Veja , Especial, p. 64-81
14 de Mai de 2014
Vai faltar água, vai faltar luz mas sobra indignação.
Mariana Barros e Jennifer Ann Thomas
A frase do ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, já faz parte de qualquer antologia dos despautérios de autoridades que pouco têm a dizer quando apresentadas a problemas incontornáveis, que lhes parecem alheios.
Disse ele, depois do apagão de segunda-feira passada na Região Sudeste: "Deus é brasileiro. Temos de contar que ele vai trazer um pouco de umidade e chuva para que possamos ter mais tranquilidade". Para seu azar, como numa comédia insossa, em meio à entrevista aos jornalistas as luzes do auditório em Brasília se apagaram. Braga fez tudo errado ao apelar para Deus, e só alimentou as críticas de quem, com razão, se vê à beira do abismo e rapidamente põe a culpa nas autoridades. Houve lerdeza, leniência e inépcia públicas, mas é fácil atribuir o drama de abastecimento de água e luz apenas à falta de planejamento. Não se trata de absolver o governo de São Paulo no caso da escassez de água e o federal no da pane elétrica da semana passada, mas convém lembrar que nem tudo pode ser antecipado, que variações climáticas como as dos dois últimos verões são pontos extraordinariamente fora da curva. A previsão sazonal de chuvas pode ser feita em poucas regiões do planeta - basicamente apenas onde a meteorologia é condicionada pelas variações dos oceanos. Não é o caso do Sudeste brasileiro.
Dado que pedir socorro divino é inócuo, para não dizer inconcebível, e a ciência não pode tudo, um caminho é admitir que houve fracasso e que, infelizmente, a população terá de pagar a conta - postura que muitos brasileiros, solidários e conscientes da crise hídrica, já exercitam, economizando como podem, com algum orgulho cívico. Jerson Kelinan, presidente da Sabesp, a empresa responsável pelos serviços de saneamento básico de São Paulo, admitiu que "não é sensato brigar com os fatos".
Em artigo para a Folha de S.Paulo, ele distribuiu sinceridade, produto mais escasso que água desde janeiro de 2014, quando se começou a falar do nível baixo dos reservatórios. "A Sabesp pode ser forçada a fazer racionamento se não chover nos lugares certos e nas quantidades necessárias. Na atual crise, a empresa não tem como prestar o serviço como se a situação fosse de normalidade", escreveu Kelman. Não é - e não será - de normalidade, nem mesmo pedindo ajuda a Deus. As agruras que vão se abater sobre os brasileiros nos próximos meses exigirão tolerância, colaboração e engenhosidade de todos - só indignação é pouco, como anota a Carta ao Leitor desta edição. Nas próximas páginas, VEJA esmiúça os impactos do duplo a pagão, de água e luz no cotidiano do país.
Vida seca na cidade grande
A realidade é incontornável: pode até chover muito nas próximas semanas, mas 2015 será um ano sem água nas metrópoles do Sudeste.
Mariana Barros e Jennifer Ann Thomas
No Brasil, sempre que se falava de seca, a primeira imagem que vinha à mente era o chão trincado da aridez do sertão nordestino, transformada em obra-prima no romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, de 1938. "Um dia... Sim, quando as secas desaparecessem e tudo andasse direito... Seria que as secas iriam desaparecer e tudo andar certo? Não sabia (...) Livres daquele perigo, os meninos poderiam falar, perguntar, encher-se de caprichos." Um dia, será que grandes metrópoles como São Paulo e Rio caprichosamente terão vidas secas como a de Fabiano e a de Baleia? Estamos ainda longe desse quadro, evidentemente traumático, mas a atual crise hídrica na Região Sudeste autoriza pesadelos. Há uma "força colossal da natureza", para usar uma expressão do historiador francês Fernand Braudel, abatendo-se sobre a região.
