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Vazamento chega a afluente do Paraíba do Sul

O Globo, Rio, p. 12
04 de mar de 2006

Vazamento chega a afluente do Paraíba do Sul

Itaperuna, Italva, Cardoso Moreira, Campos e São João da Barra podem ter abastecimento de água cortado
Quatrocentos milhões de litros de argila misturada com óxido de ferro e alumínio que vazaram na tarde de quarta-feira da Mineradora Rio Pomba Cataguazes, em Miraí (MG), formaram uma mancha marrom de 70 quilômetros de extensão que chegou até o Rio Muriaé, afluente do Rio Paraíba do Sul. O vazamento foi provocado pelo rompimento do vertedouro da barragem, uma placa de concreto que regula a vazão de água. O governo do estado ordenou a interrupção do abastecimento de água no município de Laje do Muriaé, no Noroeste Fluminense, e a mesma medida ainda pode ser adotada nos municípios de Itaperuna, Italva, Cardoso Moreira, Campos e São João da Barra.
O vazamento, que só foi contido às 5h de ontem, atingiu o Córrego Bom Jardim, que deságua num afluente do Rio Muriaé, que, por sua vez, é afluente do Rio Paraíba do Sul. O material que vazou era usado para a lavagem de bauxita, matéria-prima do sulfato de alumínio, empregado no tratamento de água (decantação) por empresas de saneamento. Exames da Feema indicaram que o material não é tóxico e não oferece riscos à saúde.
Barragens foram abertas para diluir a poluição
A presidente da Feema, Isaura Fraga, e o secretário estadual de Defesa Civil, coronel Carlos Alberto de Carvalho, sobrevoaram a área de helicóptero e consideraram a situação grave. Isaura disse que a mancha de 70 quilômetros não compromete o abastecimento pela toxicidade, e sim pelo volume de lama misturado à água, que dificulta o tratamento para a potabilidade:
- Dificilmente uma estação de tratamento tem condições de captar essa água e distribuí-la. Temos que esperar essa mancha se dissipar. Em Minas foram abertas três barragens para que haja uma descarga de água sobre a mancha. Se chover, a tendência é melhorar. Mas, se a mancha chegar compacta a Itaperuna, o que pode acontecer domingo, a captação lá também será interrompida pela Cedae - disse a presidente da Feema.
Segundo o diretor industrial da Mineradora Rio Pomba, Carlos Gilberto Ferlini, os donos de fazendas próximas à mineradora que foram atingidas pela lama serão indenizados. Técnicos da empresa foram enviados aos municípios ribeirinhos para colaborar com o tratamento da água.
- O problema na barragem já foi resolvido e vamos fazer o necessário para reparar os danos ambientais - disse Ferlini.
A Procuradoria Geral do Estado anunciou que vai entrar com uma ação penal contra a Mineradora Rio Pomba Cataguazes - que não tem qualquer relação societária com a Cataguazes Papel, responsável pelo desastre ambiental que despejou 1,2 bilhão de dejetos químicos no rio Paraíba do Sul em 2003. O mesmo poderá ser feito pela Defesa Civil. O coronel Carvalho disse que vai acionar o Ministério Público federal para estabelecer um termo de ajustamento de conduta com o parque industrial mineiro, que tem reservatórios de rejeitos químicos próximos a afluentes de rios que cortam o estado.
- O que não pode acontecer é o Rio de Janeiro amargar mais esse prejuízo. A crise pode não ser tão grave quanto a de 2003, mas vai prejudicar a pesca, a agricultura e outros segmentos. Queremos lembrar que o estado não recebeu nenhum tipo de indenização pelo desastre de 2003. A Cataguazes foi condenada, mas não pagou a ninguém e está recorrendo de todas as ações - disse o secretário de Defesa Civil.
A cidade de Laje do Muriaé, de apenas sete mil habitantes, começou a armazenar água desde a madrugada de ontem. A Defesa Civil enviou um imenso caminhão-pipa para abastecer hospitais, escolas e prédios públicos caso o tempo de suspensão da captação seja estendido. Em Itaperuna, onde o número de habitantes é bem maior - cerca de 120 mil - a população também começou a armazenar água ontem. Em Campos, maior cidade do Norte Fluminense (meio milhão de habitantes) e a única da região com sistema de tratamento de água privatizado, a companhia Águas do Paraíba considerou que o problema no Rio Muriaé não deve afetar o abastecimento.
- A mancha deve chegar bastante diluída ao Rio Paraíba do Sul, que é bem mais largo e recebe águas de outros afluentes, como o Rio Pomba. Não teremos problemas para tratar a água - disse o diretor da Águas do Paraíba, Rodolfo Mutuano.
Engenheiro químico alerta para mortandade de peixes
A governadora Rosinha Garotinho, que ontem estava em São João da Barra, conversou com o governador em exercício de Minas, Clécio Andrade (PL). Ele garantiu que os órgãos ambientais mineiros estavam mobilizados.
O procurador do Ministério Público federal em Itaperuna Cláudio Chequer pediu ao Ibama e à Feema que apresentem relatórios diários. O promotor de Direitos Difusos do MP em Campos, Marcelo Lessa, instaurou inquérito para averiguar as causas do vazamento.
O engenheiro químico José Roberto Araújo afirma que a concentração de lama no leito dos rios impede a reprodução de muitos organismos aquáticos e provoca mortandade de peixes. Segundo Araújo, o acidente expõe falhas da fiscalização ambiental em Minas:
- É a segunda vez em menos de cinco anos que o Estado do Rio recebe poluição de Minas Gerais. O acidente mostra a irresponsabilidade do Ibama e dos órgãos ambientais do estado. Se o vazamento tivesse atingido um depósito de rejeitos tóxicos, a situação teria sido muito grave.

