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Uma bioeconomia indígena cria raízes na Amazônia brasileira

WRI - https://www.wribrasil.org.br/noticias/uma-bioeconomia-indigena-cria-raizes-na-amazonia-brasile
Autor: Francisco Apurinã; Henrique Roncada; Juliana Brandão; Rafael Feltran-Barbieri; Joana Oliveira etal
26 de Jan de 2025

Uma bioeconomia indígena cria raízes na Amazônia brasileira

Por Francisco Apurinã, Henrique Roncada, Juliana Brandão, Rafael Feltran-Barbieri, Joana Oliveira, Joaquin Carrizosa, Celine Novenario e Alex Simpkins Foto: All Media Vagalume/WRI Brasil

26 Jan 2026

No sul da Amazônia brasileira, coletores de sementes procuram cuidadosamente pelo chão da floresta. Eles se deslocam entre as árvores, atentos para não causar danos às plantas ao redor quando se abaixam para recolher sementes nativas do solo e de frutos caídos.

Eles fazem parte da Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX), uma associação do Mato Grosso que reúne cerca de 700 coletores de sementes amazônicas. Criada em 2007 pelo Instituto Socioambiental (ISA) e por lideranças indígenas, a rede ajuda habitantes locais a venderem sementes para organizações e proprietários de terras,que as utilizam em projetos de restauração florestal.

Até agora, quase mil famílias de mais de 100 aldeias indígenas e comunidades locais participaram da iniciativa. Elas coletaram sementes de mais de 220 espécies, geraram mais de R$ 8,5 milhões em renda e contribuíram para a restauração de 27 milhões de árvores em 11 mil hectares de áreas anteriormente degradadas. Mais de 390 toneladas métricas de sementes nativas já foram vendidas, um recorde sem precedentes na Amazônia.

Trata-se de um exemplo emblemático de como uma "bioeconomia indígena" -desenvolvida e mantida por povos indígenas e comunidades tradicionais da Amazônia - pode gerar oportunidades econômicas e, ao mesmo tempo, preservar a diversidade biológica, cultural e social.

"[A ARSX] mostrou ao Brasil e ao mundo que é possível valorizar a floresta em pé", afirma Rodrigo Junqueira, secretário-executivo do ISA. "[Ela] demonstrou que é possível precificar sementes e desenvolver uma economia em torno delas sem excluir pessoas ou atores do processo", acrescenta.
Quem são os povos indígenas e comunidades tradicionais

Povos indígenas são grupos étnicos com uma história de ocupação nas Américas que remonta a aproximadamente 10 mil a 15 mil anos. Eles possuem suas próprias línguas, sistemas políticos e de governança, estruturas de justiça e abordagens distintas de gestão e cuidado territorial.

Conforme reconhecido pela legislação brasileira, povos tradicionais se identificam como grupos culturalmente distintos. Eles mantêm modos de vida intimamente ligados à natureza e à sua própria organização social e utilizam conhecimentos, inovações e práticas transmitidos de geração em geração. Entre eles, estão os quilombolas, comunidades afro-brasileiras tradicionais formadas por populações negras rurais com trajetórias históricas próprias, relações territoriais específicas e ancestralidade negra ligada ao período da escravidão; e os ribeirinhos, comunidades tradicionais ribeirinhas, especialmente na Amazônia, cujos modos de vida estão profundamente conectados ao rio e à floresta ao redor.
Uma bioeconomia indígena para a Amazônia

À medida que o desmatamento e a degradação na Amazônia chamam cada vez mais atenção no mundo, aumenta o interesse em construir uma bioeconomia liderada por povos indígenas. Cerca de 2,7 milhões de indígenas vivem na Amazônia. Pesquisas mostram que esses povos são guardiões importantes para os territórios onde vivem, com taxas de perda florestal 30 vezes menores do que em áreas florestais semelhantes administradas por outros grupos.

A bioeconomia é um conceito com definições diferentes e, muitas vezes, contestadas, refletindo diferentes prioridades econômicas e políticas. Nesse contexto, a bioeconomia indígena oferece um modelo distinto para a Amazônia - baseado na governança indígena e em conhecimentos ancestrais, capaz de gerar renda mantendo a floresta em pé.
Mulher indígena Tikuna corta castanhas-do-pará no mercado Tikuna em Tabatinga, na Amazônia brasileira. (Foto: All Media Vagalume/WRI Brasil)

Em vez de tratar a natureza como uma mercadoria, a bioeconomia indígena reconhece a interdependência entre terra, pessoas, animais, plantas e ecossistemas. Prioriza uma produção diversa, baseada na floresta, que sustenta meios de vida e protege a biodiversidade. As atividades econômicas se alinham aos ritmos naturais da floresta - e não o contrário -, e a governança territorial é fortalecida para manter a integridade ecológica das terras indígenas.

