OESP, Nacional, p.A4
27 de Fev de 2005
Valor bilionário da madeira levou ao fim de 14% da floresta em 30 anos E pelo menos metade da madeira extraída vem de derrubadas feitas à margem da lei, segundo diretor de florestas do Ibama
Roldão Arruda
O Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), uma instituição de pesquisa sem fins lucrativos e voltada para a promoção do desenvolvimento sustentável, vai divulgar nos próximos dias uma nova versão do estudo Fatos Florestais da Amazônia, apontado como um dos mais completos sobre a exploração da madeira na região. Ele contém notícias ruins, algumas até assustadoras, e notícias boas. Também confirma que o País está atolado num imbróglio monumental nesse setor. Para se ter uma idéia, o mesmo Estado brasileiro que numa ponta da Amazônia cria reservas e mobiliza tropas para proteger a floresta tropical após o assassinato de uma missionária, em outra dá incentivos para derrubá-la.
O estudo do Imazon deve mostrar que 14% da floresta amazônica veio abaixo nos últimos 30 anos - o que dá a média de 0,5% ao ano. Na Amazônia Legal, com 5 milhões de quilômetros quadrados, quase 60% do território brasileiro, isso representa muito. "É um Estado de Alagoas inteiro devastado por ano", diz o ecólogo Adalberto Veríssimo, do Imazon.
Nem tudo que é devastado é aproveitado como madeira. Mesmo assim, de acordo com estimativas da organização, confirmadas pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), cerca de 28 milhões de metros cúbicos de madeira deixaram a Amazônia no ano passado. Se o transporte dessa carga fosse feito apenas em caminhões de carroceria comum, com capacidade para 17 metros cúbicos, seriam necessárias 4.500 viagens por dia durante o ano inteiro, incluindo sábados e domingos.
Pelo menos metade da madeira - 14 milhões de metros cúbicos - vem de derrubadas feitas à margem da lei. "O desmatamento ilegal já está chegando a 55% do total", alerta o diretor de florestas do Ibama, Antonio Carlos Hummel.
Legais ou ilegais, as toras que saem da floresta tropical estão empurrando as engrenagens de uma indústria cada vez mais próspera. O caso do Pará, que responde sozinho por 40% da produção madeireira da Amazônia, é exemplar. A madeira e os produtos obtidos a partir dela já figuram em segundo lugar na lista dos produtos exportados pelo Estado. Só perde para os fabulosos negócios com minérios.
Os efeitos são visíveis também na balança comercial do País. As exportações de madeira sólida e dos produtos dela originários somaram US$ 3,8 bilhões em 2004 - uma variação de 44,4% em relação aos US$ 2,6 bilhões de 2003. Isso se deve em grande parte à Amazônia, de onde provém 80% da madeira nativa extraída no País, excluindo lenha e carvão.
Empregos
Estima-se que nos nove Estados amazônicos a atividade madeireira movimenta quase 2.600 empresas e emprega cerca de 350 mil pessoas. "As serrarias constituem um dos negócios mais rentáveis da região, com uma taxa de retorno em torno de 60% - quase quatro vezes maior que a da pecuária", diz Veríssimo.
O negócio é tão bom que a Cikel Brasil Verde, empresa que lidera as exportações no Pará, trabalhando apenas com madeira certificada pelo Ibama, deixou de lado a atividade pecuária. E é aqui que começa a parte das boas notícias. Ou das boas possibilidades.
Cresce a cada ano a quantidade de empresários interessados em trabalhar dentro dos princípios do desenvolvimento sustentado - que pressupõe a exploração da madeira de forma controlada, sem a degradação ambiental. Em 1997, quando o governo pôs à disposição o chamado selo verde, foram certificados 80 mil hectares de florestas na Amazônia. Hoje são 1,8 milhão de hectares - o que coloca o País em 5.o lugar no ranking dos países tropicais com áreas certificadas de acordo com padrões internacionais.
É pouco, quase nada, na vastidão amazônica, mas, segundo especialistas de organizações não-governamentais e do governo, indica um caminho para conter a devastação. Atualmente quase 80% da área devastada na Amazônia é ocupada com a pecuária, estimulada pelo governo.
Pastagem
Ao chegar à região, os donos da terra oferecem a madeira que encontram às serrarias. Com isso formam seu primeiro capital e muitas vezes também ganham a primeira estrada para sua propriedade: estima-se que os madeireiros já abriram cerca de 3 mil quilômetros de estradas para tirar da mata a matéria-prima de seu negócio.
