OESP, Economia, p. B4
Autor: CHIPP, Hermes
21 de Nov de 2007
'Vamos mudar o paradigma para não dar chance ao azar'
Entrevista: Hermes Chipp: diretor geral do ONS
Em 2008, o governo vai elevar nível de segurança de estocagem de água pelos reservatórios de 50% para 55%
Irany Tereza
O governo vai aumentar o rigor em relação à chamada "curva de risco" dos reservatórios das hidrelétricas para garantir o abastecimento de energia em 2009. Hoje, a meta de segurança é fixada em 50% de estocagem de água, na média ponderada dos reservatórios de 51 usinas. Esse patamar vai aumentar para 55%. "Vamos mudar o paradigma para não dar chance ao azar", diz o diretor geral do Operador Nacional do Sistema (ONS), Hermes Chipp, que descarta, de forma categórica, qualquer ameaça de racionamento para 2008. "Não há a menor possibilidade", diz ele. Nesta entrevista concedida ao Estado, Chipp afirma que a segurança do sistema melhorou com as mudanças na diretoria da Petrobrás. Sem citar o nome do ex-diretor de Gás e Energia Ildo Sauer, ele comenta que atual diretora, Graça Foster, "está mais sensibilizada para a questão do sistema elétrico".
Qual o quadro atual no abastecimento de energia pelas hidrelétricas no País?
O período úmido já se configurou no Sudeste e no Sul. No Nordeste ainda não. O quadro hoje é normal. Não há a menor possibilidade de na região Sudeste acontecer a pior hidrologia de dezembro a abril, como ocorreu em 2001.
Então não há risco de apagão?
Nenhum. Em 2008, é zero a chance. Há cálculos como o do Acende Brasil (instituto mantido por grandes empresas do setor elétrico) que indicam 9% de risco. Pela metodologia normal, fica em torno de 5% ou 6%. Isso para 2008 já não significa mais nada. O cálculo é válido quando se está, pelo menos, com mais um período úmido à frente em que não se sabe o que vai acontecer. No Sudeste, o período úmido já se configurou.
A situação é confortável em todo o País?
Estamos olhando o Nordeste, onde o período úmido não chegou ainda. Mas o histórico mostra que a chuva pesada ali ocorre em janeiro e fevereiro. Se em dezembro tivermos uma previsão de que (a chuva) não vai chegar, aí começo a aumentar a geração térmica e o intercâmbio (de energia do Sudeste para o Nordeste).
Térmicas são só backup?
Não. São térmicas de posicionamento de primeira linha. Só que hoje não há gás para todas. Foi assinado um termo de compromisso com a Petrobrás para um volume mínimo de gás para geração de 2.200 megawatts pelas térmicas. A capacidade instalada total das térmicas é de 5 mil . Para abastecer todas, precisaríamos de 25 milhões de metros cúbicos por dia, quase uma carga da Bolívia. O termo de compromisso prevê pouco menos da metade disso.
O que ocorreu recentemente no Rio e São Paulo mostrou que as térmicas são prioridade no fornecimento do gás.
Existe uma portaria no Ministério (das Minas e Energia), consignada pelo presidente da República, que diz que sempre que o ONS chamar as térmicas para gerar elas são prioritárias. A Petrobrás chiou, mas não tem jeito, porque é questão de segurança nacional.
Nesse caso, onde exatamente foi coberto o risco de desabastecimento?
Não é risco de desabastecimento. É preparação para garantir o cumprimento do que está determinado pelo modelo para o futuro. Nesse caso, a geração foi para todo o País. Não há mais necessidade (de corte de gás). Naquele momento, a usina de William Arjona (da Tractebel, no Mato Grosso do Sul), que consome 1,3 milhão de metros cúbicos por dia, tinha de gerar, porque uma liminar obrigou o fornecimento de gás. No Rio, faltaram 350 mil metros cúbicos por dia para o GNV (gás natural veicular). (O volume para Arjona) dava para atender três vezes o que faltou. O juiz cassou a liminar e a usina não está gerando nada. Além disso, naquele momento, houve um problema na produção de gás da Petrobrás em que ela perdeu a capacidade de produção de 2,5 milhões de metros cúbicos. Isso também não tem mais. Então, hoje, não há mais a menor chance de isso voltar a acontecer, mesmo atendendo as térmicas.
