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A vocação da Amazônia

Época - http://epoca.globo.com
Autor: Tônia Machado, Cíntia Marcucci, Isabella Jaggi
19 de out de 2014

O caminho de destruição da riqueza natural da Amazônia é conhecido. Começa com as madeireiras predatórias, que retiram as árvores de valor comercial. Depois vêm os carvoeiros, que queimam a vegetação restante em seus fornos. Por fim, chega o fazendeiro. Ele planta capim, solta o gado e impede a regeneração da floresta. Essa sequência de eventos dura cerca de dez a 15 anos, gera empregos e renda fugazes. Depois, em geral, deixa a região tão pobre quanto começou. O ritmo da devastação caiu 70% nos últimos dez anos, mas continua alto. No ano passado, foi equivalente a quatro vezes o município de São Paulo. Para mudar o rumo da Amazônia, não bastam mais leis severas e fiscalização. É preciso criar alternativas de negócios que gerem mais renda e trabalho com a floresta em pé. Felizmente, essas novas cadeias produtivas já vêm ganhando força. São atividades com potencial para virar vocações sustentáveis para o ambiente e para a população da Amazônia, com benefícios para o resto do país para o mundo. A seguir, alguns dos negócios mais promissores.

AÇAÍ

O verão, estação seca no Pará, vai de julho a dezembro. Nessa época do ano, o entorno da Baía do Guajará, na região de Belém, já respira açaí mal o dia começa. Nos mercados de rua que suprem o consumo local ou nas áreas ribeirinhas, tudo precisa ser feito antes que o sol esquente demais. Em Igarapé-Miri, a 78 quilômetros de Belém, boa parte da população está envolvida na cultura da palmeira de açaí. Em 2012, segundo dados da Empresa de Assistencia Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (Emater-PA), a cidade produziu mais de 160.000 toneladas do fruto. Às margens de um igarapé, o agricultor Luiz Correa amanhece coletando açaí com os dois irmãos na pequena propriedade da família. Por volta do meio-dia, já há 20 latas (de 14 quilos cada uma) do fruto na frente da casa. "Hoje, dá para viver do açaí, e aprendemos como fazer a planta produzir sempre", diz. "Cortamos as árvores mais velhas, retiramos o palmito, e o resto vira adubo. Sempre cuidando dos brotos, que nascem sozinhos." Aos 23 anos, ele trabalha desde a adolescência na função. Depois que o açaí se tornou a principal renda da família, eles (Luiz, os pais, quatro irmãos e dois sobrinhos) têm uma casa mais confortável e luz elétrica. Também puderam comprar um barco maior, para que Domingos, pai de Luiz, recolha açaí nas propriedades vizinhas e revenda no porto regional.

A produção depende da floresta saudável. "Como ainda não se obtiveram sucesso e qualidade com a plantação da palmeira em áreas secas, o produto segue extrativista, para ser rentável", afirma o pesquisador Paulo Amaral, do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Com isso, a opção de desmatar as plantações de açaí é desinteressante. "Na monocultura, a planta fica mais sujeita a doenças e fogo. Por isso, a saída é fazer o manejo sustentável dos açaizais", afirma João Meirelles, diretor-geral do Instituto Peabiru, ONG dedicada ao trabalho com comunidades da Amazônia. Mesmo para grandes indústrias, o caminho é o extrativismo sustentável. É o caso da Coca-Cola. No segundo semestre do ano passado, ela lançou uma bebida feita da polpa de açaí misturada com banana, pela marca Del Valle. "A premissa é respeitar o potencial local das comunidades com que trabalhamos. Avaliamos antes a disponibilidade para garantir que o produto não sofrerá quebra de safra, nem precise ser descontinuado, e isso prejudique as comunidades", diz Claudia Lorenzo, diretora de negócios sociais da Coca-Cola.

Nem sempre foi assim. Até os anos 1990, o açaí era apenas consumido pelos paraenses como reforço alimentar, por ser barato e nutritivo. Da palmeira, tiravam o palmito. Os frutos sobravam tanto que eram jogados nos rios. Se aparecesse outra oportunidade que desse mais dinheiro, os ribeirinhos rapidamente colocariam fogo no que estivesse em suas terras, para plantar algo mais rentável. Foi quando o açaí virou queridinho nas academias do Sul e Sudeste, e a demanda cresceu. Hoje, com o açaí cada vez mais apreciado no Brasil e no exterior, é difícil um declínio do consumo que reduza seu valor econômico. O desafio é garantir que a venda de açaí continue pagando bem o produtor, para que ele não desista por algo mais rentável e desmatador.

