O Globo, Opinião, p. 7
Autor: CASTRO, Luiz Claudio Ferreira
21 de Jan de 2011
Vizinhos sem risco
Luiz Claudio Ferreira Castro
Imagine os melhores músicos e instrumentos musicais reunidos em uma sala de concerto. Todos sob a regência do melhor maestro. Partituras de uma difícil sinfonia são distribuídas entre eles. Não é de se esperar que toquem "di prima", em harmonia. O maestro precisa impor sua interpretação, e fazê-la entender aos músicos. Ensaios com os vários naipes de instrumentos terão que ser conduzidos em separado, pelo tempo necessário para que se afinem individualmente. Quando as partes estiverem prontas, mais tempo e dedicação serão necessários para que a orquestra soe completa e perfeita!
O mesmo ocorre com as instalações de grandes complexos industriais. Sobretudo na área de siderurgia integrada, em que as últimas usinas completas no Brasil entraram em funcionamento há quase 30 anos, ainda no regime militar: Açominas, em Ouro Branco (MG), cujas operações começaram em julho de 1986, e CST, na Grande Vitória (ES), em novembro de 1983. Dada a complexidade dos processos, mesmo que os melhores equipamentos estejam instalados e os melhores técnicos envolvidos, é de se esperar que muitos ajustes precisem ser feitos para que todo o processo de produção se harmonize.
Nos projetos industriais, essa fase - correspondente aos ensaios da orquestra - é chamada de "pré-operação", período de testes e ajustes, quando desvios aparecem e são alterados.
Quando se fala de um grande complexo industrial, são centenas de milhares de conjuntos, peças e sistemas para serem postos em marcha, com sequência exata de entrada, ajustes milimétricos de equipamentos, acertos de parâmetros dos processos, ou seja, uma infinidade de detalhes que, ao longo da pré-operação, tendem progressivamente a entrar em harmonia. A única forma de superar as dificuldades identificadas nessa fase consiste em operar continuada e repetidamente, e alterar os rumos quando necessário.
Vivemos, no momento, a pré-operação do primeiro de uma série de novos projetos industriais a serem instalados no país: a Companhia Siderúrgica do Atlântico - CSA, maior investimento privado realizado no Brasil nos últimos 15 anos (5,2 bilhões de euros). A usina da CSA começou sua pré-operação em julho de 2010, no Distrito Industrial de Santa Cruz, município do Rio de Janeiro. Como ocorre em toda pré- operação - no Brasil, na Alemanha ou em qualquer outro lugar do mundo - algumas não conformidades foram identificadas, e vêm sendo corrigidas.
Segundo o Instituto Aço Brasil, o parque produtor de aço no Brasil comporta hoje 28 usinas. A capacidade de produção instalada é de 42,1 milhões de toneladas por ano de aço bruto. Pelo menos sete novas siderúrgicas integradas e três expansões de usinas existentes estão previstas para a próxima década, marcando um ressurgimento da siderurgia brasileira, agregando valor ao minério de ferro abundante no País, gerando milhares de empregos e dinamizando a economia nacional.
Projeto siderúrgico pioneiro a se instalar depois de tantos anos, junto a uma comunidade não habituada à siderurgia, a CSA experimenta uma natural desconfiança por parte da população vizinha, das autoridades ambientais, do Ministério Público e de outros atores. A reação é esperada: perdemos no Brasil a memória de como é instalar uma siderúrgica.
Na verdade, nunca se instalou uma usina num contexto de tamanha importância das questões ambientais e sociais na estratégia do desenvolvimento.
Fato é que nenhuma outra usina do país e poucas no mundo têm controles ambientais tão modernos quanto os instalados na CSA. Nenhuma tem tanta certeza de que, apesar de incômodos ocorridos, sua operação não traz riscos para a saúde de seus vizinhos. Nenhuma tem uma administração, gestores e sócios controladores mais comprometidos em solucionar todos os incômodos de vizinhança, no menor tempo possível. No entanto, nossa orquestra de aço ainda ensaia em sua pré-operação. E ainda ensaiará por algum tempo.
É assim com a CSA, e será assim com todos os futuros projetos de siderurgia, mineração, refino de petróleo, petroquímica e outras indústrias de base no Brasil .
Luiz Claudio Ferreira Castro é biólogo e diretor da ThyssenKrupp CSA
O Globo, 21/01/2011, Opinião, p. 7
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