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Vivendo num planeta sem macacos

OESP, Vida, p. A22
Autor: MITANI, John C.
10 de Set de 2011

Vivendo num planeta sem macacos
Se não agirmos agora, no futuro nossos filhos e netos perguntarão por que nós ficamos parados enquanto os grandes símios eram extintos

John C. Mitani
N.Y.TIMES

O lançamento do filme Planeta dos Macacos: a Origem coloca os grandes símios diretamente na consciência do grande público. Os frequentadores dos cinemas poderão se surpreender ao saber que antes de os seres humanos chegarem à cena, há cerca de 7 milhões de anos, os grandes macacos realmente governavam este planeta. Pelo menos 40 espécies vagavam pela Eurásia e pela África entre 10 milhões e 25 milhões de anos atrás. Hoje, restam somente cinco tipos. Dois vivem na Ásia, o gibão e o orangotango; os outros, o chimpanzé, o bonobo e o gorila, vivem na África. Os cinco estão ameaçados, alguns criticamente. Todos correm o risco de extinção.
Uma década atrás, o Congresso americano iniciou um esforço relativamente barato, mas importante, para proteger esses macacos com programas de preservação inovadores na África e na Ásia que combinavam dinheiro dos contribuintes e recursos privados. Mas as tentativas para reabilitar o Fundo de Conservação dos Grandes Símios empacaram no Congresso e podem ser vítimas do debate maior sobre a dívida nacional.
A descrição dos grandes macacos por Hollywood como criaturas astutas - e até calculistas - chega perto da verdade. Há 50 anos, as observações de Jane Goodall sobre chimpanzés que usavam ferramentas e comiam carne demonstraram como os grandes símios são parecidos com os seres humanos.
Novos trabalhos de campo corroboraram esse ponto. Gibões, há muito considerados monogâmicos, ocasionalmente se acasalam com indivíduos fora de seu grupo. Orangotangos imaginam ferramentas para extrair sementes que, de outra forma, seriam difíceis de colher. Gorilas se engajam em intercâmbios vocais conversacionais, bonobos parecem fazer sexo não só para se reproduzir, mas também para aliviar o estresse. Chimpanzés machos formam coalizões para matar seus vizinhos e assumir o controle de seu território.
Se tudo isso parece humano, é por uma boa razão. Os grandes macacos são nossos parentes vivos mais próximos e, em anatomia, genética e comportamento, eles são muito mais semelhantes a nós que a outros animais.
Mas, enquanto a população humana se expande, o número de macacos continua a diminuir. Nos filmes anteriores da série Planeta dos Macacos, cobiça e consumo demonstrados por macacos parecidos com humanos colocaram o mundo em risco. Na verdade, são esses traços muito humanos que colocam os grandes símios em risco.
A destruição dos hábitats pela atividade humana, incluindo exploração de madeira, de petróleo e agricultura de subsistência, é o principal problema. A caça é outro entrave, especialmente na África Ocidental e Central, onde o comércio de carne de animais selvagens ameaça os grandes símios. Agora, caçadores ilegais entram em florestas antes impenetráveis por estradas construídas por mineiros e madeireiros. E surtos periódicos de doenças mortais que podem infectar seres humanos e macacos, como o vírus Ebola, começaram a devastar populações de chimpanzés e gorilas.
Fascínio. Os grandes macacos nos fascinam e cativam como nenhuma outra espécie. Eles são a principal atração em zoológicos, e cientistas de disciplinas que variam de antropologia a biologia e psicologia os estudam de perto em cativeiro e na vida selvagem. Como nossos primos-irmãos na família primata, os grandes macacos nos ajudam a compreender o que nos faz humanos.
A Lei de Conservação dos Grandes Símios, sancionada em 2000, autorizou o gasto anual de US$ 5 milhões durante cinco anos para ajudar a proteger macacos na vida selvagem. A lei foi renovada em 2005 para outros cinco anos. O programa combina recursos públicos e privados para aumentar ao máximo seu impacto. Desde 2006, por exemplo, os US$ 21 milhões de recursos federais gastos pelo fundo geraram US$ 25 milhões adicionais em verbas privadas e apoio de outros governos.
O dinheiro federal pode não parecer muito nesta era de "grande ciência", mas esses dólares foram importantes para proteger grandes símios em países que são deseperadamente pobres e politicamente voláteis. O dinheiro é usado para proteger hábitats, combater caçadores ilegais e educar populações locais sobre a importância desses macacos.
Um planeta sem macacos não é uma fantasia de ficção científica. Se não agirmos agora, em algum momento do futuro, quando Hollywood continuar produzindo sequências do filme clássico de 1968, nossos filhos e os filhos de nossos filhos perguntarão, espantados e talvez com certa raiva, por que nós ficamos parados enquanto essas criaturas notáveis eram levadas à extinção. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É PROFESSOR DE ANTROPOLOGIA NA UNIVERSIDADE DE MICHIGAN

OESP, 10/09/2011, Vida, p. A22

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