"Uma verdadeira bioeconomia pressupõe diversidade, reconhecimento e valorização dos povos que a detêm e a sustentam", afirma Junqueira, observando que as abordagens indígenas evitam a replicação de modelos extrativistas que concentram renda e excluem comunidades florestais.

Dados do relatório Nova Economia da Amazônia, do WRI, mostram que seguir uma trajetória sem desmatamento e de baixo carbono pode criar 312 mil empregos na região até 2050 e, a partir desse ano, aumentar o PIB anual da Amazônia brasileira em pelo menos R$ 40 bilhões de reais. Também poderia contribuir com cerca de R$ 226 bilhões de reais para o PIB total do Brasil. Além disso, investir na bioeconomia indígena também pode gerar valor a longo prazo, desde serviços ecossistêmicos em múltiplos setores tradicionais até a segurança alimentar para povos indígenas e tradicionais. Por fim, pode, ainda, ajudar a enfrentar a exclusão sistêmica e fortalecer a liderança indígena e sua autoridade sobre a governança territorial.
O artesanato também impulsiona a bioeconomia indígena. Na foto, peças feitas com materiais locais e vendidas no mercado Tikuna, em Tabatinga. (Foto: All Media Vagalume/WRI Brasil)
Os quatro pilares de uma bioeconomia indígena

Pesquisas emergentes e iniciativas bem-sucedidas como a ARSX apontam para quatro pilares essenciais para a bioeconomia indígena. Esses elementos não apenas a diferenciam das indústrias florestais convencionais, como são fundamentais para garantir uma bioeconomia capaz de gerar benefícios para as pessoas, a natureza e o clima. Ancorados na justiça climática, esses quatro pilares ajudam a combater desigualdades históricas e estruturais ao assegurar aos povos indígenas e tradicionais o poder de decisão, a posse de suas terras e a participação justa em atividades econômicas sustentáveis.
Reciprocidade: produção que valoriza os ecossistemas

O desmatamento de áreas florestais para lavouras, pecuária, exploração madeireira ou mineração dominou por muito tempo a economia amazônica. Esse modelo prioriza a produção, degrada florestas e terras e exclui as pessoas que dependem delas para sobreviver. Em contraste, a ideia de reciprocidade é um elemento-chave da bioeconomia indígena, a partir da qual produção, troca e comércio sustentam tanto as pessoas quanto a floresta, incluindo animais, plantas, rios e outras partes do ecossistema. O benefício coletivo prevalece sobre o lucro individual, com renda gerada a partir de atividades que mantêm a biodiversidade e a cobertura florestal.

Na bacia do rio Xingu, no sul da Amazônia, por exemplo, os coletores Ikpeng nunca recolhem todas as sementes que encontram ao longo das trilhas, pois sabem que algumas precisam permanecer ali para permitir que as árvores cresçam e produzam novas sementes para as gerações futuras.

Da mesma forma, as comunidades Baniwa produzem peças de artesanato tradicional, de cerâmicas a cestos trançados, utilizando materiais coletados de forma sustentável e técnicas que preservam a floresta ao seguir os ciclos sazonais e a disponibilidade de materiais. Dessa forma, garantem seus meios de subsistência sem degradar a floresta. Esse tipo de conhecimento ancestral sobre espécies nativas e suas sazonalidades ajuda a manter a extração sustentável na Amazônia.
Redistribuição: circular benefícios em vez de concentrá-los

Historicamente, a riqueza gerada a partir de recursos naturais na Amazônia sempre deixou a região, que permanecia apenas com os danos ambientais e sociais. A produção de soja como monocultura em larga escala, por exemplo, provocou o desaparecimento de espécies vegetais que funcionavam como medicamentos e alimentos básicos para povos indígenas.

