OESP, Vida, p. A12
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
23 de Dez de 2004
Um pretexto para pôr fogo no mato
Marcos Sá Corrêa
Sabe aquele mapa do Brasil sem a Amazônia, que andou circulando na internet como prova definitiva de que os paranóicos tinham toda a razão quando falavam da conspiração internacional para nos roubar a floresta? Pode esquecê-lo, porque acaba de sair coisa muito melhor. É um mapa do Brasil no qual uma sombra lilás avança como uma nuvem de tempestade por 11 Estados, transbordando as divisas políticas da Federação desde o oeste do Paraná até o sul do Maranhão. Lá em cima, suas bordas pontilhadas se esticam para o Norte em duas línguas paralelas, que parecem prontas para abraçar a Amazônia.
Esse artefato cartográfico tem, sobre o fantasma virtual, a vantagem de ser uma proposta concreta. Feito para mostrar ao planeta o paraíso tropical da energia alternativa que queremos ser quando crescermos, é praticamente um documento oficial. Compôs o pacote de argumentos que o governo Lula sacou este mês em Buenos Aires, ajudando a enterrar os acordos contra o aquecimento global na conferência mundial sobre mudanças climáticas. Foi apresentado à opinião pública internacional pelo engenheiro Alfred Szwarc, porta-voz do biodiesel no Ministério da Ciência e Tecnologia.
Pelo que se vê no mapa, o Brasil está disposto a combater o aquecimento global com a arma que testa desde o século 16. Vai botar fogo no cerrado. É o novo destino manifesto da velha marcha para o Oeste. O cerrado tem 204 milhões de hectares. Do total, 137 milhões de hectares já são áreas agrícolas e 35 milhões, pastagens. Florestas e plantações - misturadas, como farinha do mesmo saco - ocupam 12 milhões de hectares. Logo, sobram 90 milhões de hectares, inteiramente disponíveis para as "oportunidades da bioenergia e o desenvolvimento sustentável". Trocando em miúdos, para plantar soja.
O resultado dessa equação é uma soma que nos subtrai todo o cerrado. Como se as queimadas precisassem de incentivos. Todo ano, nos meses de estiagem, a região submerge numa camada de fumaça espessa. Continua em cartaz até hoje, na fronteira agrícola do Brasil, o espetáculo que o entomólogo alemão Hermann von Burmeister viu no Rio em meados do século 19, quando o fogo derrubava florestas para adubar com suas cinzas as fazendas de café no Vale do Paraíba. "Tamanha é a quantidade de fumaça que, durante dias ou mesmo meses, o Sol fica quase totalmente oculto e, se o vemos, ele é vermelho, como se o enxergássemos por trás de um vidro enegrecido", disse ele.
Agora é a vez do biodiesel. Em cinco linhas, Szwarc conseguiu anunciar que o sertão vai virar soja. Claro que a soja não entrará sozinha na era do combustível renovável. O biodiesel é um coquetel de óleos vegetais com etanol anídrico. Sua fórmula aceita babaçu, algodão, amendoim, girassol ou dendê. Uma amostra de cada região brasileira. Mas a soja larga na frente.
Szwarc, que é mestre em Controle da Poluição e consultor da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, não se esqueceu de explicar que o biodiesel é 78% mais limpo do que o óleo extraído do petróleo. Fez a conta do que o País economizará com ele em emissões de monóxido de carbono e de óxidos sulfúricos. Mas não deu um pio sobre o que terá de pagar em aspiração de fumaça para se livrar do cerrado. Com um simples truque contábil, produziu uma novidade histórica. Em cinco séculos de queimadas, agora o Brasil tem um pretexto ambiental para pôr fogo no mato.
Marcos Sá Corrêa é jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)
OESP, 23/12/2004, Vida, p. A12
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