Depois disso, ateia-se fogo na área e forma-se o pasto. Para os ecologistas, seria melhor se o governo parasse de dar incentivos para o avanço da fronteira agrícola e estimulasse a exploração das florestas por meio do manejo sustentável. "Estamos desperdiçando recursos de maneira absurda", acusa Paulo Adário, do Greenpeace.
Ele observa que a madeira é considerada uma matéria-prima tão barata e tão disponível, que os índices de desperdício nesse setor seriam inadmissíveis em qualquer outra atividade empresarial: "De cada dez árvores derrubadas, só três são aproveitadas. Há casos em que cortam as árvores no meio do mato, para buscar depois, e esquecem onde ela caiu. Outros demoram tanto que a árvore acaba consumida por insetos. Outros, por falta de técnica adequada, deixam a árvore rachar quando cai, tornando-a inaproveitável. Boa parte se perde no pátio das serrarias, onde, por falta de estufas, a madeira empena ou racha."
Pasto
Segundo os especialistas, isso não ocorre quando se trata de madeira certificada, explorada com técnicas mais modernas e menos desperdício, por causa do custo mais elevado e por exigências dos importadores, cada vez mais preocupados com a questão ambiental. "Se o governo não oferecer alternativas econômicas para a Amazônia, ela vira pasto", diz Veríssimo.
Para a Associação das Indústrias Exportadoras de Madeira do Pará (Aimex), o governo deveria criar florestas de produção. Seriam florestas do Estado ou da União, ou de um município, dadas como uma concessão às empresas.
Qualquer solução para o problema madeireiro, porém, deve ser precedido de um vasto processo de regularização fundiária. O grande problema da Amazônia ainda é a falta de definição legal de propriedade: quase metade da região é de terra devoluta ou sem titulação definida, o que ocasiona os intermináveis conflitos.
Boa parte da madeira sai de terras do MST
Roldão Arruda
O imbróglio da madeira tropical é agravado no Brasil pelos mitos que o cercam. Um deles é o de que a devastação da floresta deve ser inteiramente creditada a grandes proprietários rurais, latifundiários e grileiros violentos. Os estudos feitos na região, porém, mostram uma realidade mais complexa.
Quase metade da madeira comprada pelas serrarias da Amazônia provém de propriedades pequenas, com menos de 500 hectares. Muitas delas situadas nos assentamentos da reforma agrária que o presidente Fernando Henrique Cardoso, sob pressão do Movimento dos Sem-Terra (MST), espalhou pela região nos anos 90.
Descapitalizados, os assentados tratavam de vender a madeira e abrir áreas de pastagens assim que tomavam posse da área concedida pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Em algumas regiões, dependendo da espécie, pode-se obter R$ 400 por uma árvore com 5 metros cúbicos de madeira.
A derrubada da mata na propriedade rural não é ilegal. Na maioria das vezes permite-se derrubar uma parte dela para o cultivo ou pastagem. O problema, segundo os especialistas é que nem sempre os limites são respeitados.
Guias Irregulares
Outro problema que eles apontam são as irregularidades nas concessões de exploração concedidas pelo Ibama. "Muitos relatórios enviados às autoridades para obter a concessão superestimam a madeira existente na área", observa Paulo Adário, do Greenpeace. "Já vi casos em que o explorador dizia que tinha uma área com 14 metros cúbicos de mogno por hectare em sua área, o que é absolutamente improvável. Você pode encontrar, em casos raros, 6 metros cúbicos. Ele dizia isso porque pretendia usar a mesma guia de autorização para explorar o mogno em áreas não autorizadas e depois passar com tranqüilidade pelas barreiras de fiscalização."
Outro mito sobre a madeira da Amazônia é o de que ela vai toda para o exterior. Diferentes estudos indicam que 85% da madeira tropical brasileira fica no País. Segundo o grupo Greenpeace, o que se exporta é a madeira mais cara, como cedro, jatobá, ipê, amarelão.
Enquanto no Brasil o metro cúbico de madeiras mais procuradas chega a US$ 350, no exterior pode ir a US$ 600.
No mercado brasileiro, a disputada madeira tropical nem sempre tem um destino nobre. De acordo com levantamento feito pelo Imazon, em 2001, para uma área construída de cerca de 6 milhões de metros quadrados na cidade de São Paulo, foram consumidos aproximadamente 216 mil metros de madeira serrada originária da Amazônia. Desse total, 80% eram madeiras descartáveis (formas e andaimes) e apenas 20% produtos beneficiados (pisos, esquadrias e móveis).
OESP, 27/02/2005, p.A4
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