O Globo, Ciência, p. 26
10 de Abr de 2012
Uma década de extremos
Excesso de calor, frio, chuva e estiagem marca início deste século em todo o mundo
Graça Magalhães-Ruether
ciencia@oglobo.com.br
Correspondente BERLIM
BERLIM - Dois meses antes da Rio+20, cientistas apresentam novas provas de que as mudanças climáticas associadas ao aumento da concentração de gases-estufa na atmosfera já causam impactos em todo o planeta. O estudo se refere à elevação de temperatura registrada nos últimos dez anos e sua relação com extremos climáticos, sejam eles recordes de calor, de frio, e eventos intensos de chuvas e seca. São tragédias climáticas que tiram vidas, contribuem para a propagação de doenças infecciosas, reduzem a oferta de alimentos e dificultam as vidas dos moradores de cidades.
À frente da pesquisa está um dos mais respeitados grupos de climatologia do mundo, liderado por Dim Coumou, do Instituto de Impacto das Mudanças Climáticas de Potsdam, na Alemanha. O estudo foi publicado na conceituada revista científica "Nature Climate Change".
A América do Sul entra na lista dos continentes afetados. Como exemplo de destaque está o Catarina, em março de 2004, o primeiro furacão do Atlântico Sul. Segundo Coumou, se a tendência atual prosseguir, o Brasil terá mais secas e chuvas extremas, como consequência do aumento do desequilíbrio climático.
- A última década foi marcada por extremos climáticos, ondas de calor, frio, seca e de chuva com uma frequência nunca registrada antes. O aumento da ocorrência de extremos climáticos como resultado do aquecimento global já é uma realidade - afirma Coumou.
Indicadores confirmam mudanças climáticas
Coumou prefere evitar a expressão catástrofe climática, e frisa que o processo é muito complexo - envolve fatores sazonais como o El Niño -, mas todos os indicadores confirmam uma relação clara entre aumento das ocorrências extremas e as mudanças climáticas associadas ao aquecimento global.
Vinte anos depois da Rio-92, a primeira grande conferência de cúpula que discutiu as mudanças climáticas, a conclusão de Coumou e de Stefan Rahmstorf, outro autor do artigo, é que há vitórias diplomáticas e poucos ganhos concretos.
"Os anos de 1990 foram os mais quentes do século XX. Desde 1960, 10% do gelo do Ártico derreteu, o nivel do mar subiu no século passado de 10 a 20cm, as chuvas aumentaram em 1% ao ano no Hemisfério Norte, enquanto que diminuíram nas regiões subtropicais da África e da Ásia", diz o estudo. Nesses primeiros anos do século XXI, essa tendência se acentuou e foi registrado um número excepcional de extremos, como ondas de calor e seca na Austrália em 2009; enchentes recordes no Paquistão em 2010, a pior temporada de tornados nos EUA, em 2011. A Europa teve recordes de calor, de chuva e de frio nos anos de 2002, 2003 e 2010. Só em 2011, os EUA amargaram US$ 1 bilhão de prejuízos em 14 desastres climáticos.
Enquanto a China foi castigada por uma forte seca em 2010, recordes de chuvas foram registrados no Japão e na Austrália no mesmo ano. Enquanto isso, a Europa e a América do Norte sofreram com invernos excepcionalmente frios e outros verões de calor escorchante. Há quem imagine que as ondas de frio extremo não estão relacionadas ao aquecimento global, destacam os pesquisadores. Mas eles estão ligados, já que o aquecimento global é sinônimo de desequilíbrio climático, seja ele para o frio ou para o quente.
- Nossos modelos indicam que é muito provável o aumento de épocas com muita chuva, ou, em regiões propensas à estiagem, mais secas - diz Coumou.
O derretimento do gelo nas regiões polares pode causar um outro problema: o aumento do nível do mar. Entre os países vulneráveis estão a Holanda, que poderá ter 6% do seu território inundado, ou Bangladesh, que perderia 18% do território. Igualmente em risco estão alguns países-ilha do Pacífico.
O Globo, 10/04/2012, Ciência, p. 26
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