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A vingança dos nanicos

O Globo, Ciência, p. 24
24 de Mai de 2011

A vingança dos nanicos
Países insulares questionam emissores de gases-estufa nos tribunais

Cansados de serem ignorados nas negociações climáticas, os países insulares recorrerão a uma nova estratégia para impedir o aumento da temperatura global e do nível dos oceanos, que ameaçam a sobrevivência de seus territórios. Os Estados Federados da Micronésia (EFM) - uma nação composta de 607 ilhas no meio do Pacífico - pedirão uma avaliação do impacto ambiental provocado pela ampliação da usina de carvão Prunerov II, na República Tcheca. É a primeira vez que este pedido judicial é feito não por um país vizinho, mas de outra região do planeta.
Em abril, o ministério tcheco do Meio Ambiente deu aval para a obra, mas reconheceu os EFM como um "Estado afetado" pela ampliação daquela estrutura. Por isso, a usina terá de promover ações ambientais que compensem a sua emissão de gases-estufa.
- Criamos um novo precedente legal. Outros países poderão, a partir de agora, requerer participação no processo decisório que autoriza os projetos de energia suja - comemora Kristin Casper, do conselho jurídico para campanhas e ações do Greenpeace. - Vamos levantar a preocupação da opinião pública e negociar acordos que reduzam os impactos climáticos.
Representantes de governos de toda a região da Micronésia e autoridades em mudanças climáticas estão, desde ontem, discutindo soberania e tendo aulas de direito internacional na Universidade Columbia, em Nova York. A pauta vai de medidas para preservação da costa à definição sobre o que seria um refugiado ambiental.
Não faltam motivos para que as nações insulares queiram recorrer aos tribunais. O risco de desaparecimento desses países cresceu nas últimas décadas. No século passado, entre os anos 30 e 90, o mar subia, em média, de 1 a 2 milímetros por ano na região micronésia. Hoje, esse índice chega a 5 milímetros anuais, suficiente para causar impacto visível.
Nem os mortos descansam em paz nas Ilhas Marshall, um dos países integrantes daquela comunidade.
Uma tempestade recente inundou um cemitério, expondo cadáveres e levando tumbas para o mar.
- É só comparar fotos de agora com as de 15 anos atrás. as mudanças são dramáticas - assegura Martin Spachula, segundo-secretário da representação dos EFM na ONU. - A invasão do oceano tem tornado a agricultura impraticável.
O abastecimento de água potável é crítico e as vias próximas à costa são constantemente destruídas.
Segundo Spachula, a comunidade terá de discutir programas de evacuação para outras nações, em, no máximo, 20 anos. As migrações internas, no entanto, já são uma realidade. Três anos atrás, uma única tempestade inundou 29 ilhas.
- A população dos territórios menores e mais distantes tem procurado cada vez mais as ilhas centrais. Não é uma boa notícia, porque estes locais já estão superpovoados, e igualmente expostos ao aumento do nível do mar - lamenta o secretário.
A conferência em Nova York termina amanhã, e pelo menos um de seus questionamentos deve ficar sem resposta: até quando as nações insulares aguentam o avanço do Pacífico. Os climatologistas, porém, acreditam que os Estados insulares não verão o passar do século.
- Há uma clara e urgente necessidade de reduzir as emissões de carbono - alerta Kristin. - Esperamos que, a partir de agora, um país envolvido em projetos de grande impacto climático alerte aos que podem ser prejudicados por isso.

Saiba mais sobre a Micronésia

A Micronésia é uma região do Oceano Pacífico composta por centenas de ilhas. Há, entre elas, países independentes, como as repúblicas de Nauru, Palau, Kiribati e Ilhas Marshall, além dos Estados Federados da Micronésia.
Os espanhóis chegaram às ilhas no século XVII, mas sua colonização só foi realizada 200 anos depois, por EUA, Alemanha e pelo Reino Unido.

O Globo, 24/05/2011, Ciência, p. 24

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