O Globo, Especial, p. 4
19 de Jun de 2012
Um teste de resistência diplomática
Negociações em busca de um mínimo denominador comum são marcadas por uma maratona de discussões a porta fechada que muitas vezes degringola para o bate-boca
Eliane Oliveira, Liana Melo e
Renata Malkes
economia@oglobo.com.br
Basta um olhar mais atento para captar os sinais de cansaço e preocupação no rosto de muitos daqueles que entram e saem do Pavilhão 5 do Riocentro, transformado na arena de batalhas onde representantes de 193 países tentam chegar a um mínimo denominador comum sobre o futuro do planeta. Em público, os negociadores encarregados de debater o texto final da Rio+20 mantêm a fleuma. Mas é nas intermináveis reuniões a portas fechadas que os diplomatas vivem um presente que ninguém quer: passam fome, não bebem água, batem boca e muitos abusam de capacidades retóricas de teor duvidoso para conseguir seus objetivos finais.
- Está difícil -- desabafou um diplomata árabe numa rápida fuga para o café.
- Parece que estamos no Oriente Médio. Há mais opiniões que delegados.
É esse o clima predominante dos debates. Os diplomatas canadenses e americanos, por exemplo, levaram à exaustão os representantes do G-77, o bloco composto por 130 países em desenvolvimento, até que o Brasil retirasse do documento a proposta de criação de um fundo de US$ 30 bilhões anuais para financiar iniciativas de desenvolvimento sustentável pelo mundo.
Os canadenses, principalmente, fingiam ignorar o assunto.
Sempre que a questão vinha à tona, faziam, sem constrangimento, a pergunta mortal: - Do que é que vocês estão falando? À medida que o cansaço aumenta, a finesse diminui. Na última quarta-feira, quando a pergunta foi feita pela enésima vez, delegados do G-77 se rebelaram.
Aos berros, tentaram invadir a sala onde transcorria uma das reuniões. Diplomatas presentes ao encontro garantem que a confusão foi grande. E com direito a corre-corre. As táticas para vencer a guerra de nervos envolvem atitudes quase camicases.
- Alguns diplomatas têm uma resistência invejável, não se levantam da mesa de negociação de jeito nenhum. Esses ganham pela exaustão - contou um dos negociadores.
Algumas brigas têm fundo conceitual. Outras são motivadas por questões semânticas.
Meras vírgulas e travessões viram armas. Hora marcada? Há somente para entrar.
- Não há tempo estipulado. É cansativo e, às vezes, podem-se perder horas em um único parágrafo -- explicou um alto negociador europeu ao GLOBO.
Até negociador do Vaticano perde a paciência
A lentidão é marca registrada na discussão sobre o fim dos combustíveis fósseis. Mas, nesse caso, são os negociadores do G-77 que dão o troco, inviabilizando os debates com posições terminantemente contrárias.
- Os diplomatas brasileiros destoam. São os mais neutros de todos, talvez por serem do país anfitrião -- revelou outra fonte.
Se o corpo diplomático do Brasil conseguiu manter sua santa paciência até aqui, o mesmo não se pode dizer de uma nação europeia pequenina no tamanho, mas grande na influência: o Vaticano. Os delegados da Santa Sé expressaram sua forte oposição a que a Organização Mundial da Saúde ficasse à frente do artigo sobre Sexualidade reprodutiva.
Em meio ao clima cinzento, os negociadores têm recorrido ao que chamam de linha vermelha, ou limite de até onde podem ir num debate. A tal linha é sempre levantada como argumento definitivo para justificar posições inflexíveis. Na Rio+20, a linha se transformou em muralha.
O Globo, 19/06/2012, Especial, p. 4
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