OESP, Vida, p. A23
30 de Mar de 2008
Valor de madeira apreendida pela PF passa de R$ 10 milhões
Alguns madeireiros tentaram ocultar as toras ou até impedir transporte
Lisandra Paraguassú
Na manhã da última quarta-feira, o catarinense Ademir Wolf foi pego pela Polícia Federal com oito fornos de carvão ilegais atuando a todo vapor. Ao ouvir dos policiais que estava sendo autuado porque seus fornos eram irregulares, Wolf deu a resposta mais ouvida na região: "Aqui no Pará não tem como regularizar."
Depois de 30 dias da Operação Arco de Fogo, em que a PF e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) iniciaram o desmonte das ações ilegais de desmatamento e venda de madeira, o catarinense é a última ponta do círculo de ilegalidades que cerca Tailândia.
Até a última semana já haviam sido apreendidos 23 mil metros cúbicos de madeira cortada ilegalmente, a ponto de lotar o primeiro pátio em Marituba, nos arredores de Belém, usado como depósito. O valor total da madeira é estimado em quase R$ 10 milhões.
As multas aplicadas pelo Ibama já chegam a R$ 23 milhões. Foram mais de 50 madeireiras e carvoarias multadas, 13 embargadas e outras quatro simplesmente desmontadas.
A operação, que reúne 300 homens do Ibama, PF e da Força Nacional de Segurança em Tailândia, já revelou fatos insólitos. O dono de uma das maiores serrarias da região, a HS, tentou esconder centenas de toras dentro de um milharal de 200 hectares. Desmascarado pelos policiais, quis impedir a entrada dos caminhões que retirariam as toras no dia seguinte. Teve que ser ameaçado de prisão para não atrapalhar mais.
Em outro caso, o madeireiro escondeu a madeira debaixo de uma montanha de serragem. Foi traído por uma ponta de tora que escapou da cobertura. Até mesmo dentro de uma lagoa a operação já encontrou madeira escondida. Algumas multas chegaram a R$ 5 milhões.
A justificativa dos madeireiros ilegais da região é a mesma dada pelo catarinense Wolf: não conseguem legalizar seus projetos de manejo e por isso tudo estaria ilegal. "O governo não cumpre sua função de promover a legalidade e depois manda a fiscalização", reclama João Medeiros, presidente do Sindimatas, o sindicato dos madeireiros de Tailândia. Não consta, no entanto, que a maioria das empresas de Tailândia tenha apresentado documentos de regularização. A maior parte nem mesmo pagava os empregados em dia ou assinava carteira.
LARANJAS
O fato é que a fiscalização chegou tarde. Quem trabalha na área reconhece que a madeira está acabando. Alcides de Souza, gerente de uma madeireira, mostra uma tora ainda fina que está prestes a ser transformada em tábuas. "Quando eu cheguei aqui, há 18 anos, uma árvore como essa nunca ia ser cortada. Agora já estão tirando assim, antes mesmo de ficar adulta. Se a fiscalização não chegasse, não ia sobrar nada", garante.
Com a chegada da operação, o que Tailândia está fazendo agora é exportar a devastação para outras regiões do Pará. Madeireiros já estão mudando para cidades mais ao sul, como Anapu e Senador Porfírio.
Apesar de terem o nome registrado e terem sido autuados, de acordo com a PF alguns usam tantos laranjas que eles têm dificuldade para descobrir os verdadeiros donos. A Arco de Fogo, no entanto, deve ir atrás desses madeireiros nômades. A intenção é que a operação corra Pará, outros Estados da região Norte e Mato Grosso até o final deste ano.
OESP, 30/03/2008, Vida, p. A23
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