No chamado Sistema Cantareira, que abastece a Grande São Paulo, os especialistas sempre miraram o ano de 1953 como o mais crítico, aquele em que o reservatório chegou pela primeira vez a um patamar alarmante, a apenas 39% de sua capacidade - manda a boa norma da engenharia que todo sistema deve estar preparado para qualquer evento extremo, e um pouco mais, como se tivesse um colchão de segurança. 1953 era o marco, e dava-se como certo que uma dificuldade semelhante àquela seria contornada. Mas houve o climaticamente imprevisível, e 2014 viu os reservatórios baixar à metade do que se observara em 1953 - e em 2015, apenas em janeiro, a queda é ainda maior. Do ponto de vista político, ante essa linha histórica acachapante, a ordem agora é não olhar para trás, o que não significa esquecer que houve lentidão em decisões passadas. Trata-se, emergencialmente, de resolver a escassez imediata. "É torcer pelo melhor, mas estar preparado para o pior", diz Jerson Kelman, presidente da Sabesp, a empresa de saneamento básico de São Paulo. Se houvesse outros reservatórios, o problema estaria praticamente resolvido, mas não há. Cabe aqui um exercício hipotético, embora o "se" nunca seja muito conveniente.
Se, há uma década, uma autoridade pública sugerisse fazer novas represas, seria acusada de jogar dinheiro fora, mancomunada com empreiteiras, em detrimento de tantos problemas mais graves. Afinal, no "Sul maravilha" água sempre foi solução - nunca problema. Seria como sugerir que se construísse um estádio de beisebol no Rio de Janeiro com capacidade para 500 000 torcedores. Ante a impossibilidade de soluções definitivas a curto prazo, e como 2015 será decisivo, grandes obras serão tocadas, mas seus resultados demorarão a chegai; talvez em 2017 ou 2018. No aqui e agora, os técnicos procuram na região da Mata Atlântica, na franja da região metropolitana de São Paulo, de chuvas abundantes, rios nos quais possam ser colocadas instalações provisórias, de modo a levar água para os centros urbanos - um pouco ao modo tradicional do Nordeste. Buscam-se, também, maneiras de frear o desperdício nas tubulações e as perdas comerciais dos chamados "gatos", além da redução consciente do consumo. A longo prazo, num período de dez anos, uma das apostas é substituir os 64000 quilômetros de canos subterrâneos que abastecem a Grande São Paulo, com o objetivo de reduzir vazamentos. São boas iniciativas para impedir que vidas sequem.
Vidas Secas foi publicado em um período no qual sete entre dez brasileiros viviam em zonas rurais, e a grande maioria sofria com intempéries climáticas. Hoje, oito entre dez estão em centros urbanos e tudo melhorou, como o acesso à educação e a serviços de saúde. É assustador, portanto, imaginar que aquele retrato árido possa chegar às grandes cidades. A urbanização é um dado definidor de nosso tempo, e o impulso para o consumo proporcionado pelo cotidiano das metrópoles é que faz tudo mais explosivo quando algo dá errado. No Brasil, água e energia são irmãs siamesas, para o bem e para o mal, e um duplo apagão como o da semana passada é a tempestade perfeita. Em um país cuja matriz energética é essencialmente hídrica, responsável por 75% da emissão de eletricidade, faltar água é o atalho para apagai- a luz.
Na semana passada, o volume de água disponível para cada habitante das duas maiores capitais do país, São Paulo e Rio, era o mesmo, proporcionalmente, que aquele que está ao alcance de quem vive no sertão. No estado paulista, onde reside um quinto da população brasileira e é produzido um terço do PIB nacional, o volume das represas pode durar apenas até março. Na sexta-feira 23, o Cantareira operava com 5,3% de capacidade, já tendo sido usados dois volumes mortos (veja o infográfico nas páginas anteriores). No Rio, a reserva de Paraibuna, o principal abastecedor dos fluminenses, entrou na semana passada em seu primeiro volume morto. O nível de água dos quatro reservatórios desse sistema está em apenas 0,82% da capacidade. A Zona Oeste registra falta de água, e condomínios de luxo da Barra da Tijuca apelam para caminhões-pipa. Na favela do Terreirão, no Recreio dos Bandeirantes, as pessoas fazem fila para colocar baldes sob um cano quebrado de uma bica conhecida como "dos jacarés".
O nome se dá porque ali vivem jacarés que intimidam moradores, agora obrigados a resgatar coragem para tirar água s do local. "Cheguei a escorregar enquanto enchia o balde, e um deles quase me mordeu", relatou Juliana da Conceição Silva, grávida de sete meses, moradora do Terreirão, acompanhada de dezenas de moradores na aventura. Em Belo Horizonte, a companhia de saneamento Copasa afirmou ser necessário reduzir o consumo em 30% para evitar racionamento.
