Veja, Especial, p. 102-107
19 de Nov de 2014
Um gesto de limpeza
A China e os Estados Unidos, os maiores poluidores do planeta, assinaram acordo para reduzir a emissão de dióxido de carbono. Eis um reflexo dos recentes esforços da humanidade para quitar suas dívidas com a natureza
Jennifer Ann Thomas e Raquel Beer
O mundo carece de água limpa. Segundo a ONU, duas em cada dez pessoas não têm acesso ao líquido potável, de qualidade. Isso faz com que 80% das doenças em países em desenvolvimento sejam consequência do consumo de água contaminada. Até 2025, a previsão é que dois terços da população vivam em condições críticas de abastecimento, um caminho rápido para a eclosão de conflitos políticos e bélicos por fontes de recursos hídricos. E, no entanto, desperdiçamos aos montes.
Diariamente, 2 milhões de toneladas de esgoto são depositados em cursos de água. Nos países em desenvolvimento, 70% do esgoto industrial vai parar em reservas. Mais um efeito da essência destruidora do homem, cuja pegada de devastação fica por onde passa, abusando, muito mais do que o necessário, de todos os recursos que a Terra nos dispõe, especialmente a água. No fim desse buraco, há ao menos um alento. É inegável o aumento das preocupações e dos esforços conservacionistas, sobretudo nas últimas quatro décadas.
Houve um histórico avanço, divulgado um dia antes do espetacular encontro da missão Rosetta com o cometa 67P, numa coincidência feliz de dois extraordinários saltos para o futuro da humanidade, com o anúncio do inédito acordo firmado no início de novembro entre a China e os Estados Unidos (os maiores poluidores do planeta) para a redução da emissão de dióxido de carbono (o CO2), o grande vilão do ambiente.
É a primeira vez que a China se compromete formalmente a limitar suas emissões de CO2. O plano do país asiático, o campeão mundial da sujeira, é fazer com que ao menos 20% de sua energia seja proveniente de fontes renováveis até 2030. A China, é verdade, demorou a se preocupar com a questão (e a maioria dos danos que já causou é irreparável). Mas é melhor tornar-se sustentável tarde do que nunca. Os Estados Unidos prometem reduzir as emissões em 30% até 2025. Juntos, os dois países são responsáveis por 45% do dióxido de carbono jogado na atmosfera.
Diminuir o índice de CO2 no ar beneficia todo o ecossistema, da sobrevivência de animais à preservação da água. Segundo a associação Global Footprint Network, a queima de combustíveis fósseis corresponde ao maior risco que o homem representa hoje para a conservação da natureza. A Footprint é famosa por calcular o impacto que cada indivíduo e também cada país têm no ambiente. Para isso, usa como base a "pegada ecológica", medida que define quantos hectares da Terra (de plantações a ocupação de áreas urbanas) são necessários para suportar o modo de vida de uma pessoa. Depois, avalia quantos planetas Terra seriam necessários para sustentar toda a humanidade se a população global adotasse hábitos similares.
Segundo a Footprint, faz mais de quarenta anos que a humanidade ultrapassou o limite daquilo que a Terra é capaz de suprir (veja infográfico mais abaixo). As consequências do consumo desenfreado são evidentes: aquecimento global, crise hídrica, empobrecimento do solo, efeito estufa, entre tantos outros reflexos diretos dos exageros humanos.
Para calcular a pegada ecológica são quantificados diversos hábitos de consumo, da alimentação ao gasto de água em banhos e escovando os dentes. Hoje, um ser humano necessita, em média, de 2,7 hectares para se sustentar. Passou do limite. Para continuar nessa toada a longo prazo seria necessário 1,6 planeta como a Terra. O maior peso na formação da pegada provém da emissão de CO2. Em 1961, a emissão de carbono na atmosfera já representava 36% da pegada ecológica global. Em 2010, saltou para 53%.
Disse a VEJA Mathis Wackernagel, presidente da Footprint: "O CO2 fica acumulado na atmosfera e em oceanos, poluindo nosso ar e nossa água. Felizmente, temos ferramentas e conhecimento para reverter a situação, e é nosso dever fazer isso". Espalham-se, antes das soluções, os efeitos da devastação humana. Populações de animais silvestres caíram pela metade desde 1970.
