VOLTAR

Uma foto chocante

Correio do Estado-Campo Grande-MS
Autor: Marisa Bittar | Amarilio Ferreira Jr.*
31 de jan de 2005

Este Correio e a imprensa nacional estamparam, em 26/01/05, a foto estarrecedora de uma criança Guarani-Kaiowá esquálida e definhando em processo acelerado de desnutrição. É como se Mato Grosso do Sul tivesse sofrido um "tsunami" social, tal qual a Somália da década de 1990. Ela nos suscita uma dúvida: será que nós, o povo em geral, e as elites políticas e econômicas, em particular, estamos nos nutrindo do sentimento de indiferença?

Aquela criança representa um pedacinho da alma sul-mato-grossense, pois ela é uma parte substancial da nossa identidade cultural, uma vez que somos a segunda maior população indígena do Brasil, segundo o último Censo do IBGE (2000). A imagem do indiozinho cadavérico, que provavelmente vai circular no mundo inteiro, pelos modernos meios de comunicação de massa, poderá deixar uma mácula profunda na nossa auto-estima sociocultural. Ao mesmo tempo, ela nos remete ao nosso passado mais remoto.

A mais antiga notícia que temos dos índios Guarani-Kaiowá, depois da chegada dos europeus à América, data de 1524. Naquele ano, o aventureiro espanhol Aleixo Garcia, em busca das minas de prata do Peru, cruzou o território desse povo e arregimentou um exército de dois mil guerreiros. Segundo o historiador Antônio Brand (UCDB), o território Guarani-Kaiowá "se estendia desde o rio Apa até o rio Miranda, tendo a leste a serra de Amambaí e a oeste o rio Paraguai". Portanto, temos nesses indígenas os nossos mais antigos antepassados desde o período colonial. Hoje, eles constituem uma população aproximada de 26 mil indivíduos espalhados em 27 pequenas áreas, numa média de 1,6 hectare por pessoa. Lentamente os índios Guarani-Kaiowá foram perdendo os seus Tekoha, que significa - na tradução do padre jesuíta Bartomeu Meliá - "o lugar donde vivemos segundo os nossos costumes". Ou seja: é o território nativo onde se realizam os rituais, cantos, danças e liturgias que simbolizam a cosmogenia na vida dos Guarani-Kaiowá.

Apesar disso, Estado e sociedade talvez ainda não tenham compreendido que a questão indígena é um elemento estrutural da formação histórica sul-mato-grossense. É a falta dessa compreensão que permite, entre outras coisas, depararmo-nos com tal fato enquanto que o correto seria pensarmos no bem-estar social da população computando os índios que habitam o nosso território. Não só do ponto de vista da base material de existência que garanta condições de uma vida digna a todos, mas da possibilidade plena de manifestação da pluralidade de caracteres culturais de que tanto nos orgulhamos. Só assim poderemos garantir a nossa identidade societária como uma síntese de múltiplas determinações culturais de todos que aqui habitam, inclusive daquela produzida pelo povo Guarani-Kaiowá. Ou será que desejamos uma identidade sul-mato-grossense sem a cultura que esse povo nos legou?

Por outro prisma, poderá ser problemático para a própria economia de Mato Grosso do Sul o dia em que a comunidade internacional estabelecer a relação entre as 25 milhões de cabeças de gado, e a respectiva exportação da carne, com as condições de vida em que estão submetidos os nossos índios. Ou seja, a comparação entre riqueza material oriunda do agronegócio e as condições de vida de uma parcela da população indígena pode ser inevitável. A legião de entidades de direitos humanos, ambientalistas, ecologistas, Igrejas e Organismos Internacionais que proliferam no chamado mundo globalizado não tardarão a levantar uma consigna: "Boicote aos produtos da agropecuária de Mato Grosso do Sul!". Neste caso todos seremos atingidos porque a principal base econômica sul-mato-grossense poderá ficar desestabilizada.

Se temos, de um lado, um alto índice de mortalidade infantil entre os índios Guarani-Kaiowá (64 crianças para cada mil nascimentos, em 2004) e, do outro, o segundo maior PIB das unidades federadas em 2003, é lícita a indagação: o que o governo estadual e o rico município de Dourados têm a dizer sobre as suas políticas públicas?

Para além dos direitos constitucionais garantidos pela Carta de 1988, a sociedade sul-mato-grossense terá, neste momento, de demonstrar generosidade e solidariedade. Os nossos índios não podem continuar vivendo nessas condições. Equivocam-se aqueles que pensam que podemos viver bem e ser felizes sem eles. Que patrimônio legaríamos às gerações futuras sem uma parte constitutiva da nossa gênese histórica? Se este quadro não for revertido, a nossa sociedade será culturalmente mais pobre, além de perdermos também um pouco da nossa humanidade. Apesar deste contexto, ainda nos resta a esperança de que a sociedade sul-mato-grossense não tenha renunciado à sua capacidade de sentir compaixão pelo sofrimento de um conterrâneo. Aquele indiozinho famélico da fotografia publicada nos jornais tem o direito de viver

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.