Outros problemas que afetam rios no estado
20 DIAS SEM ÁGUA: Há três anos, cerca de 500 mil pessoas ficaram 20 dias sem água no Noroeste e no Nordeste fluminenses, de Santo Antônio de Pádua até Campos, por causa do vazamento de 1,2 bilhão de litros de rejeitos tóxicos da indústria Cataguazes de Papel no Rio Pomba, devido ao rompimento de um dique. A água que vazou do reservatório continha soda cáustica, cloro e lignina (componente da madeira). O Pomba deságua no Paraíba do Sul. Na época, peixes chegaram a pular para fora da água dos dois rios, sufocados. Os estoques de água mineral se esgotaram nas cidades ribeirinhas. Também houve prejuízos para os pescadores e, em plena Semana Santa, a Igreja Católica liberou os fiéis para comerem carne porque não havia peixes nos mercados.
A "PROVA" DE CHAGAS: Outro grande acidente afetou um afluente do Paraíba do Sul no início da década de 80. Um vazamento na empresa Paraibuna de Metais, de Juiz de Fora (MG), resultou no despejo de uma lama tóxica de metais como mercúrio e cádmio no Rio Paraibuna. Na ocasião, a captação da água do Paraíba foi suspensa por uma semana. Campos foi a cidade que mais sofreu os efeitos da poluição. Mesmo depois de a Cedae, na época responsável pelo tratamento e distribuição da água, liberar o consumo, a população se recusava a utilizá-la. O então governador Chagas Freitas foi a Campos e, na estação da Cedae, na frente de fotógrafos e cinegrafistas, tomou um copo d'água.
POLUIÇÃO "IMPORTADA": O Rio Paraíba do Sul recebe a poluição importada de outros estados. Como o despejo de esgoto de cidades paulistas por onde passa antes de entrar no Estado do Rio e os dejetos das indústrias às suas margens mesmo em território fluminense, como a CSN, em Volta Redonda.

O Globo, 04/03/2006, Rio, p. 12

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