aquecimento. É dessa forma que se faz. É o que o Brasil fez com o álcool.

Na sua opinião, quem são os maiores culpados pelo aquecimento global? Quem deve pagar a conta? Os EUA? Os países em desenvolvimento? As economias emergentes?

Lovelock: Não há culpados, não devemos nos sentir culpados. Quando começamos a usar combustível fóssil para cozinhar, para mover máquinas, não pensávamos em destruir o planeta. Não houve má intenção, então não pode haver culpa. Agora que começamos a entender o problema, temos que tentar resolvê-lo. Claro que os EUA serão sempre responsabilizados, assim como a China. Mas acho que estamos todos envolvidos.

Como o senhor vê a posição brasileira em todo esse processo?

Lovelock: Acho a posição brasileira muito interessante, com muitas ações de sucesso, como o biocombustível. Mas acho que vocês também devem começar a se perguntar mais sobre as consequências do aquecimento. O que um aumento de temperatura de 4 graus Celsius a 5 graus Celsius até o fim do século poderá acarretar? E o que poderemos fazer sobre isso? Nos estamos nos preparando para esse tipo de mudança? Estamos procurando soluções locais?

O senhor acha que a adaptação é mais importante que a mitigação (a redução dos gases que causam o efeito estufa)?

Lovelock: Ambos são muito importantes. Mas todas as conversas que ocorrem hoje no mundo são sobre mitigação. É como se achassem que falar em adaptação fosse admitir que não se pode fazer mais nada. Não é bem assim. Temos que pensar em como vamos fazer.

Tantos anos depois de o senhor levantar a questão do aquecimento global pela primeira vez, ainda existem muitos céticos do clima. Como o senhor os vê?

Lovelock: Com muita simpatia. Sério. Eu os entendo de certa forma. Acho que estão errados, claro, o aquecimento global é real. Mas o que vai acontecer, quanto ou quando - pode demorar uma semana ou cem anos - nós não sabemos. Então eu simpatizo com os céticos porque eles intuem que tem algo faltando.

O seu novo livro se chama "Alerta final". Estamos ficando sem tempo para prevenir o aquecimento?

Lovelock: Acho que não temos mais tempo para prevenir, se as coisas acontecerem como prevê o IPCC. Não vejo como as ações possam impedir que aconteça.

O Globo, 15/01/2010, Ciência, p. 35

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