O nível de segurança do sistema hidrelétrico hoje é suficiente?
Estamos mudando o paradigma de 50% para 55% (limite mínimo de estocagem média de todos os reservatórios, sem necessidade de acionamento de medidas de segurança). Quero aplicar a partir de 2008.
Com que antecedência o ONS convoca emergencialmente a Petrobrás? v
O termo de compromisso evolui ao longo do tempo. Para 2007, são 2.200 megawatts; 2008, 3.500; 2009, 5.400; 2010, 6.400; e 2011, 6.500. Se gerar menos, (a Petrobrás) é penalizada pela Aneel com multa. Mesmo assim, não estava cumprindo. Com a mudança da gestão da Petrobrás (na diretoria de Gás e Energia), minha leitura é que está havendo um alinhamento maior com a Graça (Foster, que assumiu a diretoria em substituição a Ildo Sauer), que tem mais relação com o setor, com a ministra (Dilma Rousseff, da Casa Civil), com o ministro (Nelson Hubner, das Minas e Energia). A Graça está mais sensibilizada para a questão do sistema elétrico. O (José Sérgio) Gabrielli (presidente da Petrobrás) também.
O que se argumentava é que há muita especulação no mercado livre de energia, por conta do mercado desregulado. Há alguma mudança prevista?
Mas aí não tem nada a ver com o gás. Tem muita gente comprando (energia) no curto prazo, o que é absolutamente inadequado. Há uma intenção de mudar a legislação. Mas, quando se muda uma regra do jogo, tem de haver muita cautela. Há reclamação sempre que se mudam as regras. Quando o presidente decidiu retirar agora, nessa decisão do CNPE, os 41 blocos (de exploração de petróleo da licitação da ANP)houve reclamação.
Isso pode ocorrer também com relação a essa inadequação no mercado livre?
Não precisamos ter contratos como o do mercado regulado, que são de 30 anos para hidrelétricas e de 15 anos para térmicas. Tem de ter contrato compatível com o tempo de maturação de construção de uma obra - com uma térmica, entre três e cinco anos; com hidrelétrica, entre seis e dez anos. Não pode ser diferente disso,porque aí ele (investidor) não vai contratar especulando com o preço baixo do mercado. Em muitos casos (o especulador) compra no período bom a R$ 18 (o megawatt) e vende a mais de R$ 100.
Quem é esse especulador?
É o consumidor livre, que não é obrigado a comprar da distribuidora, que tem carga de consumo superior a 3 megawatts. Ele compra barato e vende caro. Se fizesse um contrato, compraria a um preço perto do que está sendo oferecido no leilão, em torno de R$ 140.
Isso será modificado?
É isso que se está querendo mudar. Mas o ONS não trabalha com contrato. Tudo isso já está previsto na nossa carga. (A proposta de mudança) é só uma forma de ter mais garantia para a expansão da oferta.
Quando o Brasil estiver produzindo todo o gás que está descoberto, será eficiente manter todas as térmicas em funcionamento?
Não se mantém térmicas operando o tempo todo nunca. A térmica é complementar à hidrelétrica.
Resumindo: o senhor está dizendo que o risco de falta de energia em 2008 está praticamente afastado.
Praticamente. A única coisa que estamos observando com a maior cautela é a chegada do período úmido no Nordeste.
E para 2009...
Já a partir de 2008, para olhar 2009, vamos ter o nível maior de segurança do sistema. Para não dar chance ao azar. A demanda de 2007 se comportou exatamente como previsto, com crescimento de 4,9% ou 5%. Para o ano que vem, pode ser que seja mais, com o PAC. O que preocupa é o aumento de produção industrial, o PIB, passar de um patamar de 4% para 5% e a cada ano subir um ponto. Se isso acontecer, vou buscar mais oferta nos leilões, de térmicas ou hidrelétricas.
Quem é: Hermes Chipp
Formado em engenharia elétrica pela UFRJ em 1971
Entrou na Eletrobrás em 1971 e atuou na área de planejamento da operação elétrica. Exerceu funções de gerência e coordenação no Grupo Coordenador para a Operação Interligada (GCOI)
Diretor de Planejamento e Programação da Operação do ONS de 1998 a 2005
OESP, 21/11/2007, Economia, p. B4
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