O Globo, O Globo Amanhã, p. 8 a 11
02 de Out de 2012
Um País de pedra
Ricardo Siqueira percorreu 16 mil quilômetros para clicar 23 cavernas. Imagens do Rio Tapajós aos cânions da Serra Geral estão no livro "Brasil Geológico", a décima obra do fotógrafo
Rafaella Javoski
rafaella.javoski@oglobo.com.br
Geólogo por formação e fotógrafo por paixão, Ricardo Siqueira reúne no livro "Brasil Geológico" 189 fotos de cavernas de todo o país. A obra é o resultado de um trabalho realizado durante 240 dias nos quais ele percorreu 16 mil quilômetros de estrada, passou por 15 estados, subiu 65 montanhas e entrou em 23 cavernas.
Siqueira explorou cavernas escuras e percorreu grandes distâncias até encontrar o ângulo ideal para fotografar as montanhas. Isso sem falar nas temperaturas que variaram de -2 graus a 41 graus. O que ele não sabia é que teria ainda outra tarefa árdua pela frente: escolher as fotos para compor o livro.
- Eu me envolvi emocionalmente com muitas delas porque foram feitas em um momento especial, mas mostrava para outros que não enxergavam o mesmo que eu - lamenta.
E após percorrer tantas paisagens naturais de beleza única, ele responde sem titubear qual lugar mais o impressionou:
- Os Lençóis Maranhenses têm uma paisagem única, nunca vi nada parecido em lugar algum - responde ele, que destaca ainda o Rio Tapajós e Lajedo de Soledade, no Rio Grande do Norte.
Diplomata na gaveta
Câmera na mão
Foi na faculdade de Geologia que Ricardo Siqueira descobriu um novo talento: a fotografia. Ao saber que havia um laboratório abandonado, ele comprou material, fez uma limpeza e reiniciou as atividades no espaço. Com as chaves em mãos, uma boa máquina e alguns livros, começou a se dedicar à atividade. Seus relatórios eram ricos plasticamente e logo chamaram a atenção dos professores. Com a graduação concluída, ele participou de um concurso na então revista Manchete e iniciou a carreira no veículo, onde atuou por três anos. Ele lembra que foi com os colegas de trabalho que aprendeu toda a teoria e a prática. Desde então, Siqueira fotografa para revistas, mas sem deixar de lado a sua formação teórica:
- Sempre que viajo com os amigos conto histórias sobre os cenários que a gente visita. Você sabia, por exemplo, que a Cordilheira dos Andes é formada por um enrugamento da crosta terrestre? Para se dedicar aos seus projetos especiais, ele fundou a editora Luminatti e, em 1997, lançou o seu primeiro livro, "Fortes e Faróis".
O fotógrafo relata que costuma se dedicar cerca de um ano e meio a cada projeto e acompanha todas as etapas da produção.
- Considero-me um editor artesanal, pois me dedico a um livro de cada vez e participo dando palpites na diagramação, no texto. Ao todo, 50 mil unidades de suas nove obras já foram vendidas. Agora ele vive a expectativa do 10o trabalho: "Brasil Geológico". Apesar de passar por regiões de belezas naturais singulares, Siqueira recorda que também viveu momentos de aflição. Foi quando perdeu uma de suas lentes dentro de uma caverna escura e precisou da ajuda do guia para encontrá-la. Não foi nada fácil, mas ele achou. O encantamento com a geologia faz com que ele não apenas tenha prazer em fotografar, mas também em falar sobre o assunto e contar curiosidades:
- Esta é uma ciência viva. Podemos achar que as rochas são imutáveis, mas isso não é verdade. As pessoas permanecem na Terra apenas 40 segundos se compararmos com a vida do planeta. Não parece, mas as rochas mudam e contam muito da evolução do clima e do ambiente.
O Globo, 02/10/2012, O Globo Amanhã, p. 8 a 11
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