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Vida interrompida à beira da estrada: omissão do Poder Público resulta em tragédia na Tekoa Pekuruty

Yvyrupa - https://www.yvyrupa.org.br
17 de Dez de 2025

A Comissão Guarani Yvyrupa (CGY) lamenta profundamente o falecimento de Maria Oliveira Benites, mulher Guarani de 34 anos, liderança respeitada da Tekoa Pekuruty, ocorrido no dia 09 de dezembro de 2025 após um atropelamento na BR-290, em Eldorado do Sul (RS). Maria era mãe de duas filhas pequenas, Beatriz (11 anos) e Tainara (4 anos), e reconhecida por sua dedicação à coletividade e à espiritualidade Guarani. No mesmo episódio trágico, o jovem Diego Ramón Benites, de 25 anos, ao tentar prestar socorro à vítima, também foi atingido e permanece internado em estado grave na UTI do Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre.

Esta não foi uma fatalidade, mas uma tragédia anunciada. A morte de Maria e a internação crítica de Diego expõem, mais uma vez, a situação de extrema vulnerabilidade vivida pela comunidade Guarani instalada às margens da rodovia. A comunidade vive há anos exposta a condições inseguras, com moradias precárias, ausência de barreiras de proteção, equipamentos essenciais instalados em áreas de risco e circulação cotidiana de crianças, idosos e famílias às margens da BR-290.

As vulnerabilidades da Tekoa Pekuruty já haviam sido formalmente comunicadas aos órgãos competentes. Em 21 de outubro de 2025, a CGY realizou visita técnica à comunidade e sistematizou, no Ofício CGY no 162/2025, um conjunto de prioridades urgentes relacionadas à alimentação, moradia, educação, saúde, saneamento básico e, especialmente, à segurança no entorno da BR-290. Entre os pontos destacados estava a localização inadequada e perigosa das caixas d'água comunitárias instaladas à beira da rodovia. Mesmo após a formalização desse levantamento de prioridades enviada ao Ministério Público Federal e no âmbito da Ação Civil Pública contra o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes, infelizmente, nenhuma medida emergencial foi adotada.

A omissão reiterada dos órgãos responsáveis contribuiu diretamente para o agravamento das condições de risco e resultou nesta perda irreparável. Beatriz e Tainara, as filhas de Maria, permanecem agora órfãs de mãe, sob os mesmos riscos que ceifaram a vida de quem mais as protegia. Como seguir crescendo em um território onde o direito à vida se tornou precário e incerto? A ausência de políticas públicas e o descaso com a segurança impuseram a essas crianças um luto precoce e um trauma permanente, obrigando-as a conviver diariamente com a memória da estrada que tirou sua mãe.

Diante do agravamento do quadro e da perda irreparável de uma vida Guarani, a Comissão Guarani Yvyrupa protocolou o Ofício CGY no 185/2025 ao Ministério Público Federal (MPF), solicitando que sejam adotadas, com urgência, as medidas cabíveis frente às violações em curso na Tekoa Pekuruty. A CGY requer que o MPF atue para assegurar a proteção da vida, da dignidade e dos direitos coletivos da comunidade, incluindo a implementação imediata das medidas já apontadas no ofício anterior.

Entre as solicitações apresentadas pela Comissão Guarani Yvyrupa estão a realocação definitiva da comunidade para uma área segura e territorialmente reconhecida, a entrega emergencial de cestas básicas, a adequação da escola hoje improvisada e a construção de uma escola intercultural definitiva, a instalação imediata de uma unidade de saúde, a construção de moradias dignas, a implantação de banheiros e chuveiros comunitários e a realocação urgente das caixas d'água para um local protegido, distante da BR-290. A permanência forçada da Tekoa Pekuruty às margens da rodovia configura uma grave violação de direitos humanos e constitucionais, que não pode mais ser naturalizada nem tolerada.

A gravidade dessa situação é expressa também pelas palavras da espiritualidade Guarani. "Yvy porã, ka'aguy porã, ndoroguereko veí. Ore rovya'i haguã, mbae've dipoi hapy orekuai'i rãmo, nhe'e kueiry ndopyta harei koo Yvyrupa re" - "Já não temos mais a terra boa, nem a água boa, para que possamos viver com alegria. Se vivemos em um lugar sem nada, os espíritos não permanecem por muito tempo neste mundo", reflete Hélio Fernandes, coordenador estadual da CGY no Rio Grande do Sul, ao sintetizar a dimensão material e espiritual da violação vivida pela comunidade.

Diante desse cenário, questionamos: quanto vale uma vida Guarani para o Poder Público? Quantas mais precisarão ser perdidas para que suas vozes sejam finalmente ouvidas? A morte de Maria Oliveira Benites e a internação de Diego Ramón Benites não podem ser tratadas como fatos isolados ou inevitáveis. São sinais claros da urgência de respostas concretas do Estado brasileiro. Cada dia de omissão aprofunda o sofrimento do povo Guarani e amplia o risco de novas tragédias. É imprescindível que vidas indígenas sejam protegidas e respeitadas, e que o compromisso constitucional com a dignidade da pessoa humana deixe de ser letra morta para se tornar realidade no território da Tekoa Pekuruty.

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