O Globo, Segundo Caderno, p. 2
Autor: FAUSTINI, Marcus
03 de Fev de 2015
Um viva ao volume morto!
O volume morto não é fruto de um desarrumo da natureza, ou sua vingança, é um problema das grandes cidades
Marcus Faustini
O uso do volume morto da água de reservatórios, na crise de abastecimento de regiões metropolitanas, não pode ser visto como um imprevisto no caminho, um acidente de percurso, atribuído, como numa fábula, ao infortúnio de uma natureza que não se comporta mais como uma linha de produção que nos acostumamos a pensar ser. O volume morto não é fruto de um desarrumo da natureza, ou sua vingança, é um problema das grandes cidades.
A chegada ao campo cognitivo cotidiano, ao debate público de bares, posts, memes e jornais, do termo "volume morto" - transpondo o mundo técnico hídrico - pode ser uma boa contribuição ao modo de percepção das questões urbanas. Vale, antes, o reconhecimento da importância, capacidade e relevância das estratégias de abastecimento: Ufa! Ainda bem que temos o volume morto para segurar o trampo, enquanto recorremos aos deuses e buscamos saídas de emergência! Porém, basta um rápido passeio pela web que descobrimos o volume morto como uma reserva técnica que nunca deveria ser usada, por estar poluída e ser a última fronteira de represas rumo à diminuição do volume dos rios.
O volume morto não é o fim, é depois do fim. Não é o sinal vermelho, é atravessar várias vezes o cruzamento com o sinal desligado. Além dele, a ideia de cidade como previsibilidade desaparece. E podemos começar uma batalha interminável entre estados para o uso de bacias. Como possibilidade, o debate, o humor, os usos superficiais, técnicos ou de profundidade filosófica em torno do volume morto no espaço público podem ser uma oportunidade pedagógica, mesmo dispersa, de acúmulo necessário, para questões de direito à cidade e vida sustentável ganharem mais força diante de governos e forças sociais. Duas posturas são necessárias para isso, possíveis de ser apreendidas no "verão do volume morto":
1. Ao mesmo tempo em que se marcam com pressão e responsabilização governos e gestões nesta situação, é necessário não aceitar o discurso do "comigo no governo seria diferente" - aquele que pretende apenas acumular forças e adiantar processos eleitorais, diante de qualquer assunto. É preciso mudar o modelo que hoje desperdiça e distribui com desigualdade.
2. Transparência máxima na gestão das águas urbanas e participação comunitária, regional, territorial na busca de soluções imediatas e na construção de outros modelos de uso da água.
No segundo ponto, temos um impasse central que se aplica a outros debates travados no país. A ideia de participação comunitária para a busca de soluções discutidas em grupos de participação é combatida no campo da opinião pública como algo ineficaz e demasiado esquerdista. Chega a ser ingênua, como alternativa, a crença de que campanhas de conscientização são suficientes para mudar hábitos. Ninguém muda de hábito sem decidir junto a mudança e sem participar dos pactos diante dos conflitos. Cada vez mais, caberá a nós, cidadãos, a tarefa de encontrar soluções locais para contradições globais - como aponta Bauman em "Confiança e medo nas cidades" (vale ler!). Para isso, as estruturas de governos precisam ser transparentes e porosas à participação.
Permitindo uma breve digressão, já que falei de fábula no começo da coluna de hoje, recorro aqui à história da "Cigarra e a formiga" para iluminar os caminhos desse pensamento.
Fizemos um uso rebelde dessa fábula. Ao menos na minha geração, defender a cigarra era senha para ser reconhecido como alguém aberto, contra a militarização da vida e entrega em excesso aos rigores do mundo do trabalho, sem prazer. Como se a cigarra fosse a profunda, como se cantar fosse apenas um dom natural. Ficamos acostumados a desprezar a formiga e a fazer ode à cigarra, dizendo que ela, sim, sabia levar a vida. Entretanto, em minha primeira viagem a Nova Iorque (gosto de escrever assim) para participar de um encontro sobre cultura e saúde das cidades na Universidade de Columbia, em dezembro de 2013, vi neve pela primeira vez. As idas à Europa, por conta do trabalho com jovens artistas e imigrantes de lá ainda não haviam me favorecido essa possibilidade. Foi pela noite, caminhando em direção à 44th Street. Ali, entendi o quanto a formiga também sabia levar a vida. Ao ver o volume de neve, entendi que a formiga não conseguiria atravessar para fazer qualquer busca de alimento escasso. Por isso, era importante estocar, prever, repensar, e no inverno poder cantar. E, na minha versão, ela fez isso com a participação de várias outras formigas e não apenas respondendo ao comando da rainha.
Foi uma conversa com o incansável Felipe Altenfelder (FDE) que instaurou duas imagens que me mobilizaram para a questão. Imaginamos um mundo pós-volume morto. Domésticas em longas filas de supermercado e até disputando água com moradores de rua em raras bicas públicas à espera de água para a casa dos patrões. Carros-pipas escoltados pelo Exército para levar água a hospitais, escolas estariam fechadas.
Escritores de ficção-catástrofre, mãos à obra - no teclado, melhor dizendo.
O Globo, 03/02/2015, Segundo Caderno, p. 2
http://oglobo.globo.com/cultura/um-viva-ao-volume-morto-15222629
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