O Globo, Economia, p. 21
24 de Jan de 2015
Uma conta de R$ 6 bilhões
Possível racionamento teria impacto direto no PIB. Gasto de energia cresceu em 2014
DANILO FARIELLO
danilo.fariello@bsb.oglobo.com.br
BRUNO ROSA
bruno.rosa@oglobo.com.br
BRASÍLIA E RIO - Técnicos do governo chegaram a calcular, no ano passado, qual seria o impacto de um racionamento de energia, indicando um cenário desastroso para a economia do país. Essas contas apontaram um efeito imediato de perda de quase R$ 6 bilhões para a economia, sem considerar os efeitos indiretos. Esse número decorre do cálculo de uma eventual redução de carga na economia nacional, em torno de 10%. A conta é feita todos os anos e, em 2014, foi um dos parâmetros para avaliar a decisão de se adotar um racionamento. O resultado da conta também é importante para decisões de investimentos.
No ano passado, quando o cenário era menos grave do que agora em termos hidrológicos, as contas apresentadas à cúpula do governo colaboraram para a decisão de descartar qualquer possibilidade de racionamento de energia. Nos últimos dias, porém, as projeções de chuvas traçadas pelos técnicos do governo federal, liderados pelo secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência e Tecnologia, Carlos Nobre, eram mais favoráveis para os reservatórios das hidrelétricas, com expectativa de chuvas a curto prazo, o que prorrogaria novas discussões sobre a eventual necessidade de um racionamento.
Atualmente, o nível dos reservatórios das regiões Sudeste e Centro-Oeste está em 17,28%, patamar semelhante ao do Nordeste (de 17,13%). No Sul, é de 66,43%, contra 34,90% no Norte. O ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, disse na quinta-feira que o país pode ter problemas graves se o nível dos reservatórios chegar a 10%. Ricardo Savoia, da consultoria Thymos Energia, ressalta, porém, que 10% é "o limite do limite":
- Se chegarmos com as hidrelétricas a 10%, vamos ter de permanecer com todas as termelétricas por três anos gerando na base do sistema. Assim, teremos um custo adicional entre R$ 20 bilhões e R$ 25 bilhões por ano. Para evitar isso, é preciso chover 85% da média histórica nos próximos meses, mas até agora esse percentual está em 58%.
Nivalde de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), da UFRJ, destacou que o racionamento só será discutido depois de abril, quando termina o período de chuvas. Ou, então, ressaltou, se as hidrelétricas chegarem a 10%. Ele critica a falta de campanhas para uso mais eficiente de energia.
- O governo decidiu fazer usinas sem reservatórios e deixou de lado programas como de energia nuclear. Com o aumento da renda, as políticas sociais dos últimos anos, o consumo de energia residencial aumentou e vai continuar aumentando, porque as pessoas passaram a ter eletrodomésticos, comprados com a maior oferta de crédito. E o governo, ao criar a bandeira tarifária (sistema que eleva a conta de luz de acordo com o nível dos reservatórios), não fez campanha alguma para explicar como funciona. As pessoas vão ter surpresas, agora, quando chegar a conta - critica Castro.
O racionamento também já é esperado por especialistas do setor a partir do segundo semestre. Eles dizem ainda que o país pode sofrer com novos apagões, inclusive fora do horário de pico, se o calor continuar intenso nos próximos meses. Meteorologistas preveem nova onda de calor para fevereiro e março. No início dos últimos três anos, a falta de chuvas no país, alerta o Climatempo, já está pior do que a registrada no mesmo período de 1999, 2000 e 2001 - este, o ano do racionamento.
Marcelo Pinheiro, do Climatempo, afirma que, em 1999 e 2000, as chuvas foram maiores (entre 50mm e 200mm) em relação à média histórica nas regiões Sudeste e Nordeste, permanecendo no mesmo patamar no Norte e Centro-Oeste. Somente no Sul ficaram abaixo. Em 2001, as chuvas ficaram menores (entre 100mm e 200mm) no Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, o que forçou o governo a decretar o racionamento.
- Já em 2013, tivemos chuvas abaixo da média (entre 50mm e 100mm) no Sul, em cidades do Sudeste, do Norte e no Norte do Nordeste. Em 2014, complicou. Só tivemos chuvas acima da média (entre 50mm e 100mm) no Sul e em parte do Norte. E o início de 2015 está parecido com o do ano passado, com chuvas abaixo da média histórica nas regiões Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e Norte - explica Pinheiro, lembrando que, no Sul, apenas Rio Grande do Sul e Santa Catarina estão com chuvas acima do normal.
CAMPANHA DE USO RACIONAL
Outro problema é que, mesmo com o desempenho ruim da economia, o brasileiro vem consumindo cada vez mais energia. E a expectativa é de um consumo ainda maior neste ano. De acordo com a consultoria Excelência Energética, com base em dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o consumo per capita de energia passou de 2.364 quilowatt-hora por habitante (kWh/h), em 2013, para 2.398 kWh/h em 2014, uma alta de 1,43%. Para 2015, projeta-se alta de 2,61%, para 2.461 kWh/h. Segundo especialistas, isso se deve à maior demanda do comércio e das residências, com maior uso de eletrodomésticos - como o ar-condicionado, apontado como o vilão do setor.
- É importante que o governo inicie campanhas de racionalização para obter um consumo mais eficiente de energia. Em 2001, com o racionamento, o brasileiro passou a consumir de modo mais racional, trocando lâmpadas e diversos eletrodomésticos - disse Erik Eduardo Rego, diretor da Excelência Energética.