Na bioeconomia indígena, redistribuição significa que os recursos e benefícios são compartilhados de forma justa, garantindo que os ganhos econômicos circulem de maneira equitativa, em vez de permanecerem concentrados. Isso ajuda a promover estabilidade econômica local, coesão social e solidariedade. Também fortalece o bem-estar coletivo, não apenas das pessoas, mas dos "mais-do-que-humanos" - termo que reflete a visão indígena de que os seres humanos não estão no topo de uma hierarquia, e sim fazem parte de uma profunda interconexão com outros seres, ligada a crenças espirituais sobre a natureza, ancestrais e lugares sagrados.

Essa redistribuição de benefícios pode se concretizar por meio de iniciativas como bancos comunitários de sementes, que promovem o compartilhamento de recursos em vez de sua concentração. Ao trocar sementes com outras comunidades, esses bancos ajudam a restaurar espécies que desapareceram em alguns territórios, utilizando sementes de áreas onde elas ainda prosperam.
Reconhecimento: centralidade da governança indígena e de seus direitos territoriais

A bioeconomia indígena é inseparável do ecossistema florestal e da expertise indígena. Ela coloca o conhecimento ancestral no centro da produção sustentável, ao mesmo tempo em que trabalha em conjunto com a ciência moderna para ajudar as comunidades a gerir recursos naturais e desenvolver novos produtos e serviços.

No centro dessa abordagem está o reconhecimento: povos indígenas e tradicionais precisam ter seus direitos territoriais assegurados, autoridade para decidir como administrar recursos, conhecimentos, propriedade intelectual e dados, bem como sobre de que forma o valor é criado e compartilhado, com base no consentimento livre, prévio e embasado. Sem esse reconhecimento, as comunidades permanecem vulneráveis à apropriação de suas práticas e inovações à medida que atividades econômicas se desenvolvem em seus territórios.

"Sem território, não há bioeconomia", disse Junqueira. Isso ocorre porque, sem o reconhecimento da terra e autoridade de governança, populações indígenas enfrentam exploração madeireira, grilagem e restrições que as impedem de gerir a floresta que protegem. Práticas lideradas pelas comunidades, como a extração seletiva, não conseguem moldar mercados ou sistemas produtivos sem direitos garantidos e poder de decisão.

A pimenta jiquitaia, colhida e comercializada por mulheres indígenas Baniwa no Alto Rio Negro, no nordeste da Amazônia, mostra como o reconhecimento se manifesta na prática. Produzida com base em conhecimentos tradicionais e métodos de colheita desenvolvidos ao longo de gerações, a pimenta é comercializada de acordo com as práticas das próprias mulheres Baniwa, garantindo autoridade indígena sobre como o produto é administrado, valorizado e levado ao mercado. Trata-se de uma referência de conexão entre o cuidado tradicional e oportunidades de mercado, preservando a floresta e reforçando o controle indígena sobre a terra, o conhecimento e a criação de valor.
Respeito: produção que honra cultura, conhecimento e patrimônio

O respeito aos povos indígenas, suas práticas, terras sagradas e crenças espirituais é essencial, pois a bioeconomia indígena exige a aceitação de modelos econômicos e definições que vão além de um sistema basicamente capitalista ou de mercado. Nessa abordagem, produtos e serviços não são um fim em si, mas um meio de proteger modos de vida, sistemas de conhecimento e patrimônios culturais.

O respeito se expressa de forma clara nos sistemas alimentares indígenas, que conectam conservação florestal, meios de vida e bem-estar coletivo. Mudanças climáticas, desmatamento e pressões de mercado estão desestruturando esses sistemas, contribuindo para a perda de alimentos tradicionais indígenas, o consumo de ultraprocessados e o aumento da desnutrição e da insegurança alimentar. Ao apoiar meios de vida baseados na floresta, agroflorestas, pesca e cadeias de valor locais baseadas em conhecimentos ancestrais, a bioeconomia indígena ajuda a restaurar o acesso a alimentos nutritivos e culturalmente adequados e, ao mesmo tempo, gerar renda sem perda florestal. Práticas de extração sustentável também protegem construções monumentais antigas (geoglifos) e sítios naturais sagrados (kymyrury), ao contrário da abertura em larga escala de áreas para agricultura e pecuária.
Alimentos de um mercado amazônico em Tabatinga, com itens básicos do cotidiano alimentar local, como farinha de mandioca, tapioca, bananas e alho. (Foto: All Media Vagalume/WRI Brasil)

A ênfase recai menos sobre o produto ou serviço e mais sobre o processo de como eles são produzidos ou oferecidos e para quem. O processo é valorizado porque integra conhecimentos ancestrais, práticas comunitárias, tecnologias e formas diversas de produzir e compartilhar recursos. Manter a conexão entre o modo de fazer e suas consequências para a divisão social do trabalho é o que torna a produção significativa.
Um caminho para a bioeconomia indígena

Na Amazônia, onde desigualdades sociais e pressões ambientais criam desafios complexos para o desenvolvimento sustentável, a bioeconomia indígena oferece um caminho viável.

