OESP, Espaço Aberto, p. A2
Autor: NOVAES, Washington
11 de Jun de 2004
Vivos - mas no lixo?
Washington Novaes
Millôr Fernandes costuma dizer que, "de onde menos se espera, daí mesmo é que não vem nada". Desta vez, entretanto, de onde não se esperava é que veio - e nada menos que uma bomba literalmente nuclear. O fato é que o famoso cientista James Lovelock, o "pai" da hipótese de que a Terra é um organismo vivo ao qual denominou "Gaia" - e por isso se tornou um dos ícones dos "ambientalistas" -, em artigo publicado no jornal Independent, depois de afirmar categoricamente que mudanças climáticas são "uma ameaça maior que o terrorismo" e também "o maior perigo já enfrentado pela civilização", assegurou, com a mesma convicção, que a única forma de enfrentar com eficácia o problema é substituir imediatamente a energia de fontes fósseis (petróleo, gás, carvão) pela energia nuclear.
Estupefação quase geral. Ainda mais que mal transcorrera o 18.o aniversário da explosão na usina nuclear de Chernobyl, que fez milhões de vítimas com a radiação, dezenas de milhares de mortes e tem seqüelas até hoje - mostradas com crueza no recente VI Festival de Cinema e Vídeo Ambiental, na cidade de Goiás, pelo documentário Chernobyl Heart, já ganhador de um Oscar. Ali apareciam até crianças em que o cérebro não cabe na caixa craniana, por isso se aloja em algo parecido com uma bola de futebol, presa à parte posterior da cabeça; crianças com o coração e a tireóide gravemente lesados; pernas, braços, mãos e pés terrivelmente deformados; e muito mais.
Para completar, ocorreu no momento em que o Brasil se via no meio de enorme controvérsia por causa das informações de que estaria pretendendo vender urânio à China e iniciar a construção da usina nuclear Angra 3. E na hora em que o mundo todo discutia em Bonn, na Alemanha, propostas para avançar com a participação de energias renováveis na matriz energética de cada país.
Lovelock, porém, acha que "não há chance de que as fontes renováveis - ventos, marés e hidrelétricas - possam prover a energia necessária em tempo hábil". Precisaríamos de 50 anos para isso, entende ele, mas não dá para esperar, com a premência de soluções imediatas. A única possibilidade seria a nuclear, "imediatamente disponível". A oposição a ela estaria "baseada em medo irracional, alimentado pela ficção do estilo hollywoodiano, pelo lobby verde e pela mídia". E, ainda que houvesse perigos, representariam uma ameaça insignificante se comparados com os riscos de ondas de calor indesejáveis.
Não há no texto nenhuma palavra sobre Chernobyl e outros acidentes, sobre o problema sem solução do lixo nuclear, sobre a decisão da Alemanha (onde a energia nuclear responde por quase um terço do total) de desativar todas as suas usinas (exatamente por causa dos riscos de acidentes e da ausência de solução para os resíduos), sobre outros países europeus que também já vão desativar as suas usinas (Suécia, Bélgica, Espanha), nem sobre os custos da energia nuclear (maiores que os da eólica, por exemplo, se gerada por uma usina nova).
A falta de destinação adequada para os resíduos pesa poderosamente na decisão de desativar as usinas, que tem alto custo (US$ 1 bilhão para fechar e selar cada uma). A França, que tem quase 80% de sua energia gerada em usinas nucleares, tem de despejar seu lixo em fossas abissais no Pacífico Sul. Na Alemanha, ele vai para o fundo de minas de ferro desativadas. Em 2000, quando gravava um documentário para a televisão, o autor destas linhas perguntou a um alto funcionário do governo, em Bonn, se era uma solução adequada. Ele, muito sério, respondeu: "Como funcionário do governo, digo que sim." E completou com uma sonora gargalhada. Nos Estados Um idos, onde se implanta ao custo de muitos bilhões de dólares um depósito para esse lixo sob uma montanha da Serra Nevada, 300 metros abaixo do nível do solo externo, um geólogo do Departamento de Energia, também perguntado pelo autor destas linhas se não havia ali perigo de tremores de terra ou terremotos, com a maior calma disse que houvera um de 5,3 graus a três milhas (menos de 5 quilômetros), pouco tempo antes, mas não se considerava o risco alto ou comprometedor do projeto. Nem a possibilidade de contaminação de lençóis subterrâneos de água ao longo das dezenas de milhares de anos em que a radiação permanecerá - apontada por outros especialistas. Quanto ao risco dos vulcões inativos, a poucos quilômetros, apenas sacudiu os ombros.
No Brasil mesmo, o coordenador-geral de Licenciamento e Controle da Comissão Nacional de Energia Nuclear admitiu há poucas semanas (Estado, 21/5) que a fiscalização de 18 unidades nucleares e 2.400 instalações licenciadas para atuar com material nuclear é "feita na medida do possível", devido ao déficit de 40% no quadro de funcionários. Nas usinas Angra 1 e 2 o lixo nuclear é mantido em contêineres ou piscinas na própria usina, por falta de destinação final aprovada. Mesmo assim, pretende-se aplicar mais US$ 1,8 bilhão em Angra 3, para gerar energia a custo em torno de R$ 120 o MWh (sem contar o eventual, mas necessário, custo da destinação final).
E isso na hora em que o próprio Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) aponta que o consumo médio no País está em 45 mil MW (56,4 mil em alguns momentos de pico, para uma oferta de 82 mil MW médios) - portanto, com uma sobra mínima de 25,6 mil MW. Tanta sobra que se negocia até exportar energia para a Argentina e a Petrobrás quer vender ao México, por U$ 200 milhões, dez turbinas para termoelétricas que comprou por US$ 360 milhões. O risco de "apagão", diz o ONS, está afastado até 2008, pelo menos, ainda que o País cresça 3,5% ou 4% ao ano e o consumo de energia suba 6,5% (Folha de S.Paulo, 7/6).
É certo que estamos destinando R$ 8,6 bilhões ao programa de financiamento de energia eólica, da biomassa e de pequenas centrais hidrelétricas, para que se instale potência de 3,3 mil MW. Mas é pouco diante do potencial calculado, entre 60 mil e 90 mil MW só para a energia eólica no Nordeste, mais 40 mil MW da energia de marés no Sul/Sudeste.
Somos certamente um dos poucos países com possibilidade de substituir as energias fósseis condenadas por Lovelock. Resta saber em que tempo.
Quanto ao resto do mundo, a polêmica certamente vai-se incendiar.
Washington Novaes é jornalista
OESP, 11/06/2004, Espaço Aberto, p. A2
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