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Uma fonte de energia renovavel em expancao

GM, Panorama Setorial, p.A24
18 de abr de 2005

Uma fonte de energia renovável em expansão
Alta do petróleo, veículos bicombustíveis e maior preocupação ambiental puxam o crescimento. Sob o controle do governo por várias décadas, o mercado do álcool mostra agora que é um dos destacados segmentos agrícolas brasileiros, com forte potencial para atender à demanda mundial. Menos poluente e mais barato, características que o colocam como importante alternativa para matriz de energia limpa, o derivado de cana-de-açúcar vem ganhando mais espaço tanto no mercado interno quanto lá fora.
"O mercado do álcool está em franca expansão e com tendência de contínuo crescimento, devido principalmente ao desempenho do petróleo", afirma o economista da MB Associados, Glauco Carvalho. Originado de regiões de conflito e capacidade de produção mundial no limite, o petróleo deve registrar elevadas cotações no mercado internacional. Além disso, pressões ambientalistas estão redirecionando os países na busca de outras alternativas de energia.
Estimulada por esse novo cenário, a perspectiva para a safra 2005/06 é de a produção chegar a 16,5 milhões de metros cúbicos, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O total equivale a um incremento de 17,85% em relação à safra estimada para este ano, de aproximadamente 14 milhões de metros cúbicos.
O Proálcool
Misturado na gasolina desde os anos 30, período em que o mercado também passou a ser controlado pelo governo por meio do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), o álcool ganhou mais importância a partir de 1975, com a implantação do Programa Nacional do Álcool (Proálcool). Um dos efeitos favoráveis do programa foi o lançamento de veículos movidos a álcool no início dos anos 80, o que incrementou a demanda pelo produto.
A falta de capacidade de financiamento público, a extinção do IAA e o fim da retirada do produto nas destilarias pela Petrobras provocaram uma reviravolta no setor. Muitas empresas saíram do mercado e a produção tornou-se escassa e insuficiente para atender à demanda. "As que não fecharam tornaram-se produtoras de açúcar e ajudaram a lançar o Brasil no mercado internacional", conta o técnico da Conab, Paulo Morceli. Como resultado, foi desestimulada a aquisição de carros a álcool e a indústria reduziu drasticamente a fabricação desses veículos.Com a desregulamentação do setor e a liberalização dos preços do álcool, a agroindústria foi inserida em uma nova dinâmica de mercado nos anos 90. As empresas, que nem mesmo possuíam departamento comercial em suas estruturas, passaram a ser o agente das operações de compra e de venda do produto. Ao mesmo tempo, naquele ano houve um excesso de oferta para um restrito mercado existente. "Com poucos compradores, dezenas de usinas e milhares de corretores, os preços do litro do álcool para a usina caíram para R$ 0,16", conta Josias Messias, da empresa ProCana - Informações e Eventos.
A retomada
A recuperação do setor veio nos anos seguintes e culminou com o crescente interesse mundial por fonte de energia renovável, em detrimento do uso de produtos químicos com alto teor de poluição. O início das vendas dos veículos bicombustíveis, também chamados de "flex fuel", cuja modalidade oferece ao motorista a possibilidade de escolha do combustível na bomba de abastecimento, também surge como um fator de estímulo ao setor.
Com a alta recente do petróleo, o consumo de álcool apresenta tendência de crescimento acentuado. De acordo com a MB Associados, o preço do petróleo perto de US$ 30 o barril já garante estímulo na demanda para a aquisição de carros a álcool. "Para empatar com os preços da gasolina, os custos do álcool teriam de subir 30%", informa o economista da consultoria, Glauco Carvalho.
O álcool brasileiro também vem despertando interesse no mercado internacional. Em 2004, as exportações brasileiras de álcool combustível registraram um aumento expressivo, com salto de 217,97% em volume sobre 2003, de acordo com a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério da Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior (MIDC).
A entrada em vigor do Protocolo de Quioto é outro fator de estímulo às exportações. A vitória do Brasil, junto à Organização Mundial do Comércio (OMC), na ação contra a prática dos países desenvolvidos de dar subsídios aos seus produtores locais de açúcar, indica ainda outra perspectiva positiva para a ampliação da produção nacional sucroalcooleira no comércio internacional.

