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Uma nova Opep

OESP, Espaço Aberto, p. A2
Autor: GOLDEMBERG, José
18 de jan de 2005

Uma nova Opep

José Goldemberg

A produção diária de petróleo no mundo é de cerca de 80 milhões de barris por dia. A venda deste petróleo a US$ 50 por barril movimenta US$ 4 bilhões por dia e a Arábia Saudita, com uma produção de 8 milhões de barris por dia, domina a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).
Sucede que petróleo é um combustível fóssil, cujas reservas são finitas. A importância do petróleo na economia mundial não vai durar para sempre, porque as reservas mundiais começarão a diminuir - bem como a sua produção - em menos de 20 anos. A Arábia Saudita é o único produtor de petróleo que está em posição confortável, porque suas reservas deverão durar mais de 50 anos. As reservas dos Estados Unidos são pequenas e eles já importam mais da metade do petróleo que consomem, o que significa que vai sobrar menos petróleo para os outros países.
A reação de muitos analistas a este cenário é a de que existem reservas imensas de petróleo de baixa qualidade na Venezuela, em Manitoba, no Canadá, nos depósitos sulfurosos do Mar Cáspio e no xisto betuminoso do Paraná. Essas esperanças de prolongar a vida do petróleo são ilusórias. Todas essas reservas vão exigir um grande trabalho de limpeza e purificação, o que tem um custo elevado. Além disso, as conseqüências para o meio ambiente local serão imensas e certamente sua exploração vai encontrar forte resistência. Mesmo o petróleo que se usa hoje é uma das principais fontes de poluição ambiental, mas que está relativamente sob controle, exceto pelas emissões de carbono, o principal responsável pelo "efeito estufa".
Quais as alternativas para substituir o petróleo, esse combustível maravilhoso que se tornou o motor do desenvolvimento do século 20 e que garante a mobilidade a que temos acesso pela primeira vez na História da humanidade?
A procura deste substituto já começou e existem soluções sofisticadas do ponto de vista tecnológico, como o uso do hidrogênio e outras, todas ainda na fase de pesquisa e experimentação e cujos custos são imprevisíveis.
Sucede que o Brasil desenvolveu a melhor alternativa existente, que é uma realidade economicamente viável e é baseada numa tecnologia simples e eficiente: a produção de álcool (etanol) a partir da cana-de-açúcar. O álcool não só é menos poluente do que a gasolina, mas é também renovável, porque se origina de uma planta (cana-de-açúcar) cuja energia é proveniente do Sol. Ele é, portanto, superior à gasolina, emite menos poluentes do que gasolina e não contribui para emissão de gases do "efeito estufa".
A produção brasileira de etanol em 2,7 milhões de hectares de área plantada (principalmente em São Paulo) é de 250 mil barris por dia, ou seja, cerca de 3% da produção de petróleo da Arábia Saudita, o que não é muito numa escala mundial.
A produção de álcool, contudo, pode aumentar e, se atingir 1 milhão de barris por dia, tornará o País um grande produtor de combustível líquido, que poderá ser exportado para a Europa, os Estados Unidos e o Japão. A exportação de 1 milhão de barris de etanol por dia poderia render cerca de US$ 50 milhões por dia em divisas, ou quase US$ 20 bilhões por ano, além de gerar milhões de empregos - 1 milhão de barris de combustível (petróleo) é pouco menos do que produzia o Iraque antes da invasão e a sua importância como produtor pode ser julgada pela confusão que foi criada por torná-lo um produtor confiável.
Em outras palavras, o Brasil, com seu etanol, pode liderar uma verdadeira Opep da energia renovável, estimulando outros países da América Latina e da África que produzem cana-de-açúcar e poderiam também produzir álcool com a tecnologia brasileira, garantindo seu desenvolvimento econômico de forma sustentável.
Um processo nesse sentido já foi iniciado com os planos de expansão da produção de cana-de-açúcar em São Paulo, que pretende aumentar em 50% a produção do Estado até 2010. Parte da produção será para exportação, a ser utilizada no exterior como aditivo, numa porcentagem pequena, para substituir aditivos inaceitáveis do ponto de vista ambiental, como o MTBE. O Japão já adotou legislação permitindo a adição de 3% de álcool na gasolina. Com a disseminação pelo mundo dos automóveis "flexfuel" (combustível flexível), misturas maiores serão possíveis e os preços relativos de álcool e gasolina definirão a escolha do combustível pelo próprio usuário.
A expansão da área plantada com cana-de-açúcar no Estado de São Paulo ocorrerá utilizando principalmente áreas anteriormente destinadas à pecuária e, portanto, sem provocar desmatamentos e com impactos ambientais reduzidos. Este é um cuidado espacial que precisa ser obedecido, porque os eventuais países importadores já têm manifestado preocupações nesse sentido e têm proposto introduzir um "selo ambiental" para a produção de etanol no Brasil.
Para viabilizar um grande programa de exportação de álcool falta ainda um ingrediente essencial, que é a garantia de continuidade de abastecimento a longo prazo. O que afetou seriamente a credibilidade da venda de automóveis que usavam álcool puro no início da década dos 90 foi juntamente a falta deste combustível, já que muitos usineiros preferiram usar a cana-de-açúcar para produzir açúcar para a exportação.
Empresas especializadas em exportação (tradings) e até a Petrobrás são candidatas a exercer esse papel. Esta é uma questão que precisa ser equacionada com urgência.

José Goldemberg é secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo

OESP, 18/01/2005, Espaço Aberto, p. A2

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