Açaí

Oportunidade

Gera renda e emprego com uma planta que vive nas margens de rios e igarapés. Para explorar, não é preciso desmatar

Risco

Muitos apenas extraem os frutos e esgotam a mata. Isso pode forçá-los a dar outro destino à terra

ESSÊNCIAS

A indústria de cosméticos e perfumes sabe, não é de hoje, que a Amazônia está cheia de ingredientes ricos e rentáveis. Uma das fragrâncias mais famosas do mundo, o Chanel no 5, usa em sua fórmula a essência do pau-rosa. Antes extraída da madeira, hoje vem de folhas dessa espécie, nativa da floresta. Nomes como andiroba, castanha-do-brasil, buriti, vitória-régia, murumuru, copaíba, cupuaçu e priprioca já são conhecidos do consumidor. Assim como o açaí, são boas alternativas para que a Amazônia dê lucro, gere emprego, renda e permaneça preservada. Essas essências são o principal sustento de lavradores como Antônio dos Santos, de 62 anos, da comunidade de Campo Limpo, no município de Santo Antônio do Tauá, a 56 quilômetros de Belém, no Pará. Ele trabalha numa cooperativa que planta e extrai espécies como priprioca, capitiú e estoraque para a empresa de cosméticos Natura. "Antes, aqui a gente fazia queimada para plantar feijão, arroz, mandioca. Agora, sabe que dá para o sustento da terra sem destruir", diz. "Nossos filhos queriam sair daqui para buscar dinheiro nas cidades grandes. Agora, querem continuar nosso trabalho e preservar a natureza daqui."

O desafio para que mais gente seja beneficiada e para que mais empresas invistam em projetos similares esbarra numa legislação ambiental complicada e não exatamente eficaz. O princípio é correto. Segundo a Convenção da Diversidade Biológica, da qual o Brasil é signatário, quando uma empresa decide explorar uma espécie nativa, é preciso que ela pague pelo acesso genético (ao entrar num local para retirar e estudar a planta), pelo conhecimento tradicional (ao aprender com comunidades locais a manipular a planta) e pelo fornecimento da matéria-prima em si. "Da maneira que é hoje, o CGEN (Conselho de Gestão do Patrimônio Genético, órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente) tem propostas e normas difíceis de interpretar. Elas acabam sendo um fator de desistência das empresas que pretendem pesquisar a biodiversidade, pois aumentam muito os riscos da iniciativa", diz o economista João Tezza. Outro desafio é a falta de regularização fundiária da Amazônia. É difícil atribuir responsabilidades numa região onde a propriedade da terra é muitas vezes indefinida. "Isso atrapalha as empresas que querem investir nesse negócio", afirma Daniel Sabará, diretor executivo da Beraca, empresa que extrai matérias-primas para diversas indústrias, como a cosmética.

Essências

Oportunidade

Desenvolve comunidades por meio da exploração de diversas espécies de plantas que coexistem na floresta

Risco

A legislação complexa dificulta os investimentos e abre brechas para a corrupção e a exploração inadequada da biodiversidade

REFLORESTAMENTO

Em todo o Brasil, 90% da madeira produzida vêm de florestas plantadas. São quase 7 milhões de hectares das espécies exóticas eucalipto e pínus. A maior parte das plantações está nas regiões Sul e Sudeste. Nos últimos anos, as terras já demarcadas da Amazônia surgiram como oportunidade para esse negócio. Omaior polo de reflorestamento da região é o município de Paragominas, no Pará. Após entrar para a lista dos mais desmatadores divulgada pelo ministério do Meio Ambiente, em 2008, a cidade mudou sua trajetória. O governo local assinou um pacto de desmatamento zero com produtores rurais e a sociedade civil. o programa, chamado Município Verde, incentivou a regularização dos produtores, o licenciamento de atividades rurais e também aumentou o desmatamento sobre o desmate. Em 2010, veio o resultado. Paragominas foi o primeiro município brasileiro a deixar a lista de desmatadores. No ano seguinte, o programa passou para a esfera estadual e, desde então, 104 dos 144 municípios paraenses aderiram. "Com o programa, assumimos o compromisso da produção rural sustentável", afirma Justiniano Netto, secretário de Estado do Programa Municípios Verdes. Uma das estratégias de Paragominas foi substituir atividades predatórias ou alternativas sustentáveis, como o reflorestamento.

