Valor Econômico, Negócios Sustentáveis, p. G3
19 de Abr de 2013
Vistoria de chaminés monitora indústrias e controla emissões
Por Sergio Adeodato
Para o Valor, de São Paulo
Chova ou faça sol, subir ao topo de chaminés a uma altura que pode atingir 60 metros, com 80 quilos de equipamentos nas costas, é rotina para uma tropa de 15 homens da Cetesb, agência ambiental paulista, responsáveis por vigiar a fumaça das indústrias. Na manhã de 3 de abril, o trabalho se repetiu na usina termelétrica da Petrobras em Cubatão (SP), monitorada periodicamente para análise da poluição emitida na queima de gás natural que abastece com vapor e eletricidade a Refinaria Presidente Bernardes.
Com capacidade de 216 MW, a central tem porte suficiente para abastecer uma cidade de 800 mil habitantes. Ao alcançar o alto daquela estrutura, o técnico inseriu na boca da chaminé uma sonda capaz de sugar gases. O material particulado, como a fuligem, foi retido pelos filtros. Os demais poluentes atmosféricos, foram capturados em soluções líquidas. Todas as amostras seguiram para análise de laboratório.
É preciso preparo físico e, principalmente, cuidado com os ventos. Quatro equipes se revezam diariamente no trabalho, em duplas. Além dos gases, são também coletados dados sobre temperatura, umidade, teor de oxigênio e velocidade do ar. Em solo, outro auditor do grupo obtém informações sobre as operações e a capacidade produtiva da planta industrial. Na empresa farmacêutica Pfizer, em Guarulhos, o alvo naquela semana foi o incinerador de resíduos perigosos. Como a fábrica produz vacina para animais, as sobras da produção devem ser eliminadas por queima no local, sem riscos de contaminação de solo e água em caso de acidentes no transporte até algum aterro ou outro lugar para a destinação final.
No caso da fábrica da Basf, produtora de defensivos agrícolas e insumos químicos em Guaratinguetá (SP), a vistoria teve como objetivo a renovação da licença. Capaz de processar 3,6 mil toneladas por ano, incluindo resíduos hospitalares do município, o incinerador tem tecnologia alemã para tratamento de gases e é monitorado por sistema de controle que otimiza custos ambientais. "Nos últimos dez anos, conseguimos reduzir em 26% as emissões", informa o diretor de meio ambiente, Bert Neuneuer.
O Plano de Monitoramento de Emissões Atmosféricas, criado pelo governo estadual em 2005 e renovado em 2010, dá as regras do jogo para os testes das chaminés, obrigando inclusive a existência de escada para a subida até o topo. "Nenhum licenciamento é liberado sem avaliação do impacto no ar", garante Maria Cristina Poli, gerente do setor de qualidade do ar, da Cetesb.
Após a licença de operação, as indústrias solicitam auditoria, que se repete conforme a atividade produtiva. Refinarias e petroquímicas, por exemplo, são inspecionadas anualmente. Setores que emitem chumbo, a cada seis meses. Fora essas situações especiais, a coleta e análise rotineira de amostras em laboratório, conforme manda a norma, são de responsabilidade de empresas especializadas, contratadas pelas indústrias. A agência ambiental faz a auditagem dos dados e a calibração dos aparelhos de medição.
O órgão ambiental tem apenas um agente para cada 100 indústrias prioritárias para o controle da poluição atmosférica no Estado. O foco do controle são os poluentes de efeito local, como material particulado, dioxinas, compostos orgânicos, metais e, principalmente, óxidos de enxofre e nitrogênio. Esses são liberados nos processos de queima em usinas de açúcar e álcool, incineradores e outras atividades industriais, contribuindo com o aumento do ozônio no ar. Segundo Poli, também as emissões de impacto global, como dióxido de carbono, metano e outros gases do efeito estufa, hoje não aferido, em breve precisarão de monitoramento. A demanda deverá crescer quando as regulações do governo sobre clima obrigarem o controle diretamente nas chaminés.
Em São Paulo, o centro das atenções está nos poluentes que aumentam o ozônio, capaz de causar doenças respiratórias e prejuízos na produção agrícola. "É a contaminação que ultrapassa com maior frequência os limites aceitáveis", atesta Carlos Eduardo Kamatsu, gerente de qualidade do ar da Cetesb. "Falta uma política específica para as fontes dessas emissões, de fornos à lenha de pizzarias até grandes caldeiras industriais", diz Kamatsu. O problema é agravado pelas condições climáticas atípicas, principalmente no fim da primavera e começo do verão. A indústria é responsável por 68% das emissões de dióxido de enxofre. Em 2012, o órgão ambiental emitiu 202 advertências e multas referentes à poluição ar.
Qualidade do ar reduz expectativa de vida do paulistano
Por De São Paulo
O patinete e a bicicleta elétrica dobrável que dividem espaço com prateleiras de livros científicos dão pistas sobre o teor das pesquisas desenvolvidas naquela sala do primeiro andar da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (SP). Após pedalar em dia de chuva para chegar ao laboratório especializado nos custos da poluição atmosférica para a saúde, o pesquisador Paulo Saldiva, do Departamento de Patologia, abre uma planilha no computador com o objetivo de mostrar o que pouca gente imagina quando respira o ar na metrópole. Ele aponta para a tabela e conclui: "Uma redução de 10% na poluição da capital paulista entre 2000 e 2020 evitaria 114 mil mortes por doenças respiratórias e cardiovasculares e um prejuízo de US$ 11 bilhões".
Modelos matemáticos de instituições internacionais balizam projeções que avaliam a relação entre custo e benefício do controle da poluição no Brasil. "O paulistano ganharia em média três anos de expectativa de vida se a qualidade do ar de São Paulo se tornar igual à de Curitiba", ilustra Saldiva, para quem as soluções passam por decisão política.
Os pesquisadores cruzaram mapas globais da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para demonstrar que as regiões mais ricas têm poluição do ar menos intensa e as mais pobres registram os maiores índices, em decorrência da falta de investimentos em tecnologia e controle. "São Paulo não segue essa tendência, apesar de ser a capital mais desenvolvida do país e ter uma universidade, a USP, que está entre as cinco instituições que mais pesquisam poluição atmosférica no mundo", revela Saldiva, citando dados da organização Web of Science sobre produção científica. "Pressões econômicas impedem que os padrões de controle evoluam", reforça.
Após seis anos de estudos, o governo estadual decidiu adotar os padrões de qualidade do ar recomendados pela Organização Mundial de Saúde, previsto para entrar em vigor em 2013 com o aperto gradativo dos índices de controle ao longo do tempo.
A poluição do ar em São Paulo tem causado anualmente em torno de 130 mil episódios de afastamento do trabalho em decorrência de doenças, segundo estudo concluído no ano passado pela USP levando em conta a população economicamente ativa. O custo das ausências supera US$ 6,4 milhões por ano. Os resultados subsidiam decisões de investimento em tecnologias, combustíveis mais limpos e políticas públicas para as regiões expostas à poluição.
Um dos últimos avanços foi a redução do teor de enxofre no diesel brasileiro, fruto de novas normas do Conama e de um acordo mediado pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente junto ao setor produtivo. A concentração caiu de 1,8 mil partes por milhão para 500 e depois para 50 partes por milhão, a partir de janeiro de 2012. (S.A.)
Valor Econômico, 19/04/2013, Negócios Sustentáveis, p. G3
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