Produção avança em ritmo acelerado
A industrialização do álcool vem crescendo a cada ano, com perspectiva de chegar a 16,5 milhões de metros cúbicos na safra 2005/06, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), com base em dados do mercado. O órgão prevê realizar em maio próximo o primeiro levantamento da safra de cana e derivados. Para a safra 2004/05, está previsto um total de 14 milhões de metros cúbicos.
O primeiro crescimento consistente do setor alcooleiro ocorreu na segunda metade da década de 70, nos primeiros anos do Proálcool e de incentivos do governo. Mas, a partir da safra 1992/93, quando os estímu-los do programa perdiam força, a produção do tipo hidratado registrou uma curva em queda com recuperação somente na safra 2002/03.
Para os próximos anos, as perspectivas de analistas do setor são de contínuo crescimento do volume industrializado. A projeção de longo prazo é baseada na expansão da demanda mundial e na oportunidade para o mercado brasileiro responder por uma maior participação no comércio exterior. A produção de álcool está concentrada no Centro-Sul do Brasil, com 13,068 milhões de metros cúbicos na safra 2003/04, segundo a União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Unica).

Aumenta o interesse estrangeiro
O álcool combustível está ganhando mais visibilidade com a preocupação do uso de energia limpa, a qual evita a propagação da poluição no ar. Projeções indicam que o País será, em pouco tempo, o principal pólo mundial de produção de biocombustível feito a partir de cana-de-açúcar e de óleos vegetais, de acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).
Menos poluente, o álcool é um produto que cada vez mais desperta interesse entre os países que estão em busca de redução da emissão de gases nocivos à saúde humana, especialmente com a entrada em vigor do Protocolo de Quioto, em fevereiro de 2005. China e Japão, por exemplo, já manifestaram a intenção de importar álcool. Contudo, fontes do setor também indicam a possibilidade de os empresários japoneses resistirem à entrada de etanol estrangeiro por meio da fabricação local de carros elétricos.
Em viagem marcada para o Japão, em maio próximo, consta da agenda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva o compromisso de divulgar as vantagens do uso do álcool brasileiro. O Brasil quer aproveitar um mercado com demanda potencial de 1,8 bilhão de litros, após a adição de até 3% de álcool à gasolina autorizada em 2003 pelo governo japonês.

Parque industrial está em franco crescimento
A perspectiva promissora do mercado brasileiro do álcool levou as empresas do setor a expandir o parque industrial. Usinas e destilarias estão sendo construídas, ampliadas e modernizadas para atender à demanda crescente do produto.
Nos últimos meses, grupos como Cosan, De Biasi, J. Pessoa, Tavares de Melo, JB e Lasa Agroindustrial, além das companhias Agropecuária CFM, Colombo, Gasa, Petribu, Ipojuca, Olho D'água, Trapiche e Santa Adélia, anunciaram investimentos com o objetivo de expandir as ativida-des no setor. A Copersucar, com a meta de concentrar a comercialização de açúcar e de álcool no atacado, vendeu suas marcas de açúcar para a usina Nova América.
A movimentação registrada pela agroindústria do álcool ilustra a projeção de R$ 2,5 bilhões, em média, em investimentos anuais até 2010, sobretudo no Centro-Sul do País. Dos recursos, a expectativa é de R$ 1,3 bilhão ser consumido na construção de novas usinas com alta tecnologia e capacidade de moagem entre 700 mil e 1,5 milhão de toneladas, de acordo com a ProCana - Informações e Eventos. Outros R$ 900 milhões serão absorvidos em expansão ou reformas das unidades já existentes, além de mais R$ 300 milhões em infra-estrutura.
Fontes do setor indicam que investidores estrangeiros também mostram interesse no mercado nacional de álcool. Eles estão analisando a entrada no Brasil por meio de aquisições ou de construção de novas usinas. Entre eles, estão europeus, asiáticos e americanos. Duas usinas alemãs, Nordzucker e Südzucker, são apontadas como candidatas ao ingresso no mercado brasileiro, que já conta com a presença do capital francês, por meio dos grupos Tereos e Louis Dreyfus.
O agronegócio sucroalcooleiro movimenta cerca de R$ 40 bilhões por ano, envolve mais de 72 mil agri-cultores e gera 3,6 milhões de empregos diretos e indiretos, de acordo com dados da empresa Procana - Informações e Eventos. Existem mais de 300 usinas em atividades, principalmente no Centro-Sul. No setor, predominam as industrializadoras de álcool vinculadas diretamente às usinas de açúcar.
As empresas fornecedoras de máquinas e equipamentos também estão se beneficiando do crescimento do setor. A Dedini Indústrias de Base, por exemplo, anunciou a intenção de investir em uma nova unidade no interior de São Paulo. Com sede em Piracicaba (SP), a empresa possui tecnologia que permite reaproveitamento do bagaço de cana-de-açúcar para elevar a capacidade de produção de etanol, além do uso na atividade de co-geração de energia elétrica e alimentação de animais, principalmente do gado bovino.

GM, 18/04/2005, p. A24 (Panorama Setorial)

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