A empresa de reflorestamento Floraplac foi uma das primeiras na região. Segundo Adalberto Veríssimo, pesquisador do Imazon, ela gera mais renda que as centenas de madeireiras ilegais juntas do passado. Ela fabrica placas de MDF com madeira de florestas próprias plantadas. São 29.000 hectares de eucalipto e de paricá, espécie nativa da Amazônia. Foram plantados em áreas antes degradadas pelo desmatamento. "Encontramos aqui terras excelentes", diz Silvano D'Agnoluzzo, sócio diretor do Grupo Concrem. A madeira é vendida a empresas do setor moveleiro nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

Além de MDF e celulose, as florestas plantadas também podem produzir madeira para a geração de energia. Esse é um dos negócios da Floresteca, instalada no sul do Pará e em Mato Grosso. A empresa é a maior plantadora de teca (espécie asiática) do mundo. Tem 40.000 hectares no Brasil. Por produzir uma madeira nobre, as toras e a madeira serrada são destinadas à marcenaria e à decoração. O resto - cerca de 30% - vai para caldeiras de grandes indústrias, que não precisam mais tirar carvão de matas nativas. "Vimos no plantio de florestas uma oportunidade sustentável de abastecimento de madeira. Assim, freamos a devastação", diz Sylvio Coutinho, presidente da Floresteca. O uso de carvão vegetal de reflorestamento ainda é pequeno na Amazônia. De acordo com o IBGE, em 2010, apenas 17% de toda a madeira plantada na região virou carvão vegetal.

Essas empresas contam com incentivos. O BNDES Florestal financia o plantio para fins comerciais e a recuperação de áreas degradadas. De 2004 a 2013, destinou R$ 3,7 bilhões ao financiamento de florestas plantadas em todo o país. O Fundo Amazônia, também gerido pelo BNDES, dá crédito a pequenos produtores rurais da região. O programa Municípios Verdes, do governo do Pará, é o maior projeto apoiado pelo fundo. Ainda é pouco diante das facilidades oferecidas a atividades de mais impacto, como a pecuária. Só em 2008, o mesmo BNDES ofereceu R$ 5,7 bilhões a pecuaristas e frigoríficos em expansão na Amazônia. "O Brasil incentivou muito o gado, que pressiona a floresta. Parte desse esforço poderia ir para uma atividade econômica florestal mais competitiva e rentável. Com os incentivos, a indústria em larga escala cresce, e os compradores aparecem", afirma Veríssimo, do Imazon.

Os ganhos gerados pelo plantio de florestas vão além dos econômicos. Antes de tudo, elas prestam serviços ambientais essenciais para o mundo. As árvores são como bombas hidráulicas. Puxam água profunda do solo e jogam para a atmosfera. Quanto mais cobertura arbórea, mais carbono será retido, e mais biomassa será produzida. "Quanto mais árvore na paisagem, melhor. Mesmo que os biólogos queiram a maior diversidade biológica possível, sempre prefiro que, no lugar de um pasto degradado, haja uma floresta. Ainda que seja relativamente homogênea, como as plantadas", diz Veríssimo.

HIDRELÉTRICAS

Pode parecer surpreendente a produção de energia hidrelétrica constar numa lista de atividades sustentáveis na Amazônia. A construção das usinas é considerada um dos grandes fatores de desmatamento e destruição ambiental na região. Mas isso pode mudar. Parte dos impactos estão ligados à obra, como o desmatamento no local de instalação das usinas e a inundação de áreas da floresta para formar reservatórios. A maior parte da devastação ocorre fora da área de ação de quem constrói a usina. O Imazon fez uma projeção do impacto gerado por 12 empreendimentos projetados para a bacia do Rio Tapajós. O aumento populacional provocado pelas obras poderá causar, em 20 anos, 950.000 hectares de desmatamento. A falta de planejamento das obras agrava deficiências sociais históricas da Amazônia. No caso da usina de Belo Monte, os índices de violência na região aumentaram depois do início das obras. O município mais próximo da hidrelétrica, Altamira, no Pará, registrou aumento de 62% no número de prisões e de 379% na quantidade de armas apreendidas, entre os anos de 2010 e 2011.