Os que vivem em água doce são os mais afetados, com redução de 76%. Os estoques de recursos naturais, como os hídricos, sofrem como nunca, e a Terra está à beira do colapso. Até 2050, a população mundial deve ganhar mais de 2 bilhões de integrantes, somando 9,6 bilhões de pessoas. Ou seja: mais gente consumindo alimentos, combustíveis fósseis e água. Estima-se que, dentro de 35 anos, 65% de todos os seres humanos sofrerão com algum tipo de falta de água. Até o fim do século, 4 bilhões de pessoas devem morar em áreas com problemas de abastecimento.
Para medir quanto usamos e precisamos de água no dia a dia, a Footprint também considera o conceito de pegada hídrica, que soma fatores como o consumo de água doce e a poluição de recursos hídricos por cada indivíduo. Também entra na conta a agricultura, que consome água por irrigação ou pela absorção de chuvas. Isso faz com que esse setor corresponda a 92% da pegada hídrica mundial.
O acordo entre China e Estados Unidos serviu para determinar uma nova postura dos dois países, que procuram se ajustar a esse novo anseio de limpeza sustentável. Com isso, eles ainda esperam se transformar de maiores poluentes do planeta a faróis que guiam os esforços conservacionistas. Não por acaso, o trato veio apenas uma semana depois da apresentação da última parte do quinto relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), o braço climático da ONU. No texto, destacou-se a necessidade de diminuir em ao menos 40% a emissão de CO2 mundial até 2050 para evitar um descompasso irreversível do clima. O acordo foi a resposta de americanos e chineses. Disse Barack Obama, presidente dos Estados Unidos: "Como as duas principais economias e os maiores emissores de gases de efeito estufa, temos uma responsabilidade especial de liderar o esforço global contra as mudanças climáticas". Em outras palavras, finalmente esses países assumiram sua parcela de responsabilidade.
A longo prazo, porém, as medidas governamentais não conseguem, sozinhas, reverter séculos de devastação ambiental. Para que isso ocorra de forma eficaz, é preciso que cada indivíduo se conscientize de sua responsabilidade para com a natureza. No Brasil, por exemplo, o que infla a pegada ecológica média da população não é a emissão de carbono per capita, mas sim o consumo de carne bovina. Não se trata apenas da carne ingerida, mas também da área desmatada para a criação de gado e do uso de água pela pecuária. O que a Footprint recomenda ao brasileiro é reduzir a ingestão de carne e incentivar o consumo de alimentos produzidos perto de sua cidade (o que ajuda a diminuir o impacto ao, por exemplo, reduzir os gastos com combustível para o transporte e de energia elétrica com refrigeração).
As dicas de Wackernagel, da Footprint, para mudar hábitos individuais: "Repense suas fontes de energia, diminua a presença de alimentos de origem animal em sua dieta (não é preciso ser radical e virar vegetariano) e considere ter menos filhos". As sugestões flertam com a obviedade. Mas é aquele óbvio que poucos seguem. No fim, é essencial ter consciência de que, por mais abundantes que aparentem ser, os recursos da Terra são limitadíssimos. O pior: caso acabem, não há como repô-los. Nas palavras do sul-coreano Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU: "Não há plano B porque não temos um planeta B".
AS PEGADAS DA DESTRUIÇÃO
A unidade "pegada ecológica" mede nosso impacto na natureza. Levam-se em conta fatores como poluição e consumo de alimentos para definir quantos hectares da Terra são necessários para sustentar o hábito de cada indivíduo. Depois, calcula-se se o planeta suportaria a demanda caso todos seguissem o mesmo modo de vida.
Clique aqui e veja o infográfico
O IMPACTO DE UMA VIDA
A poluição que um cidadão americano médio, com expectativa de vida de 79 anos, produz em sua passagem pela terra (e a origem de sua devastação)
Veja, 19/11/2014, Especial, p. 102-107
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