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Autor: Eliane Silva — Ribeirão Preto (SP)
18 de Mar de 2026
Onze mulheres foram as vencedoras da terceira edição do Prêmio Mulheres das Águas, que será entregue nesta quarta-feira (18/3) em Brasília. A distinção tem o objetivo de valorizar o trabalho realizado por mulheres que atuam na pesca e aquicultura.
No total, segundo o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), houve 306 inscrições. A escolha das vencedoras foi feita após uma análise das histórias das participantes, de acordo com o material enviado no momento da inscrição. As inscritas foram avaliadas por uma comissão composta por 42 mulheres representantes do MPA, de outros Ministérios e de entidades da sociedade civil ligadas à pesca e à aquicultura.
Abaixo as histórias de vida de algumas das vencedoras da premiação.
Aquicultura continental
Filha de trabalhadores rurais ribeirinhos, Maria Luiza Barbosa da Silva, vencedora na categoria aquicultura continental, cresceu na zona rural do município de Pedro Afonso, em Tocantins. Desde cedo, trabalhava na roça, cuidava das atividades domésticas e da pesca, tendo migrado para a aquicultura continental em 2013, quando foi contemplada com lâmina d'agua para criação de peixes em tanques-rede.
Há 11 anos, está acampada junto com outras 15 famílias no Parque Aquícola Sucupira, onde produz peixes para subsistência e abastecimento na região.
Mesmo com todo o envolvimento nas águas, Maria Luiza sempre teve o sonho de estudar. Aos 14 anos, mudou-se com a família, incluindo os pais e os 11 irmãos, e foi estudar em Pedro Afonso e em Miracema, até concluir o ensino médio. Trabalhava como doméstica durante a semana e estudava à noite e nos finais de semana.
Com a dedicação, conseguiu fazer um curso superior de história e, na sequência, pós-graduação em história social, história da África, da cultura negra e do negro no Brasil. O interesse pelo tema veio de sua atuação como militante do movimento negro e sindicalista, sendo filiada ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais da região.
Em janeiro de 2011, Maria Luiza foi homenageada no Senado Federal, como coordenadora do Movimento Negro do Tocantins e pelo trabalho como professora do Centro Educacional Fé e Alegria Frei Antônio no município de Tocantínia (TO).
Mais Sobre Peixes
Pesca ornamental
Aramar Castro Pinheiro, conhecida na região de Barcelos (AM) como a "Mara dos Peixinhos", foi a ganhadora na categoria pesca ou aquicultura de ornamentais. Ela exerce profissionalmente a pesca no Rio Negro desde 2002, consolidando-se como uma das principais referências femininas do setor.
Mara começou na pesca artesanal em uma pequena canoa de cinco metros. Com muito esforço, ela e sua família passaram de pescadores dependentes de atravessadores para empreendedores rurais, comercializando os peixes ornamentais agora diretamente com empresas de Manaus.
Para virar empreendedora, Mara reinvestiu seus ganhos na atividade, adquirindo materiais, embarcações e, posteriormente, construindo um barco reformado e uma casa flutuante, que funciona como ponto de armazenamento, viveiro e apoio logístico para a pesca. Essa infraestrutura foi fundamental para melhorar suas condições de trabalho e ampliar a capacidade de escoamento sustentável da produção.
Ela também inovou ao criar a Loja de Aquários e Peixes Ornamentais de Barcelos, hoje considerada um ponto turístico local e um espaço de educação ambiental informal. A atuação dela fortaleceu a visibilidade da pesca ornamental e contribuiu para valorizar o peixe vivo como patrimônio cultural e econômico do município.
Pesca artesanal marinha
Cristiane Santos Oiticica, da terceira geração de pescadores da família, foi a vencedora da categoria pesca artesanal marinha. Desde cedo, aprendeu o valor do mar e da solidariedade, conciliando os estudos com o trabalho na pesca.
Moradora de Valença, na Bahia, ela começou a pescar em mar aberto e nos estuários, utilizando canoas a remo e redes com sua família. O pescado servia tanto para alimentação quanto para o sustento.
Depois de trabalhar um tempo para outros pescadores, ela adquiriu sua própria canoa e começou a beneficiar o pescado, realizando o processo de evisceração, salga e secagem. Vendia os peixes nas ruas, mercados e peixarias, transportando-os em carro de mão.