Diminuir o consumo é o caminho natural em períodos sem abundância, e os cidadãos tendem a ser mais ágeis, na mudança de comportamento, que os governos. Mas não será fácil. Um paulista, o mais afetado pela seca, usa 188 litros de água por dia - um gasto 25% menor que o da população do Rio e não muito distante do de europeus. A margem de corte domiciliar, portanto, é razoavelmente pequena. O berço da crise está em uma combinação, sempre drástica, de dois fatores. Primeiro, a imprevisibilidade da natureza: faz dois anos que chove abaixo da média, fruto de uma anormalidade climática, que muitos cientistas atribuem ao aquecimento global. A segunda razão é atávica, mais antiga que os livros de Graciliano: a falta de gerência, por vezes descaso, das autoridades.
Apesar de não ter sido possível prevê-los com precisão, o calorão e a falta de chuva não são uma total surpresa. Segundo dados da Nasa, a agência espacial americana, nove dos dez anos mais quentes já registrados ocorreram de 2000 para cá, sendo que 2014 foi o recordista. "Sabe-se que o clima será cada vez mais extremo e imprevisível", analisa Helio Mattar, presidente do Instituto Akatu, reputada ONG de sustentabilidade. "Governos devem agir com antecipação, e a população tem de se conscientizar." Em resumo, o único modo de lidar com a imprevisibilidade é tecer planos, e eles rarearam - ainda que a natureza tenha sido mais inclemente que o imaginado.
Embora o regime de restrição soe como sentença aos ouvidos brasileiros, ele é rotineiro em várias partes do mundo. "A escassez fez com que países como Israel e Japão desenvolvessem até sistemas para transformar esgoto em água potável", diz o engenheiro e consultor Gesner Oliveira, ex-presidente da Sabesp. Mesmo sem dispor da tecnologia de ponta, os beduínos aprenderam ao longo da história a sobreviver com o mínimo de água. Nômades, vagam por desertos árabes e, quando encontram poços, armam suas tendas e abastecem gamelas. Povos como os beduínos tratam a água como ouro há milênios. O Brasil, rico em rios e lagos, não está acostumado a essa realidade. Não se trata, evidentemente, de supor que, da noite para o dia, nos tornemos beduínos, e muito menos convém tirar responsabilidade das autoridades. Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, tem sua parcela de culpa, mas agora a travessia do deserto vai exigir sacrifício individual pelo bem coletivo.
Com reportagem de Cecília Ritto e Hugo Pernet
E não se fez a luz
A falta de providência do governo resultou no atraso de obras e deixou o país mais próximo de um novo racionamento, que, se vier, vai derrubar a economia e colocar o país em recessão.
Marcelo Sakate e Bianca Alvarenga
O novo ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, ao assumir o cargo, afirmou que o seu desafio seria oferecer energia a preços razoáveis às empresas para, dessa forma, contribuir com a retomada do crescimento econômico. A indústria, entretanto, já faz seus cálculos contando como certo um aumento de até 50% nas tarifas neste ano. Para as famílias, a estimativa é que o reajuste supere 30%. Ainda assim, todos terão de torcer para que haja energia suficiente para atender à demanda. Braga percebeu que seu maior desafio, na verdade, será assegurar o abastecimento. Até a semana passada, choveu em janeiro o equivalente a 41% da média histórica para o mês nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, que respondem por 70% da geração hidrelétrica do país. O nível dos reservatórios está em queda e encontra-se abaixo de onde estava em 2001, quando houve o racionamento. "Deus é brasileiro e vai trazer chuva", rezou o ministro. Não falou sobre a quem orar para que o governo e as empresas entreguem as obras no prazo. O blecaute em onze estados e no Distrito Federal na segunda-feira 19, depois de um corte emergencial realizado para evitar o colapso do sistema diante de um pico na demanda, expôs a precariedade do setor elétrico nacional - área, lembre-se, comandada por Dilma Rousseff nos tempos em que era ministra de Minas e Energia. O apagão só não se repetiu nos dias seguintes porque o governo importou energia da Argentina.