Hidrelétricas

Risco

No modelo atual, o investimento atrai população, agrava problemas sociais e gera desmatamento na região

Oportunidade

O investimento pode servir para oferecer serviços, criar unidades de conservação e estimular atividades não predatórias na região

Para atenuar o impacto das hidrelétricas, o Brasil apostou nas usinas a fio d'água. Elas contam com lagos pequenos ou inexistentes. As turbinas geram energia apenas com a pressão hidráulica do rio. Essas usinas geram outro problema ambiental. Os reservatórios são fundamentais para garantir a geração de eletricidade em períodos de estiagem. Mesmo quando o país conta com outras fontes de energia limpa, como solar e eólica, precisa de uma fonte segura, quando não há vento nem sol forte. Como o Brasil constrói poucas hidrelétricas com lagos, a capacidade de estocagem caiu. Nos anos 1970, o país tinha água para gerar energia durante um ano sem chuva. Agora, não tem reservas para cinco meses. A alternativa tem sido acionar usinas termelétricas, cuja emissão de gás carbônico é a principal responsável pelas mudanças climáticas. E contar com as centrais nucleares. A presença de reservatório faz pouca diferença nos efeitos indiretos do empreendimento, os maiores. Em 2010, o Estado de Rondônia foi campeão nacional de desmatamento, e a devastação estava justamente na área de influência das usinas (a fio d'água) do Rio Madeira.

Não deveria ser assim. A produção de eletricidade a partir da força hidráulica dos rios precisa da floresta sadia. Cada árvore amazônica, pela transpiração das folhas, bombeia em média 500 litros de água por dia. Sem elas, o ciclo das chuvas se rompe. O prejuízo é nacional. O Sudeste vive a pior seca dos últimos anos em parte por causa do desmatamento na Amazônia, que reduziu o fluxo de umidade na atmosfera do norte para o sul do Brasil. Por isso, deve ser do interesse de quem vive de eletricidade que as árvores, as fábricas de chuva, continuem lá e prestem esse serviço. Em vez de estimular a destruição, os investimentos em hidrelétricas poderiam servir para incentivar a conservação das áreas do entorno e para estimular atividades não predatórias, como a extração sustentável de madeira, o turismo e alguns dos outros negócios citados nesta reportagem. Os recursos também podem ser usados para regularização fundiária na região e para criar unidades de conservação, como parques nacionais, reservas extrativistas (que geram frutos da mata em pé) ou florestas nacionais (em que madeireiras produzem sob concessão, num ritmo que deixa as árvores se regenerar). "A região se sacrifica pelo resto do Brasil, e, para que isso seja mais positivo, uma parte do recurso arrecadado precisa ficar na região, em forma de investimento", afirma Veríssimo, do Imazon. No caso do Tapajós, um estudo do Imazon mostra que a região deveria receber até R$ 4,9 bilhões por ano para compensar o impacto socioambiental das usinas hidrelétricas.

A Santo Antônio Energia, responsável pela hidrelétrica de mesmo nome no Rio Madeira, fez investimentos para compensar seus impactos. Em três anos, replantou 1.600 hectares e gastou R$ 664 milhões para realocar a população atingida. Alguns se adaptaram. O agricultor Domingos Mendes da Silva foi transferido para o reassentamento de Santa Rita, a 60 quilômetros do centro de Porto Velho. Recebeu cursos técnicos e aprendeu a criar o peixe pirarucu, espécie típica do Madeira, com valor comercial. Hoje, ele já tem sete tanques em sua propriedade e, além de vender os peixes, aproveita a água usada na criação para irrigar suas plantações com frutas também típicas da região, como o açaí. Histórias assim ainda são exceção na Amazônia. Aproveitar os empreendimentos para incentivar a conservação é a única forma de garantir que a Floresta Amazônica continuará a ser a maior usina de chuvas do Brasil.

Reflorestamento

Vantagens

As plantações de árvores em áreas desmatadas criam uma alternativa para produzir madeira e carvão e reduzem a pressão sobre a floresta nativa

Riscos

Por falta de fiscalização, algumas empresas podem desmatar floresta nativa para plantar pinus ou eucalipto

http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/blog-do-planeta/noticia/2014/10/…

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