O Globo, Rio, p. 16
09 de Nov de 2014
Uma seca, diversas causas e soluções ainda distantes
Some a combinação de uma estiagem sem precedentes, uma gestão de reservatórios demasiadamente focada na geração de energia e adicione uma pitada de falta de planejamento. Por fim, inclua uma disputa partidária sem qualquer tempero. Para especialistas em recursos hídricos, essa é a receita da crise de água que estourou no Sudeste e opôs Rio e São Paulo. A proposta de transposição de 5m³ por segundo pelos paulistanos do Rio Jaguari - um afluente do Paraíba do Sul - permanece envolta em mistérios e controvérsia, embora a Agência Nacional de Águas (ANA) tenha sinalizado que dificilmente a medida deixará de sair do papel.
Reprise mais grave de uma crise ocorrida em 2003, a escassez hídrica deste ano certamente não pegou gestores públicos de surpresa, avalia o diretor-executivo da Agência da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (Agevap), André Luis de Paula Marques.
- A crise é a mesma de 11 anos atrás, os problemas são semelhantes - afirma. - Até hoje não temos de fato uma gestão da bacia do Paraíba do Sul. Defendemos novas diretrizes do governo federal para o rio, para que se priorize, em tempos de seca, o abastecimento humano, e não a geração de energia.
Na mesma linha, a engenheira química Marilene Ramos, ex-presidente do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), afirma que o "enfoque na geração de energia" deve ser repensado:
- Já estamos tendo problemas com a estiagem e poderemos presenciar situações mais graves no futuro. O que não dá para discutir é São Paulo fazer uma transposição nas condições atuais. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) atua com completa liberdade, olhando para o enfoque de geração de energia. Uma lei federal de 1997 garante usos múltiplos dos rios. Precisamos ter um operador nacional do sistema hidráulico.
USO EXAGERADO DE ÁGUA
Uma repactuação entre os diversos atores do sistema é a aposta do geólogo Edilson de Paula Andrade. Ele também acredita que houve uma "queima" desnecessária de estoque de água pelo setor elétrico, no início de 2014. O Paraíba do Sul conta com quatro grandes reservatórios - Paraibuna, Santa Branca, Jaguari e Funil - que abastecem hidrelétricas.
- É quase consenso no meio técnico de que houve certo uso exagerado de água para a geração de energia. O uso múltiplo da água da bacia precisa ser atendido. Alguém tem que abrir mão - diz.
Especialista em recursos hídricos, o consultor da PCE Engenharia Jander Duarte critica a falta de transparência com que o governo paulista vem conduzindo a proposta de transposição.
- Falta jogar limpo com a situação. Se ficar no viés político, vai ser sempre uma complicação. Essa transposição prevista não resolve crise nenhuma. Além disso, ninguém está fazendo estudos sobre riscos futuros - critica.
O secretário estadual do Ambiente do Rio, Carlos Portinho, critica a proposta paulista. E frisa que o governo do estado vizinho tinha oito alternativas de captação que atenderiam de forma mais sustentável às suas demandas futuras:
- A melhor alternativa apontada por um estudo, feito a pedido do próprio governo de São Paulo, não previa captação de água na bacia do Rio Paraíba do Sul e, sim, na bacia do Ribeira do Iguape (Região Sul de São Paulo). Por que descartaram essa opção?
Num tom mais moderado, Tarcísio Castro, professor do Departamento de Recursos Hídricos e Meio Ambiente da Escola Politécnica da UFRJ, acredita ser possível uma solução negociada:
- Essa quantidade de água que São Paulo está pedindo pode ser perfeitamente negociada. A médio prazo, a Região Metropolitana do Rio não corre risco de ter um colapso. A situação do Rio é confortável. A de São Paulo, não.
O Globo, 09/11/2014, Rio, p. 16
http://oglobo.globo.com/rio/uma-seca-diversas-causas-solucoes-ainda-dis…
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