Aos 21 anos, já mãe e com apoio do marido, Cristiane concluiu o magistério e começou a carreira como professora, o que lhe permitiu comprar uma nova canoa. Porém, teve que vender a embarcação e passou a atuar na revenda e beneficiamento de pescado. Lecionou na zona rural de Valença e trabalhou por mais de três anos em uma unidade de maricultura, atuando na evisceração, seleção, congelamento e embalagem de camarões e lagostas.
Incentivada pela filha, Cristiane tornou-se técnica em enfermagem, conciliando o curso noturno com a pesca e o trabalho na associação. Logo depois, ela e o marido assumiram uma associação de pescadores que estava desativada.
Com investimento próprio, legalizaram a entidade, que na época contava com 165 associados e hoje reúne cerca de mil pescadores ativos e 150 aposentados. Sob sua gestão, a Associação A32 do Baixo Sul tornou-se referência em Valença e municípios vizinhos, fortalecendo a pesca artesanal e promovendo a união da categoria.
Em 2009, por meio do MPA, conseguiu implantar uma fábrica de gelo no bairro onde mora, beneficiando diretamente a comunidade pesqueira local. Em 2025, foi convidada para assumir o cargo de secretária municipal de Pesca e Aquicultura de Valença. Mesmo exercendo um cargo público, Cristiane mantém sua ligação com o mar, continuando a pescar, beneficiar e comercializar o pescado com orgulho.
"A pesca faz parte da minha identidade e impulsiona minha luta. Minha trajetória simboliza coragem, superação e compromisso coletivo, refletindo a força das mulheres pescadoras do Baixo Sul da Bahia", afirmou.
Pesca artesanal continental
Fernanda de Araújo Moraes, ganhadora na categoria pesca artesanal continental, carrega as marcas da migração de seus pais, que vieram do Ceará e do Acre para o Médio Juruá, no Amazonas, durante o ciclo da borracha. Por muitos anos, o extrativismo da seringa sustentou a família, mas quando essa atividade perdeu força, a pesca tornou-se a principal fonte de renda e alimento.
Foi por meio da pesca que seus pais criaram os 18 filhos, entre eles Fernanda, a caçula, e foi a pesca que criou uma relação de profundo respeito com os lagos, rios e florestas do território. A família protegeu, e ainda protege, os lagos que compõem o sistema aquático ao redor da comunidade Lago Serrado, onde Fernanda nasceu.
Desde pequena, Fernanda acompanha as atividades de pesca e de mobilização social, aprendendo que a proteção dos lagos não é apenas um trabalho de conservação ambiental e de produção pesqueira, mas também um ato de cuidado com a vida, com a comunidade e com o futuro. Em 2014, participou da fundação da Associação de Moradores Agroextrativistas do Baixo Médio Juruá (AMAB), atuando como secretária.
Em 2017, depois de mais de oito anos de luta, o trabalho de mobilização social e política de sua família levou à homologação do Acordo de Pesca na área do Baixo Médio Juruá. Esse acordo garante, desde então, a realização do manejo comunitário de pirarucu na região, hoje realizado por 10 comunidades.
Em 2021, foi eleita presidenta da AMAB, cargo historicamente ocupado apenas por homens. Entre as iniciativas de Fernanda está a articulação para o primeiro curso de contagem de pirarucu voltado exclusivamente para mulheres na área do Baixo Médio Juruá, realizado em 2021, em parceria com o Instituto Juruá.
Confira todas as ganhadoras:
Pesca artesanal marinha: Cristiane Santos Oiticica - Valença (BA)
Pesca artesanal continental: Fernanda de Araújo Moraes - Carauari (AM)
Pesca artesanal estuarina: Navegante Maria dos Santos Mendonça - Grossos (RN)
Pesca industrial ou indústria do pescado: Eveline Alexandre Paulo - Fortaleza (CE)
Pesca amadora e esportiva: Liliane Santos da Silva - Altamira (PA)
Pesca ou aquicultura de ornamentais: Aramar Castro Pinheiro - Barcelos (AM)
Pesca artesanal ou aquicultura indígena: Ana Paula Lima Reis Paumari - Tapauá (AM)
Aquicultura marinha ou estuarina: Ana Carolina de Barros Guerrelhas - Canguaretama (RN)
Aquicultura continental: Maria Luiza Barbosa da Silva - Palmas (TO)
Ensino, pesquisa e/ou extensão: Rita de Cassia Franco Rêgo - Salvador (BA).
Gestão pública ou privada: Elaine Luiza de Jesus - São Cristóvão (SE)
https://globorural.globo.com/pecuaria/peixe/noticia/2026/03/vida-de-pes…
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