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Vestibular para índios

CB, Opinião, p. 20
22 de Mar de 2006

Vestibular para índios

A Universidade de Brasília promoveu o primeiro vestibular para índios. Realizado no domingo em nove cidades concentradas sobretudo no Norte do Brasil, contou com a presença de 49,45% dos 1.183 candidatos inscritos. Os 598 participantes disputaram 10 vagas distribuídas em cinco cursos na área de saúde - ciências biológicas, ciências farmacêuticas, enfermagem, obstetrícia, medicina e nutrição. São especialidades necessárias para melhorar a qualidade de vida nas tribos.

A iniciativa merece aplauso pelo ineditismo e por abalar a inércia que caracteriza a burocracia encarregada das questões indígenas. São freqüentes as denúncias de morte em série de crianças nas aldeias, vítimas de desnutrição e enfermidades oportunistas decorrentes do quadro de debilidade do organismo infantil. Não faltam também notícias sobre tuberculose, embriaguez, obesidade e doenças sexualmente transmissíveis adquiridas no contato com a civilização.

Embora a gravidade do diagnóstico seja fartamente conhecida, vale questionar a eficácia do tratamento. Os aprovados no teste farão o curso regular oferecido aos demais selecionados. Acontece, porém, que o nível de uns e outros é muito diferente. Ou não haveria razão para os indígenas fazerem três provas apenas - português, redação e matemática. Nada de física, química, biologia, história, geografia, língua estrangeira como os demais postulantes a um assento na universidade.

Os alunos especiais conseguirão acompanhar as aulas? Em geral, com sérias deficiências na habilidade de expressão e compreensão da língua pátria, dificilmente manterão o passo com os colegas, donos das melhores notas do vestibular. Além disso, boa parte da literatura técnica não tem tradução. Só tem acesso a ela pessoa que domina francês, inglês, espanhol. Sem falar na internet, cuja consulta deixou há muito de ser capricho ou privilégio de poucos. Tornou-se fonte indispensávelde informação.

Se o objetivo é prover as aldeias de profissionais qualificados para atender adultos e crianças nas questões de saúde, talvez o caminho escolhido seja equivocado. Nas condições oferecidas, é duvidoso que o candidato possa acompanhar com desempenho satisfatório o curso universitário tradicional.
Há que buscar soluções mais realistas para responder aos desafios que os tempos atuais impuseram às tribos e aos líderes indígenas.

CB, Opinião, 22/03/2006, p. 20

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