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Ver a mata atlântica não é para qualquer um

OESP, Vida, p. A17
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
02 de Jul de 2008

Ver a mata atlântica não é para qualquer um

Marcos Sá Corrêa

O pintor Nicolas Taunay é tema, neste momento, de uma exposição no Museu Nacional de Belas Artes e de, pelo menos, três livros na praça: dois da historiadora Lilia Moritz Schwarcz, outro do bibliófilo e editor Pedro Corrêa do Lago. Correndo por fora, ele chegou ao bicentenário mais depressa que o príncipe d. João ao Brasil, 182 anos depois de seu desembarque no Rio de Janeiro, como um deserdado da Franca imperial de Napoleão Bonaparte.
Taunay ficou cinco anos aqui, sem desencarnar da politicagem acadêmica que veio de Paris via Missão Francesa.
Nunca lançou ao clima local o olho estrangeiro que punha na paisagem carioca, pintando imagens ao mesmo tempo documentais e ausentes. E voltou à Europa sem saudades dos trópicos, mesmo deixando no Brasil um irmão e três filhos. Mas o sobrenome Taunay enraizou-se para sempre no quem -é- quem da sociedade brasileira.
SEGUNDO PLANO
Taunay morou no Alto da Boa Vista, onde na época cresciam os primeiro cafezais fluminenses e onde hoje fica o Parque Nacional da Tijuca. Nem por isso mudou de perspectiva. Para ele, a floresta vinha em segundo plano. Quem a enxergou de fato pela primeira vez foi outro francês de passagem pelo Rio, o adido diplomático Claude François. Fortier, Conde de Clarac.
Como o pintor Jean-Batiste Debret e o naturalista Augusto de Saint-Hilaire, que registrou a existência de "florestas virgens velhas como o mundo" nas portas do Rio, Clarac gravitava na órbita do embaixador Charles de Montmorency.
Passou bem menos tempo no Brasil do que Taunay. Mas foi mais fundo do que ele. E, quando entra no livro Taunay e o Brasil, de Pedro Corrêa do Lago, rouba a cena - ou, pelo menos, quatro páginas decisivas.
Foi Clarac quem decifrou a charada da mata atlântica nas artes plásticas. Não era um desenhista profissional, mas estava a poucos passos na vida pública, de administrar o Louvre. Sabia, portanto, o que estava fazendo.
Viera ao Brasil alertado pela leitura de Alexandre von Humboldt, que fazia na época a cabeça dos europeus com sua coleção de enciclopédia dos diários de viagem pela América. Nada que se pudesse pendurar então numa parece ou botar numa página, segundo Humboldt, traduzia as impressões que ele levara da floresta virgem. Clarac pagou à unha o desafio.
Começou a esboçar o primeiro retrato da mata atlântica em Rio Bonito, nos arredores da capital. Concluiu-o dois anos depois, colhendo detalhes de plantas em estufas européias. Imitada e reproduzida há quase dois séculos, a aquarela de Clarac ainda é a imagem mais familiar de mata nativa até para a maioria dos brasileiros que não têm mais chance de vê-la em madeira e folha. Na aquarela, a floresta deixou de ser a barafunda que um borrão de verde opaco representava e resumia. Virou Lona nova forma de confusão, a que cabia no pendor iluminista para a classificação botânica, cada espécie em seu lugar.
Ali estava o resultado de "uma postura totalmente oposta à do velho pintor", explica Corrêa do Lago. Taunay fechou os olhos à exuberância da vegetação nativa. Clarac escancarou-os. Era um novo descobrimento, com 300 anos de atraso. E a prova da falta que Clarac faria aos brasileiros, se não tivesse existido, está no comentário de que Frans Post e Albert Eckhout, apesar de sua curiosidade pela natureza, não puderam antecipar essa descoberta no século 17, porque o ambiente no Pernambuco de Maurício de Nassau. era "muito diferente da floresta tropical".
Podia ser, mas só até o ponto em que engenhos já tivessem tirado do mapa a mata atlântica no Brasil holandês. Porque ela cobriu a costa do Nordeste até a chegada do machado. Era mais ou menos a mesma que Clarac viu em Rio Bonito. A diferença é que, quando essas coisas acabam sem deixar traço, parece que nunca existiram.

É jornalista e editor do site 0 Eco (www.oeco.com.br)

OESP, 02/07/2008, Vida, p. A17

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