Baseada na reciprocidade, na redistribuição, no reconhecimento e no respeito, trata-se de uma abordagem que associa oportunidades econômicas ao cuidado territorial e ao compromisso com o bem-estar coletivo. Ela ajuda a manter a riqueza dentro das comunidades amazônicas e desafia modelos extrativistas dominantes que excluem as vozes locais.
Mulher indígena Tikuna utiliza um cesto trançado para peneirar farinha de mandioca, deixando-a pronta para venda em um mercado local da Amazônia brasileira. (Foto: All Media Vagalume/WRI Brasil)

Ao mesmo tempo, a bioeconomia indígena opera em um contexto moldado por diferentes desafios simultâneos, incluindo:

Visões conflitantes entre a produção comercial e os sistemas produtivos indígenas.
Barreiras linguísticas e culturais para acessar financiamento e mercados.
Diferentes entendimentos sobre investimento e sustentabilidade.
Possíveis mudanças socioeconômicas decorrentes de atividades comerciais.
Falta de infraestrutura e conectividade compatíveis com atividades da bioeconomia indígena em algumas regiões da Amazônia.
Incentivos econômicos públicos e privados para atividades extrativistas dentro de territórios indígenas, que podem dificultar o desenvolvimento de atividades econômicas alternativas.

Em conjunto, esses fatores podem restringir iniciativas econômicas lideradas por indígenas e afetar a forma como os benefícios são distribuídos.

À medida que a bioeconomia indígena evolui, é fundamental torná-la inclusiva. Isso significa incentivar que lideranças e pesquisadores indígenas conduzam iniciativas de bioeconomia, promover mais pesquisas lideradas por indígenas e integrar conhecimentos ancestrais indígenas à ciência acadêmica. Fortalecer redes para defender e influenciar políticas públicas que apoiem uma bioeconomia indígena também é essencial, assim como investir nas pessoas, ajudando a desenvolver suas competências e a proteger seus direitos territoriais.

"Nenhuma bioeconomia ou esforço de restauração de ecossistemas pode ter sucesso sem a inclusão genuína das pessoas", afirma Junqueira. "Se as pessoas envolvidas não se sentirem parte do processo, as chances de sucesso são mínimas."

Para construir uma bioeconomia que apoie o desenvolvimento sustentável, fortaleça economias locais, promova igualdade social e proteja a biodiversidade, a inclusão não é opcional - é fundamental.
Esforços para avançar a bioeconomia e os direitos das comunidades amazônicas

A bioeconomia indígena faz parte de um movimento mais amplo em direção a agendas de bioeconomia, que incluem o fortalecimento dos direitos dos povos indígenas, povos afrodescendentes e comunidades tradicionais em toda a Pan-Amazônia. A iniciativa Bioeconomy Challenge, por exemplo, busca apoiar a implementação de soluções de bioeconomia e atrair investimentos para o setor, colocando em prática os dez Princípios de Alto Nível sobre Bioeconomia estabelecidos pela Iniciativa do G20 sobre Bioeconomia (GIB) em 2024, além de reconhecer os povos indígenas como titulares de direitos e atores econômicos centrais.

O WRI avança a agenda da bioeconomia por meio de pesquisa aplicada e colaboração com parceiros indígenas. Entre as principais iniciativas, estão um estudo em conjunto com Uma Concertação pela Amazônia, sobre modelos de bioeconomia indígena. O WRI também foi coautor de um policy brief publicado para a reunião do G20 de 2024, em parceria com os pesquisadores indígenas Braulina Baniwa e Francisco Apurinã. Além de liderar um grupo de trabalho de sociobioeconomia dentro do Bioeconomy Challenge, o WRI atua na direção conjunta da Rede Pan-Amazônica de Bioeconomia, uma aliança multissetorial que promove o desenvolvimento da bioeconomia com base em princípios inspirados nos povos indígenas e nas comunidades locais.

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