O Globo, O País, p. 3
Autor: SIRKIS, Alfredo; GARÇON, Lindomar
02 de Jul de 2011
Verdes abandonam Marina
Dos 15 parlamentares do PV, apenas um está disposto a seguir a ex-senadora
Sérgio Roxo
A ex-senadora Marina Silva deve contar com apoio mínimo da bancada do Partido Verde em sua decisão de deixar a legenda, numa mostra do caciquismo que impera nas estruturas partidárias no Brasil. Mesmo tendo tido 20 milhões de votos nas eleições presidenciais do ano passado, e com isso ajudado a eleger muitos companheiros para o Congresso, apenas um deputado federal, Alfredo Sirkis (RJ), anunciou até agora que irá acompanhar a ex-presidenciável. Sirkis vai se licenciar por tempo indeterminado do partido, mas não irá se desfiliar para não colocar em risco o seu mandato.
O PV tem 14 deputados federais e um senador. Dos 15, portanto, só Sirkis declarou ao GLOBO que deve seguir Marina, mesmo que permaneça no partido, em protesto contra a falta de democracia interna. Dos outros 14, só dois não responderam à consulta - Roberto Santiago (SP) e Henrique Afonso (AC) não respondeu.
Além do deputado José Luiz Penna (SP), presidente do partido e razão da saída de Marina, oito parlamentares declararam que vão continuar na legenda mesmo com a saída da ex-senadora. O décimo, Guilherme Mussi (SP), já havia anunciado, antes de a crise verde se agravar, que mudará para o PSD, o novo partido do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab.
O movimento pró-Marina ainda pode ser engrossado por dois parlamentares do Rio Grande do Norte, o senador Paulo Davim (que é suplente e está no exercício do cargo) e o deputado Paulo Wagner. Eles se dizem indecisos sobre qual caminho seguir.
- Ainda vou conversar com meu grupo político e decidir o que fazer. Mas estou decepcionado com o partido. Sou deputado federal e não posso votar na Executiva. Falta democracia - afirma Wagner.
Entre os que disseram que vão continuar no PV mesmo com a saída de Marina, são comuns os elogios aos 12 anos do comando de Penna.
- Quando a Marina entrou no partido, o Penna já estava. Ele fez muito, garantiu a estruturação do PV - disse o deputado Fábio Ramalho (SP).
Grupo quer mudar comando nacional
A principal reivindicação do grupo de Marina nos embates com Penna é a realização de uma convenção para escolha de nova direção. A divisão entre os grupos já era evidente na eleição presidencial, mas a crise veio à tona quando a Executiva Nacional aprovou, em março, a prorrogação do mandato do presidente do partido.
- É verdade que é frágil a democracia interna do PV, como em todos os partidos. A causa fundamental disso é que a Constituição deixou os partidos se organizarem da forma que quiserem - minimiza o deputado Antônio Roberto (SP), que ficará no PV.
O grupo de Marina reconhece que mesmo os deputados que inicialmente se aliaram à ex-senadora na batalha pela democratização do comando da legenda tiveram que abandonar o barco quando se decidiu pelo rompimento. Os parlamentares temem ficar sem legenda na eleição do próximo ano.
Um desses casos é o do deputado fluminense Dr. Aluízio, que pretende disputar a prefeitura de Macaé.
- Tomo a decisão (de ficar) também por causa da candidatura. Não tenho como abrir mão da estrutura partidária. Mas vou lutar para concretizar a democracia no PV.
Dr. Aluízio, assim como outros parlamentares, dizem ainda acreditar em uma reviravolta que possa manter Marina no partido. Em um último esforço, ele vai sugerir, na próxima semana, a formação de uma comissão comandada pelo ex-deputado Fernando Gabeira (RJ) para viabilizar as eleições internas da legenda ainda este ano. Falta combinar com o grupo de Penna.
O plano de Marina é anunciar na próxima quinta-feira, em São Paulo, a saída do PV para liderar um movimento que terá como bandeira a sustentabilidade e a cidadania.
'Partido se auto-impõe ser nanico'
Corpo a Corpo
Alfredo Sirkis
Para deixar claro o seu apoio a Marina Silva e a insatisfação com a falta de eleições internas, o deputado federal Alfredo Sirkis vai se licenciar do partido que ajudou a fundar e presidiu.
O GLOBO: Por que a crise no PV chegou a esse ponto?
ALFREDO SIRKIS: Pela total insensibilidade do grupo liderado pelo Penna e pelo Sarney Filho (MA) quanto aos compromissos assumidos quando a Marina entrou no partido. Querem um partido controlado e não enfrentar o crescimento da votação do ano passado.
Ainda acredita que a situação pode ser revertida?
SIRKIS: Acho difícil porque não vejo receptividade no grupo do Penna. Acho que eles torcem para que a Marina realmente saia. Enxergam na permanência dela um obstáculo.
Quem perde mais com a saída da Marina?
SIRKIS: Evidente que é o partido, que abre mão de assumir um papel transformador na sociedade, se auto-impõe a condição de nanico.
Como fica a sua situação?
SIRKIS: Vou deixar a presidência do Diretório Estadual (RJ) e pedir licença por tempo indeterminado. (S. R.)
'O Penna tem nos ouvido'
Corpo a Corpo
Lindomar Garçon
SÃO PAULO. Nas palavras do deputado federal Lindomar Garçon (RO), o PV não vive uma crise. Filiado há seis anos, ele também não vê falta de democracia na presidência de José Luiz Penna, há 12 anos no comando da legenda.
O GLOBO: Por que a crise chegou a essa situação?
LINDOMAR GARÇON: Acho que estão fazendo uma crise. Não existe crise.
Ainda acredita que a situação possa ser revertida?
GARÇON: Acho que a Marina não vai sair, apesar de pessoas insuflarem para isso. Vi uma unidade grande do partido para impedir a votação do Código Florestal na Câmara. Não existe racha.
Quem perde mais com a saída da Marina?
GARÇON: O partido vai continuar unido, e Marina não sai.
Como fica a sua situação?
GARÇON: Sou filiado ao PV por causa da ideologia. Vou continuar.
Há democracia no PV?
GARÇON: Acho que tem, sim. Todas as questão são submetidas ao diretório nacional. Penna nos ouve em tudo. (S. R.)
O Globo, 02/07/2011, O País, p. 3
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