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Um Raimundo no palácio

Época, Amazônia, p.108
13 de dez de 2004

Um Raimundo no palácio
Líder de comunidade amazônica, que nem sequer tinha carteira de identidade, recebe em Brasília o Prêmio Nacional de Direitos Humanos

Na quinta-feira, Raimundo Belmiro despertou às 4 horas. Menos pelos barulhos desconhecidos, de carros e buzinas, mais pelo silêncio de macacos e pássaros. Só foi pular da cama mais de uma hora depois, deslumbrado por proporcionar o luxo de um colchão de hotel ao corpo viciado no contorno da rede. Na noite anterior ficara acordado até de madrugada, seduzido pelo controle remoto da TV. Desperto, rumou para o chuveiro e encantou-se com a água "de toda a qualidade". No café-da-manhã, provou coisas que nunca tinha visto. "Não sei nem o nome, mas achei bom." E ficou pronto. Raimundo Belmiro estava em Brasília, com uma emoção assim, feito um peso no coração e outro no estômago", para receber, de camisa nova, o prêmio Defensores de Direitos Humanos, uma das 15 categorias da distinção do governo federal.
Homem da floresta, líder de uma comunidade extrativista da Terra do Meio, no Pará, região de conflito com grileiros, ele está ameaçado de morte por resistir à expulsão da terra. Graças à persistência de Raimundo e sua gente, a região em que vive se transformou em novembro, por decreto presidencial, na Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio. ÉPOCA contou o drama do Povo do Meio, ameaçado de extinção, na edição 333. "O prêmio visa tanto reconhecer sua luta pelos direitos da comunidade como dar visibilidade e proteção a quem recebe", diz o ministro Nilmário Miranda, da Secretaria Especial de Direitos Humanos.
Desde outubro a vida de Raimundo deu um salto. De brasileiro invisível, ele conheceu o país oficial - e o país oficial reconheceu seus problemas. É a segunda vez que ele é retirado de helicóptero da selva para ser levado a Brasília. Na primeira estada, passou a existir oficialmente, aos 39 anos, ao tirar carteira de identidade num posto da rodoviária. Na segunda, ganhou o prêmio - um troféu e um cheque de R$ 10 mil.
Só Raimundo sabe o que uma quantia como essa significa. Em sua terra quase não há moeda, vale um sistema de trocas da produção pelos artigos oferecidos por um supermercado fluvial batizado de Regatão. Até então, o valor máximo que Raimundo teve na mão foi R$ 250, em julho de 2003, quando entregou meia tonelada de castanhas para obter dinheiro para comprar remédios para a esposa gravemente doente.
No mundo de Raimundo, R$ 10 mil podem comprar 83 bolas de futebol no superinflacionado Regatão ou 125 canoas - a bola, industrializada, é mais cara que o barco artesanal. Raimundo ainda não sabe o que fazer com essa dinheirama. "Abri uma conta no banco de Altamira e vou deixar lá para pensar muito bem", diz. Depois, arrisca: "Será que, se eu apartar R$ 5 mil, não consigo comprar uma casa na cidade?" Raimundo, após tanta novidade, ainda peleia com o mesmo sonho de antes: "Quero aprender a ler".
Ele é síntese de sua terra, onde a maioria se chama Raimundo, 99% são analfabetos, não têm documento e a principal causa de mortalidade é a malária. Sem posto de saúde ou escola, as crianças morrem sem letras, pelo mosquito. Ele já perdeu dois filhos para a "febre". Dois dias antes de receber o prêmio, o menino Mizael, de 1 ano, filho de outro Raimundo, morreu de malária. Essa, agora, é a luta de Raimundo Belmiro.
Eliane Brum

Época, 13/12/2004, Amazônia, p. 108

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