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Um terço da Amazônia pode ser devastado em 20 anos

Página 20-Rio Branco-AC
Autor: JURACY XANGAI
31 de Ago de 2003

Cientista Daniel Nepstad adverte sobre o atual sistema de desmatamento e manejos madeireiros

Acompanhando a exploração florestal que vem sendo realizada no trecho de mil quilômetros entre Cuiabá (MT) e Santarém (PA), o cientista Daniel Nepstad, do Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (IPAM), adverte que, a ser mantido o atual sistema de desmatamento e manejos madeireiros que só existem no papel, em 20 anos um terço (33%) da Amazônia estará devastado. Ele aponta que há dez anos havia duas serrarias na área de Altamira, no sul do Pará, e agora existem 102.

Nepstad olha com simpatia e esperança para as Reservas Extrativistas e as propostas de manejo florestal que vêm sendo elaboradas e começam a ser executadas no Acre. "Aqui, as pessoas estão mostrando que fizeram uma opção de defender a floresta e conseguir extrair dela os recursos de que necessitam para seu desenvolvimento, sem que nesse processo causem a devastação total dos recursos. Isso é muito bom", observa.

Contudo, ele adverte que a realidade pode ser bem mais forte que a convicção ideológica das pessoas. Isto porque os estoques florestais de madeira do Mato Grosso, Pará e Rondônia já estão se esgotando e quando isso acontecer as grandes madeireiras vão se deslocar para o Acre, exercendo pressão através do poder econômico.

"O Estado e a própria população precisam estar conscientes e preparados para conviver com essa situação. Na verdade, o Acre ainda está escapando dessa pressão porque ainda tem estado distante dos centros de consumo, mas com a abertura das BRs em direção ao Pacífico e também para Cruzeiro do Sul, ela virá naturalmente", adverte.

A solução para isso, propõe Nepstad, é formalizar leis que só permitam a retirada de madeira manejada. Isto porque, na prática, mesmo no Acre, hoje apenas 5% da madeira industrializada sai das áreas de manejo. O restante vem dos desmatamentos ou corte seletivo clandestino.

Ele reconhece que o custo de elaboração de um projeto de manejo, bem como sua execução, encarece a exploração dos produtos florestais e é justamente a facilidade com que se conseguem autorizações de desmate, bem como para a retirada da madeira dessas áreas, que acaba desestimulando as madeireiras de aderirem ao manejamento.

Capacitação para melhorar renda do produtor

Melhorar a renda do produtor através de sua capacitação a fim de que possa negociar a preços mais vantajosos a madeira que será retirada de suas terras é ponto central da proposta de manejo. Exemplo prático disso está acontecendo na localidade de Bel Terra, no Pará, onde parceria feita com oito comunidades rurais que agregam 800 famílias garantiu a cada uma delas um recurso de R$ 6 mil, utilizado para intensificar as atividades econômicas florestais.

O mau uso do manejo sustentado, na maioria dos estados cria uma situação lamentada pelo cientista que adverte ser as dificuldades criadas pelos próprios governantes para a elaboração dos projetos de manejo, um dos fatores que impedem seu sucesso.

"Sendo usada com sabedoria, a indústria madeireira não é inimiga da floresta, mas se transformada em uma força positiva para garantir o desenvolvimento econômico e o bem estar social da comunidade, ao invés de ser apenas degradadora, como vemos hoje", finaliza Nepstad.

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