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Uma viagem solidária pelo Brasil profundo

CB, Opinião, p. 25
30 de Jun de 2007

Uma viagem solidária pelo Brasil profundo

Geddel Vieira Lima
Ministro da Integração Nacional

Em 1501, a caravela de Américo Vespúcio aporta em um majestoso curso de água doce. É 4 de outubro, dia de São Francisco. E em homenagem ao santo, o navegador florentino batiza o rio. Mais de 500 anos depois, apelidado de "Velho Chico", aquele rio prossegue imponente. Mas agora, além de contemplação, pede também ajuda.

Foi atendendo a esse chamado que percorri, na semana passada, com técnicos do Ministério da Integração e jornalistas as coreografias das cachoeiras, curvas e corredeiras do São Francisco, numa viagem de debate e realização empreendida com os olhos abertos para o futuro das suas águas e ecossistemas, das suas gentes, culturas e potenciais.
Começamos pela nascente, frágil filete que encontra córregos e desce pela inigualável cachoeira Casca d'Anta. Na Serra da Canastra, liberamos R$ 4,5 milhões para a conservação do parque nacional. O chefe da unidade, Joaquim Neto, reconheceu que foi o maior investimento já realizado na Canastra, belíssima serra que faz jus ao nome: tem o formato de baú.

Percorremos de barco, avião e helicóptero, de carro e a pé os cinco estados cortados pelo São Francisco, levando a palavra do presidente Lula sobre a necessidade de revitalizar o rio e de compartilhar suas riquezas com o sertanejo sem acesso à água. Os debates revelaram alto grau de incerteza e ansiedade. E todas as críticas lançadas contra a interligação da bacia do São Francisco com mananciais do Nordeste Setentrional divergiram das experiências de transposição que testemunhamos.

Em Minas Gerais, uma pequena transposição, de 1973, irriga a fruticultura de centenas de pequenos agricultores de Pirapora. Em Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), o transporte da água por canais sextuplicou o PIB local, transformando a região em um dos maiores IDHs (Índices de Desenvolvimento Humano) do semi-árido. Outra transposição, em Propriá (SE), leva por 100 quilômetros a água que abastece Aracaju, cidade fora da bacia.

Embora de menor porte, essas transposições e tantas outras que estamos retomando - como o Salitre e o Baixio de Irecê (BA) - canalizam volume de água às vezes muito maior do que os 26 metros cúbicos por segundo da transposição iniciada em Cabrobó, essa grande obra licenciada pelo Ibama que levará água e desenvolvimento a 12 milhões de pessoas.
Debatemos em auditórios aclimatados e em aglomerados descontraídos de ribeirinhos, como aconteceu no terreiro da tricentenária igreja da Barra do Guacuí (MG) - cujo altar foi divinamente decorado por imensas raízes de uma gameleira. Assinamos com prefeituras, entidades ambientalistas e tribos indígenas repasses de recursos que somaram R$ 450 milhões para reposição de mata ciliar, desassoreamento e sobretudo para esgotamento, principal fator de degradação do rio.

Em Bom Jesus da Lapa, onde o saneamento está adiantado, o benefício não aparece apenas na despoluição do rio. As obras já asseguraram mais qualidade de vida. A mortalidade infantil, por exemplo, registrou queda acentuada.

Nas irremediáveis contradições que toda viagem proporciona, vimos que o cuidado com o São Francisco, tão reclamado por todos, não prescinde da ação efetiva de cada um. Todo tipo de lixo bóia no rio, bombas de captação clandestina retiram água e devolvem diesel, lavouras são plantadas até a calha com a retirada total da mata ciliar. A eloqüência de governantes na exigência da revitalização contra a transposição - como se uma coisa excluísse a outra - se cala quando se trata de aplicar recursos estaduais e municipais na preservação.

Seguimos lutando e buscando soluções.
Vamos, por exemplo, estudar a inclusão do reflorestamento da bacia no mercado de carbono, para que, nos moldes do Protocolo de Kyoto, os países ricos possam contribuir com a revitalização, da mesma forma que a revitalização vai ajudar a compensar as emissões de CO2 no planeta.

Não pude ser viajante paciente como Saint-Hilaire, que percorreu no século 19 paisagem por paisagem da Serra da Canastra e outros pontos do rio. Sou um viajante do século 21. Com pouco tempo e muito trabalho.

Mas pude ver, na rápida travessia, a preocupação genuína da sociedade em aliar meio ambiente com desenvolvimento. É o que estamos fazendo com a revitalização e a transposição. O Rio São Francisco pode se tornar diferente. E muito melhor do que é.

CB, 30/06/2007, Opinião, p. 25

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