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Uma nova geografia da pobreza

JB, Economia & Negocios, p.A20
05 de Set de 2004

Uma nova geografia da pobreza
Estudo de pesquisadora da FGV revela que miséria cresceu na Região Norte do país e recuou no Sul
Daniele Carvalho e Marcelo Kischinhevsky
A geografia da miséria mudou drasticamente nas últimas décadas, mas uma tendência se manteve: a cada ano que passa, quanto mais para baixo da linha do Equador, menor a proporção de pobres na população brasileira. Esta é uma das conclusões de pesquisa feita pela coordenadora de Projetos do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas, Sônia Rocha. Os dados do estudo, que serão apresentados esta semana no Mini-Fórum Nacional, que marcará os 40 anos de criação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostram que a pobreza cresceu na Região Norte e recuou na Região Sul. Em 1970, 4,7% dos habitantes do Norte estavam abaixo da linha de pobreza, percentual que saltou para 11,9% em 2002.
Para traçar o mapa da miséria no país nas últimas três décadas, a economista usou como base dados a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (Pnad) e censos demográficos do IBGE.
- Quando avaliamos a Região Norte, observamos que o aumento da população naquela área se deu, principalmente, por conta de movimentos migratórios, motivados por atividades sem sustentabilidade ou com aspectos multiplicadores pequenos sobre emprego e renda - assinala Sônia.
- A questão social será um dos principais temas abordados no Mini-Fórum, que terá um painel sobre as políticas para o setor nos últimos 50 anos - adianta o ex-ministro do Planejamento e coordenador do evento, João Paulo dos Reis Velloso.
A cidade de São Paulo também amargou expressivo aumento da pobreza nos últimos 30 anos, segundo a pesquisa de Sônia. Sobrecarregada por constantes movimentos de migração provenientes, principalmente, do Nordeste, o município tinha, na década de 70, 14,3 % de desfavorecidos, frente 19,6% apurados em 2002.
- São Paulo precisa ser analisada separadamente, pois apresenta desempenho diferente dos demais Estados da Região Sudeste, que teve a pobreza reduzida de 21,9% para 17,8% no período - explica a economista do Ibre.
Já na Região Nordeste pouco mudou no período. Em 1970, 38,5% dos habitantes urbanos eram pobres, percentual que praticamente se repete em 2002: 39%. 0 recuo da pobreza, no entanto, foi observado na área rural da região (23,5% para 10,7%). De acordo com Sônia Rocha, a queda deve-se à maior abrangência da previdência pública no país.
- Os aposentados passaram a sustentar diversas gerações da família nestas áreas. Além disso, por ser universalizado, o valor da aposentadoria tem maior poder de compra naquela região, o que explica o recuo - observa.
A Região Centro-Oeste, a exemplo do Nordeste, não apresentou variação expressiva da pobreza no período: 5,48% nos anos 70, contra 5,2% em 2002.
- Apesar da estabilidade, a, área enriqueceu, passando por um vigoroso processo de modernização agrícola, com a criação de diversas cadeias produtivas - diz Sônia.
Já o Sul do país apresentou o melhor desempenho. A proporção de pobres frente à população das latitudes mais baixas caiu de 15,3% para 6,5% no período analisado.
Na avaliação da economista, o maior entrave à redução da pobreza é a falta de capacitação para o mercado de trabalho, cada vez mais seletivo.
- Além de poucas vagas, o mercado exige especialização, o que a maior parte da população não consegue preencher. Para mudarmos este cenário é preciso, antes de mais nada, fortes investimentos em educação.
Além disso, a economista defende a manutenção de políticas compensatórias, como bolsas assistencialistas.
- Esta estratégia precisaria ser mantida por, pelo menos, 15 anos. Só depois deste prazo começaríamos a desenhar um Brasil menos desigual - avalia Sônia Rocha.

JB, 05/09/2004, p, A20

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