OESP, Especial, p. H4
18 de Jun de 2012
União Europeia diz que falta ambição à proposta brasileira
Bloco pede objetivos e metas com prazos concretos e sistemas de monitoramento para medir progressos
FERNANDO DANTAS
A União Europeia (UE), em meio a uma das maiores crises econômicas da sua história, foi o participante das negociações da Rio+20 a demonstrar maior insatisfação com o novo texto do documento final apresentado pelo Brasil no sábado. Em nota divulgada pela delegação da UE, o bloco diz que "apesar de ter algumas boas coisas, o texto não parece alcançar a ambição necessária (nem o resultado com foco que o Conselho Europeu demandou) em prol do desenvolvimento sustentável e de uma economia verde inclusiva".
Outros participantes das negociações, como os Estados Unidos e países africanos, tiveram reações mais matizadas, reconhecendo alguns avanços no novo texto, mas indicando que intensas negociações serão necessárias para um consenso.
A nota da UE deixa claro que os países europeus lutam por um documento final mais incisivo nas questões ambientais propriamente ditas. Isso inclui uma definição mais forte de economia verde, um conceito que o G-77 (que representa mais de 130 países em desenvolvimento, inclusive o Brasil) vê com desconfiança pelo temor de que envolva novas formas de protecionismo ou de condicionalidades para suporte financeiro ou outras formas de apoio por parte dos países ricos.
Manifestando preocupação com o crescimento populacional e a pressão exercida sobre recursos naturais pelo aumento da produção e do consumo, a nota da UE afirma que "a economia verde é a chance de transformar estes desafios em oportunidades". Para o bloco, a economia verde é o caminho para "criar empregos, tirar pessoas da pobreza, alimentar nossas crianças e ao mesmo tempo reduzir a pressão sobre o meio ambiente".
A UE pediu que o novo texto redigido pelo Brasil, percebido como excessivamente vago por delegados e ONGs, inclua "objetivos e metas com prazos concretos e sistemas de monitoramento para medir progressos".
Já a principal negociadora da Grã-Bretanha na Rio+20, a ministra do meio ambiente britânica, Caroline Spelman, afirmou que "queremos ainda ver bons resultados tangíveis, porque produzir um documento com palavras é uma coisa, mas queremos demonstrar a vontade política para conseguir resultados concretos da cúpula".
A ministra britânica mostrou-se satisfeita com a remoção, no texto, da proposta do G-77 de criação de um fundo de US$ 30 bilhões por ano para financiar ações de transição dos países mais pobres para a economia verde. Os países da União Europeia, além de EUA, Japão e Canadá, eram contrários à ideia.
"Os financiamentos vão acontecer, assim como a transferência de conhecimento, mesmo se a criação do fundo não estiver no documento final", disse.
Novos colchetes. Para um negociador americano ouvido pelo Estado, os próximos dias ainda serão de intensa negociação, apesar do esforço conciliatório do novo rascunho organizado pelo Brasil. O problema, segundo ele, é que o novo texto, na maior parte dos temas conflituosos, assume um ou outro lado da disputa.
O delegado americano, entretanto, considerou que seria "injusto" dizer que o novo texto proposto pelo Brasil não fez avançar em nada o processo negociador. Ele deu como exemplo a questão dos mares. O problema mais substantivo, de se fazer ou não um novo acordo sobre exploração em águas internacionais, permanece em aberto.
Mas o novo texto chegou a uma formulação consensual sobre a questão de recuperar estoques pesqueiros, afetados pela pesca ou pela poluição.
Segundo um delegado da delegação do Mali, "o Brasil apresentou um bom texto, e é preciso seguir com o Brasil".
Ele relatou que, numa reunião no sábado à noite com países do G-77, a sua sensação foi de que prevaleceu uma postura favorável ao texto confeccionado pelo Brasil.
Apesar disso, acrescentou o delegado, os países africanos e o G-77 em geral temem que os países ricos busquem novas modificações do texto, tentando mudar em seu favor alguns trechos em que a redação brasileira buscou lados divergentes. / COLABORARAM GIOVANA GIRARDI, HERTON ESCOLAR e TIAGO ROGERO
OESP, 18/06/2012, Especial, p. H4
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