Tem chovido pouco e o calor tem sido excessivo no Sudeste, levando a um aumento do uso do ar-condicionado. Mas os sistemas elétricos não podem operar no limite. Precisam de uma folga técnica, para suprir a necessidade em situações emergenciais. Por causa da falta de investimentos e do atraso nas obras em curso, não existe no país reserva de emergência. O racionamento só não foi decretado porque as termelétricas, movidas a gás, diesel e carvão, operam em capacidade máxima, e é esse custo adicional que chega às tarifas. Mesmo essas usinas, entretanto, poderão ser insuficientes caso não aumente a intensidade das chuvas. Tanto no Sudeste como no Nordeste, os reservatórios estavam em 17% da capacidade na última semana. Braga, na quinta-feira, viu-se obrigado a reconhecer o óbvio. Se o nível das represas cair abaixo de 10%, será necessário um racionamento. Isso porque, com níveis muito baixos, as hidrelétricas simplesmente não funcionam. Foi o que ocorreu com a usina de Paraibuna, cujo lago secou.
As perdas para a economia de um eventual racionamento entram nos cálculos de bancos e consultorias. O PIB poderá encolher 1,5% neste ano se houver um corte obrigatório de 10% no consumo por causa de restrições na oferta. O país já vem, na verdade, pagando o preço das dificuldades na área energética. A economia poderia ter crescido meio ponto porcentual a mais no ano passado se não fosse o custo mais alto da energia para o setor produtivo, estima a associação que reúne grandes consumidores industriais de energia, a Abrace. No racionamento de junho de 2001 a fevereiro de 2002, os impactos negativos foram evidentes. A produção industrial e os investimentos recuaram, o desemprego subiu e o país entrou em recessão em meados de 2001. Para as indústrias, especialmente as que são mais dependentes do uso de energia (o peso desse insumo corresponde a até 40% dos custos totais), o impacto é profundo. O apagão de fevereiro de 2011, que deixou oito estados do Nordeste sem luz por seis horas, paralisou a produção na fábrica da Braskem em Camaçari, na Bahia. Fornos que operam com temperaturas de até 750 graus foram danificados com a solidificação de substâncias. A unidade só voltou a funcionar a plena carga três meses depois, e o prejuízo foi de 200 milhões de reais. Após o episódio, a Braskem decidiu investir em equipamentos para mitigar os riscos de apagão ou de oscilações bruscas no fornecimento e ficar menos vulnerável. Um dos investimentos, que preserva as atividades essenciais no caso de falta de energia, custou 50 milhões de reais. O prejuízo e o gasto refletem-se na perda de competitividade da indústria. Na Alemanha, apagões de grandes proporções ocorrem em média a cada oito anos. No Brasil, a frequência tem sido anual.
Para os consumidores residenciais e o comércio, os prejuízos tampouco são triviais. No último mês, em São Paulo, foram registradas 1700 reclamações de falta de luz, de acordo com o Procon-SP. "Blecautes não são um problema exclusivo do Brasil. Mas o aumento das ocorrências nos últimos anos indica que o governo e as empresas precisam investir mais na segurança da rede elétrica", diz Djalma Falcão, professor de engenharia elétrica da Coppe/UFRJ. A experiência internacional serve de guia. Em 2003, 50 milhões de pessoas ficaram sem luz no nordeste dos Estados Unidos e em parte do Canadá em um apagão causado pela combinação de consumo elevado por causa do calor, redes sobrecarregadas e falhas de manutenção. Em Nova York, o metrô parou de operar. O episódio deixou lições. O governo passou a obrigar as empresas a investir na manutenção e no aumento da confiabilidade das redes, sob ameaça de multa milionária. Houve incentivos fiscais para a construção de linhas inteligentes (smartgrids), que permitem a gestão automatizada da rede.
Desde o início do governo Dilma, já foram registrados no país 244 apagões de grandes proporções (veja o quadro na pág. ao lado). Qualquer imprevisto leva o sistema elétrico ao desequilíbrio. Na segunda-feira passada, um problema em uma linha de transmissão que traz energia da Região Norte para o Sudeste fez a geração ficar menor do que a demanda, o que provocou o desligamento de onze usinas. Para evitar um colapso ainda maior, o governo pediu a distribuidoras de energia que cortem o fornecimento de forma seletiva. Na terça, o órgão responsável pela gestão do setor enviou uma nota às distribuidoras em que alertava para o risco de o corte de energia se repetir naquele dia. O governo, temendo carregar a pecha de ter provocado um novo racionamento, finge que não existe o problema, em vez de pôr em curso uma campanha para racionalizar o uso da energia. "Nunca houve um racionamento seletivo como este, em que o governo escolhe onde cortar a energia", diz o professor José Goldemberg, presidente do conselho de sustentabilidade da Fecomercio SP. "Como o sistema não consegue suprir todo mundo, basta as pessoas ligarem o ar-condicionado para que caia a energia." Em 2001, as famílias diminuíram em 20% o consumo com medidas simples, como tomar banhos menos demorados e acumular a roupa antes de usar a máquina de lavar. Agora, o governo prefere contar com a sorte e a divina providência. Diante de tamanha arrogância das autoridades de Brasília, talvez os céus não ouçam as preces do ministro.
