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Autor: Wilson Matos da Silva
05 de Fev de 2014
Só o homem é portador de cultura, por isso, só ele a cria, a possui e a transmite. A cultura é uma herança que o homem recebe ao nascer. A herança cultural não se confunde com a herança biológica. O homem ao nascer recebe essas duas heranças: a herança cultural lhe transmite hábitos e costumes, ao passo que a herança biológica lhe transmite as características físicas ou genéticas de seu grupo humano. O modus vivendi, ou como nosso povo vive, está assegurado na Constituição Federal, Art 231, "são assegurados aos índios seus usos costumes, línguas, crenças tradições..." As terras essencial à prática desse modo de vida também estão garantidos.
Ao contrário do imaginário popular, não é a indumentária, cor da pele ou posição social, que diferencia, nós, os índios, como seres humanos, mas, sim os valores que cultivamos no meio em que vivemos. Ser indígena (nativo brasileiro) não é apenas uma condição como: estar pelado, pintado para guerra ou adornado com plumas, mas, sobretudo, é ver o mundo desprovido de valores mercantilista (cosmovisão). Uma das capacidades que diferenciam o ser humano dos animais irracionais é a capacidade de produção de nossa cultura.
Não se pode, portanto, ficarem elucubrando comparações bestiais, ou seja, comparar a produção mercantilista do agronegócio, com a produção cultural de nós indígenas, cada um tem sua valoração. Por exempo: poderia dizer que os latifúndios servem destruir a natureza e engordar bois para alimentar europeus; retrucar-me-iam retumbante que servem para equilibrar a balança comercial; eu tornaria dizendo quantos bois ou sacas de soja, equivaleria apenas um pequeno chip, que somos obrigados a importar. Em outras palavras, para que servem essas comparações bestiais? Igualmente se fizermos comparação da forma de produção, do japonês e do brasileiro, por certo, seriamos nós brasileiros tidos por preguiçosos. No entanto, temos que considerar as diferenças culturais que nos proporciona o "continente" Brasil. Então não é o japonês trabalhador e o b rasileiro preguiçoso, apenas eles sobrevivem em condição totalmente adversa das do povo brasileiro.
Lembro-me de quando um cacique do povo indígena Terena foi convidado para um sobrevoo nas terras indígenas que seriam demarcadas. No voo o representante do Governo, do MPF e representante dos fazendeiros. Ao sobrevoarem a divisa da aldeia, o fazendeiro bradou orgulhoso às autoridade: olhem doutores, até aqui está tudo plantado tem de tudo, apontando para sua plantação, e, apontando para a reserva indígena, disse: daqui em diante não tem nada só mata. O sábio cacique Terena, olhou para as autoridades e retrucou: não doutor, é ao contrário, aqui é que não tem nada, apontando para a lavoura do fazendeiro, só tem soja, não tem mais nenhuma vida, o ar esta poluído com o agrotóxico, todos os animais e pássaros morreram ou fugiram para a mata e até a água está poluída; e apontando para a reserva disse olha doutor: aqui tem de tudo paca, porco-do-mato, onça capivara, pássaros etc., até o ar que ele respira - apontou para o fazendeiro - vem da mata de nossas reservas indígenas.
Esta visão de que o índio tem que pensar e agir como o "civilizado", é a visão integracionista que foi fulminada pela Constituição Federal, é o pensamento de sobreposição cultural, julgando ser o índio sem cultura, ou pior, julgando ser a cultura do "civilizado" melhor que a dos nossos povos. Assim, os nossos valores culturais, para com as nossas terras não são comerciais é o valor da própria vida. O que importa se essas terras de nossas reservas deixarem de "produzir" algumas sacas de soja, por certo não quebrará a balança comercial do país. Para nós os Índios, a matemática não é contábil, para nós o lucro não é material, nossos cânticos não buscam audiências, em nossas preces não negociamos perdão, nossa filosofia é feita com água, terra, mata, urucum, igualdade e, sobretudo, amor a vida.
Foram 500 anos onde houve escravidão, catequização, miscigenação e dizimação. Um estudo recente do geneticista brasileiro Sérgio Danilo Pena mostrou que 70% dos brasileiros que se dizem brancos têm índios entre seus antepassados.
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