Savoia, da Thymos, ressalta que o aumento da demanda vem justamente do setor residencial, que teve alta de 6% em 2014, e do comércio, com avanço de 7,5%. Na indústria, houve queda de 2,5%. Por isso, ele reforça que o governo deveria ter adotado alguma política de racionalização já no fim de 2013, quando o nível dos reservatórios se aproximou de níveis críticos. Ele ressalta que, com isso, o governo teria tido perdas menores. A atual crise do setor, com os empréstimos para empresas e gastos com termelétricas, já consumiu cerca de R$ 80 bilhões.
- Hoje o grande problema vem do lado da oferta. Em média, as obras estão atrasadas entre dois e três anos - diz Savoia.
Risco de racionamento deve puxar para baixo as projeções do PIB
ANA PAULA RIBEIRO
ana.ribeiro@sp.oglobo.com.br
Dúvidas sobre fornecimento regular de água e energia a curto prazo podem afetar investimento
A combinação entre o risco de racionamento de energia e os ajustes fiscais do governo federal será danosa para o crescimento da economia. A média das projeções do Produto Interno Bruto (PIB) de 2015, divulgada semanalmente pelo Banco Central no relatório Focus, aponta uma expansão pequena no ano, de apenas 0,38%, mas o viés é de baixa daqui para frente.
- A projeção de um PIB de zero não prevê racionamento de energia. Esse é o grande risco. Se houver racionamento, haverá um custo sobre a atividade a curto prazo - afirmou Ricardo Denadai, economistachefe da Santander Asset Management, lembrando que mesmo a incerteza sobre o racionamento pode adiar investimentos, afetando o PIB de 2015.
No caso, a insegurança quanto à disponibilidade energética pode atrasar a retomada dos investimentos, prevista para o segundo semestre. Se os projetos das empresas demorarem a sair do papel, o PIB será afetado. Segundo Denadai, a água também mexe com a confiança do empresário, mas seria mais difícil medir o impacto da restrição hídrica na economia:
- A energia é mais relevante para o PIB, afeta todos os setores. A água é mais difícil calcular, mas, do ponto de vista do bem-estar do cidadão, a restrição hídrica é mais grave.
Quem já fez uma revisão para baixo foi o banco BNP Paribas. De uma expectativa de zero crescimento, a projeção agora é de retração de 1%. "A política monetária, o aperto fiscal, o racionamento de energia e água e os efeitos dos escândalos de corrupção da Petrobras são os elementos que puxam o crescimento de 2015 para o território negativo", diz relatório divulgado ontem.
Para os economistas do banco francês, o racionamento é um perigo cada vez mais constante. No caso da água, afirmam que isso isso já ocorre no Sudeste, como em São Paulo. Já o racionamento de energia é visto como cada vez mais provável devido "ao baixo nível de chuva e mau planejamento".
O economista-chefe do BES Investimentos, Jankiel Santos, tem a mesma avaliação. Ele prevê crescimento do PIB de 0,4% em 2015, mas fará uma revisão em breve:
- Para investir, é preciso ter certeza da disponibilidade de energia. Pesa negativamente essa dúvida no ar.
O estrategista do Mizuho Bank, Luciano Rostagno, lembrou ainda que 2015 será um ano de colocar as contas do país em ordem. Embora as medidas anunciadas pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tenham um efeito positivo a longo prazo, passando do incentivo ao consumo para o investimento, a curto prazo o crescimento será menor.
Escassez de energia põe em xeque arrecadação do governo federal
Queda das receitas pode dificultar recuperação das contas públicas
GABRIELA VALENTE
valente@ bsb.oglobo.com.br
DANILO FARIELLO
danilo.fariello@bsb.oglobo.com.br
A escassez de energia elétrica no país pode ameaçar o esforço da nova equipe econômica do governo Dilma Rousseff para trazer credibilidade às contas públicas. Além de afetar perspectivas relativas ao crescimento do país e à alta da inflação, um racionamento de energia neste ano frustraria, ainda, as expectativas de arrecadação. Uma queda nas receitas atrapalharia o plano de recuperar a credibilidade das contas públicas - uma prioridade do time do ministro da Fazenda, Joaquim Levy.
Mas a preocupação fiscal não é novidade entre os técnicos do governo. Em maio de 2001, pouco antes do único racionamento nacional, o Banco Central (BC) discutia qual seria o impacto dos cortes de luz na economia. Num documento usado na reunião do Comitê de Política Monetária ( Copom) - à época sigiloso, mas hoje aberto pela Lei de Acesso à Informação -, o departamento técnico do BC alertava que o setor público perderia R$ 2,3 bilhões em arrecadação devido à falta de energia. Isso porque esperava uma queda de até 2,3 pontos percentuais na estimativa de crescimento, além de 0,15 ponto percentual de alta na inflação. O cenário posterior confirmou as previsões do Copom no crescimento e no resultado fiscal.
O ex-diretor do BC e economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas, lembra que, quanto mais fraca a atividade, menos o governo arrecada, porque as empresas lucram menos. Mas ele ressalta que Levy "esbanja" credibilidade e deve conseguir financiamento para a União, em um cenário de frustração de arredação.
Como efeito fiscal do racionamento, o Comitê de Gestão da Crise implementado pelo governo federal também criou um novo tributo, que ficou conhecido como "seguro apagão". Esse Encargo de Capacidade Emergencial ( ECE) foi cobrado de todas as contas de luz do país durante três anos, arrecadando R$ 6 bilhões para pagar a instalação de um parque termelétrico.
O Globo, 24/01/2015, Economia, p. 21
http://oglobo.globo.com/economia/brasil-perderia-6-bilhoes-com-racionam…
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