Com reportagem de Isabella de Luca
Vilão da história
A ciência deixa pouca margem para dúvidas: o aquecimento global acelerado pelo ser humano é culpado por climas extremos - mas essa evidência não absolve as autoridades da inépcia nos cuidados com o ambiente.
E um fato incontornável: o planeta passa por um aquecimento global intenso, e a maior parte da responsabilidade pelo descompasso do clima é do ser humano. Com fábricas, carros e o desmatamento generalizado de habitats, multiplicamos por 180 a quantidade de C02 na atmosfera desde a Revolução Industrial, motor do efeito estufa, responsável pelo aumento de 0,8 grau na temperatura da Terra. Parece pouco, mas foi o suficiente para consolidar um caos climático que se agrava: o calor elevado faz com que eventos extremos, como tempestades e secas duradouras, sejam cada vez mais frequentes. Em 2014, o ano mais quente desde que começaram os registros, em 1880, a situação só piorou. A Califórnia, o estado mais populoso dos Estados Unidos, por exemplo, registrou secas recordes. A Inglaterra e a Índia enfrentaram enchentes colossais. Cabe, portanto, a pergunta: a falta de chuvas e o calorão do início de janeiro no Sudeste brasileiro são também filhos do aquecimento global?
Climatologistas dizem não ter certeza, pois dependem de projeções de longo prazo para responder. Ou seja, precisam esperar para verificar se a situação se repete por muitos anos ou se se trata de uma anomalia, provocada por algum fenômeno climático pontual e ainda desconhecido. Mas, afastada a minuciosidade exigida por comprovações científicas, é concebível concluir que o aquecimento planetário está na origem da seca. E, se essa é a resposta, pode-se esperar por tempos ainda mais áridos nas próximas décadas.
Dizer que 2014-foi o ano mais quente da história soa a repetição - desde 1978, todos foram mais quentes que a média histórica. Uma pessoa de 38 anos, portanto, só viu o termômetro anual subir desde que nasceu. A probabilidade de alguém acertar ao apostar que 2015 baterá o recorde do ano passado é imensa. Trata-se de uma lógica cujo desfecho é um cenário de contornos assustadores, com evidentes repercussões econômicas, e que alguns, com certo exagero, denominam de apocalípticos.
O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), órgão da ONU, foi assertivo em seu mais recente relatório, divulgado em novembro. Mesmo em uma situação otimista, na qual a humanidade atingiria a meta de cortar por completo as emissões de C02 até 2100 - o que exigiria a substituição da queima de combustíveis fósseis, como petróleo, por fontes renováveis como a principal matriz energética da civilização -, espera-se uma elevação de 2 graus na temperatura do planeta. Se nada for feito, o aumento chegará a 4 graus. Nessa condição, áreas semiáridas como o sertão brasileiro virariam desertos, florestas tropicais sumiriam do mapa e a atual falta de água em São Paulo seria quase um conto de fadas diante do clima de secura que se instalaria sobre a cidade. "Tudo indica que teremos de nos preparar para climas radicais, que antes do aquecimento eram mais raros", diz o físico Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo e membro do IPCC.
É irreversível? A curto prazo, sim. Medidas de adaptação e mitigação devem, contudo, ser tomadas para evitar desastres ambientais. Cidades acometidas por tempestades de intensidade cada vez mais elevada precisam se reestruturar para aumentar o escoamento da água pelas ruas e evitar enchentes; onde há seca é necessário combater o desperdício de água com ações como multas para quem exceder o consumo tolerável. Já a longo prazo é possível retardar o aquecimento e balancear o clima. A receita é quase um mantra. Governos têm de estabelecer medidas que levem à diminuição da emissão de C02 até o corte completo. Em paralelo, uma mudança ainda mais necessária precisa ocorrer: cada um dos 7 bilhões de habitantes do planeta tem de colaborar com a adoção de hábitos sustentáveis, como reciclar o próprio lixo e consumir menos água.
Veja ,28/01/2015, Especial, p. 64-81
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