O Globo, Rio, p. 14
05 de Fev de 2005
Uma amostra do que era a Baía há 500 anos
Trecho de manguezal com 20 quilômetros quadrados, sem ocupação humana, poderá virar estação ecológica
Um pedaço de manguezal é o único vestígio do cenário encontrado por Américo Vespúcio em 1502, quando o cartógrafo descortinou pela primeira vez as belezas da Baía de Guanabara. São cerca de 20 quilômetros quadrados de verde contínuo, por onde serpenteiam alguns dos raros rios ainda não degradados da região. Os mangues molham folhas e raízes na água salgada numa extensão de cerca de seis quilômetros, correspondente a apenas 5% do perímetro total da baía. O Ibama do Rio quer transformar o resto de paraíso em estação ecológica (Esec) - modalidade de proteção integral que impede até a presença humana sem autorização - antes que a degradação avance pela área.
A estação abrangeria a área de 20 quilômetros quadrados, que fica dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) de Guapimirim. Na antiga unidade, sem tanta proteção, sobrevivem, muitas vezes em más condições ambientais, quase todos os 80 quilômetros quadrados de manguezal remanescentes do período primitivo - 68% sucumbiram à degradação.
Região serve de abrigo para 150 espécies de aves
O chefe da APA de Guapimirim, Breno Herrera, pretende convencer técnicos do Ibama em Brasília com dados sobre a riqueza da região: além das três espécies de mangue - vermelho, branco e preto - que chegam a 15 metros de altura, a região abriga cerca de 150 espécies de aves e uma fauna rica, que inclui jacarés e até capivaras, entre as quais a que viveu uns tempos na Lagoa Rodrigo de Freitas:
- Estamos elaborando pareceres científicos para mostrar a importância do local. É a única região da baía sem qualquer ocupação humana e com mangue contínuo, que mantém características semelhantes às encontradas pelo colonizador. Por isso, daremos à unidade o nome de Esec Guanabara.
O presidente do Ibama, Marcus Barros, esteve na reunião em que a proposta de criação foi apresentada e teria anunciado apoio à iniciativa.
Na quinta-feira, especialistas de várias universidades fizeram coletas na área para dar respaldo científico à proposta. Na ocasião, surgiu ainda a idéia de uma versão ampliada da Esec, com o perímetro de dez quilômetros, que iria da Ilha de Itaoca ao Rio Suruí. Pela proposta atual, os limites da unidade são as margens esquerda do Rio Guaxindiba e direita do Rio Guaraí. Breno espera que a estação seja inaugurada no Dia Nacional do Meio Ambiente, em 5 de junho.
Catadores de caranguejo apóiam a proposta
Os catadores de caranguejo da distante Travessa Iamagata, em Itambi, distrito de Itaboraí, perderão a área de trabalho se a unidade for criada, mas parecem gostar da preservação. José Maria da Silva, de 61 anos, não acha que haverá problemas com a restrição:
- Sempre deu caranguejo. Quando esse mangue fechar, vai dar em outro lugar - diz.
Breno explica que catadores não terão problema porque a criação de uma zona onde não é permitida a presença humana gera um aumento da diversidade no entorno.
A degradação da bacia da Baía de Guanabara explica a proteção do manguezal. A metade dos 4,5 mil quilômetros quadrados recheados por diversos e ricos ecossistemas nos tempos de Vespúcio foi destruída pelo homem.
Inventário feito pelo geólogo Elmo Amador mostra que, dos tempos primitivos, restam na bacia apenas 31% de alagados brejos e pântanos, 37% de Mata Atlântica, 18% dos canais fluviais e 21% de restingas e dunas. No espelho d'água da Baía de Guanabara, simplesmente desapareceram 61 das 188 ilhas; das 24 enseadas, sobraram quatro, em condições quase sempre precárias. E pelo menos duas lagoas vistas por colonizadores desapareceram.
Segunda fase ainda é dúvida
Estado garante que concluirá primeira etapa até 2006
A conclusão das obras da primeira fase do Programa de Despoluição da Baía de Guanabara financiadas pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) está prevista para julho. Já os contratos do Banco Japonês para Cooperação Internacional (JBIC) expiram em 25 de dezembro do ano que vem.
Como a primeira etapa do programa previa o tratamento de 58% de todo o esgoto jogado na Baía de Guanabara (cerca de 20 mil litros por segundo), e em dez anos o estado conseguiu chegar a apenas 25%, ele tem apenas dois anos para tratar os outros 33%.
As obras nas oito estações de tratamento de esgoto que integram o projeto já estão concluídas, mas a implantação de troncos coletores e redes não seguiu o mesmo ritmo. No sistema Alegria, no Caju, por exemplo, a maior estação do programa, ainda faltam cerca de 60% de rede. Em Pavuna, restam 80%.
O problema se torna mais complexo porque o estado já gastou 90% do financiamento externo e boa parte das obras terá de ser feita com recursos próprios. O secretário estadual de Meio Ambiente, Luiz Paulo Conde, diz que o governo cumprirá os prazos acertados com o BID e o JBIC e iniciará a segunda etapa antes da conclusão da primeira fase:
- Já está tudo acertado para iniciarmos a segunda fase. Temos o compromisso do BID.
O BID e o JBIC, no entanto, informaram ao GLOBO que até o momento não há qualquer documento assinado em relação à segunda fase do programa de despoluição. Os japoneses foram além: não vão discutir a segunda etapa antes de o estado concluir a primeira.
Na carta consulta enviada em março de 2002 à Comissão de Financiamentos Externos (Cofiex), o estado prevê um orçamento de US$402 milhões (cerca de R$1 bilhão) para a segunda etapa do programa. Como acontece na primeira etapa, a maior parte dos investimentos seria destinada a obras de saneamento (esgoto e água). Seriam implantados cerca de 3.300 quilômetros de rede e 12 estações de tratamento de esgoto.
O Globo, 05/02/2005, Rio, p. 14
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