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Um drama tropical

O Globo, Ciência, p. 28
17 de Out de 2007

Um drama tropical
Mudanças climáticas já transformam a vida nos países da América Latina

Do Grupo de Diários América (GDA)

A contribuição dos países da América Latina e do Caribe para a atual elevação das temperaturas mundiais é muito pequena.
De todos, o Brasil é o único grande emissor de gases-estufa - está hoje entre os cinco maiores do mundo em razão das queimadas na Amazônia. Mas, historicamente, tampouco pode ser responsabilizado pelas mudanças em curso já que as atuais alterações climáticas estão associadas ao acúmulo de gases ao longo dos último século. Entretanto, toda a região registra mudanças significativas do aumento da temperatura, como a aceleração do degelo dos Andes e a crescente ocorrência de eventos climáticos extremos, deixando explícita a emergência da questão climática, cujo impacto na segurança global foi salientado pela concessão do Prêmio Nobel da Paz ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU e ao político americano ambientalista Al Gore.

Para traçar um painel da situação, o Grupo de Diários América (GDA) apresenta um trabalho conjunto, com reportagens que revelam os maiores problemas climáticos da América Latina e do Caribe. O aumento das temperaturas médias é uma realidade em toda a região. A conseqüência mais visível dessa elevação é o derretimento das neves até então eternas da cordilheira andina.

Um dos casos mais preocupantes é o da Colômbia, onde os seis cumes nevados mais importantes perderam 50% da neve. A situação se repete, em escalas variadas, em outras nações.

O grande problema da perda do gelo é o impacto sobre os recursos hídricos. No Peru, por exemplo, a área de gelo perdida, 22%, equivale a uma redução de 12 bilhões de metros cúbicos de água, o suficiente para abastecer uma capital como Lima por dez anos.

A elevação da temperatura tem efeito direto no regime de chuvas e leva a uma maior ocorrência de eventos extremos. Previsões indicam que o volume de chuva será maior, porém em períodos mais concentrados, o que acarretará tanto inundações quanto secas. A savanização é uma das principais ameaças à Amazônia brasileira. Estimativas apontam um aumento de até 8 graus Celsius na região até 2100 e a transformação de boa parte da floresta numa área de campos.

No mar se vê a destruição de um dos mais importantes ecossistemas do mundo, os recifes de coral - fundamentais para a manutenção da fauna marinha. Em Porto Rico, por exemplo, os sinais já são evidentes.

Cumes gelados, uma paisagem em extinção
Redução de neve já chega a 50% e ameaça abastecimento de água

O desaparecimento da neve nas mais altas cordilheiras andinas é um dos mais visíveis e alarmantes sinais do aquecimento na América Latina, sobretudo por seu impacto no abastecimento de água. Em alguns países, a perda de neve já chega a 50% e há estimativas que apontam para o desaparecimento total de algumas geleiras nas próximas décadas.

Um dos casos mais alarmantes é o da Colômbia, onde a superfície total de geleiras era de pouco mais de 100 quilômetros quadrados em 1960 e, hoje, não chega a 54 quilômetros.
Os seis picos nevados mais importantes do país já perderam, em média, 50% de sua neve, segundo especialistas. Entre eles o vulcão Nevado del Ruiz, um dos mais emblemáticos da Colômbia, cuja área glacial já retrocedeu em 45% e pode sumir totalmente em seis anos.
As alterações são facilmente testemunhadas por quem vive ou excursiona freqüentemente nas áreas.

- O retrocesso da neve nessa montanha e também em outras do Parque dos Nevados é irreversível e, em pouco tempo, não poderemos mais vê-las - contou Nelson Cardona, um dos mais experientes montanhistas da Colômbia, que já foi dezenas de vezes ao Nevado del Ruiz.

No Equador a situação é similar, segundo levantamento feito pelo geólogo Bolívar Cáceres em 1998 e repetido no ano passado. Os números mostram uma redução de 27,8% nas superfícies nevadas. Como ocorre na Colômbia, o degelo é visível nos principais cumes nevados do país, como o vulcão Cotopaxi, 89 quilômetros ao sul de Quito: agora, é preciso subir mais de 5 mil metros para encontrar neve.

O quadro se repete na Argentina, onde mais de 40 geleiras da Patagônia estão em franco retrocesso.Um exemplo é o Nevado Frias, no Parque Nacional Nahuel Huapi.
Nos últimos dois mil anos, a maior extensão gelada do monte foi alcançada entre 1640 e 1660, na chamada Pequena Idade do Gelo. Deste ano até 1850 a neve retrocedeu a uma velocidade de 2,5 metros por ano. Mas desde o início dos registros de aquecimento, a velocidade aumentou sensivelmente: sete metros ao ano até 1900; 10 metros anuais entre 1910 e 1940; e 36 metros de 1976 a 1986.

A maior, e mais grave, conseqüência dessas reduções se relaciona à perda de recursos hídricos dos países da região. Um levantamento feito por instituições científicas do Peru revela que a perda das áreas de neve já registrada, 22% do total, equivale a uma redução de recursos hídricos de 12 bilhões de metros cúbicos, o suficiente para suprir o consumo de uma capital como Lima ao longo de dez anos. São as geleiras do continente que alimentam os rios que vão abastecer as cidades de parte da região.

Eventos extremos e desequilíbrio no regime de chuvas
Região pode sofrer com tempestades, furacões e secas intensas

A América Latina tem sofrido com desastres naturais causados por eventos climáticos extremos. Os países da região registram, a cada ano, alterações nos regimes de chuvas e o aumento da ocorrência de fenômenos como tempestades, furacões e secas intensas.
A Argentina viu cair neve em sua capital, Buenos Aires, no último inverno, fato que não acontecia há 89 anos. As temperaturas médias subiram e o país sofre com o aumento e o declínio de precipitações em diferentes regiões. Nas áreas próximas à Cordilheira dos Andes, por exemplo, o volume de chuvas foi reduzido em até 50% no último século. No centro e norte do país, porém, as precipitações cresceram em 23%.
Nas províncias de Santa Fé e Entre Rios, as chuvas aumentaram, trazendo como conseqüência inundações, como as que atingiram a região este ano.

No Uruguai, o maior aumento de precipitações do mundo
No Chile, projeções indicam uma elevação das temperaturas médias no país. O mais moderado dos cenários prevê aumentos entre 1 e 3 graus Celsius. O mais extremo estima uma elevação entre 2 e 4 graus Celsius. Com o aquecimento, os Andes terão menos capacidade de acumular neve, acarretando um aumento no volume de água nos rios e maior probabilidade de inundações.

Áreas próximas à cordilheira têm perdido, em média, em torno de 200mm de chuvas anualmente.
As regiões de maior altitude do Equador têm registrado temperaturas cada vez mais elevadas. Já as suas florestas têm sido atingidas por estiagens prolongadas.
A Venezuela também passa por desequilíbrios no clima. Em 2005, regiões no litoral sofreram com deslizamentos de terra causados por tempestades fora de época. Curiosamente, calcula-se que pode passar a chover menos no país, entre 55 e 25% do que choveu entre 1961 e 1990. Secas prolongadas poderiam fazer aumentar as áreas desertificadas.

Na capital uruguaia, Montevidéu, a temperatura subiu 0,9 grau Celsius nos últimos 30 anos. Paradoxalmente, o mais recente inverno no país foi considerado muito frio, quebrando um ciclo de anos de estações menos rigorosas. O Uruguai teve o maior aumento de precipitações do mundo: 23% em um século, concentrado nas últimas quatro décadas.

Em maio deste ano, sete mil pessoas tiveram que ser evacuadas por causa de enchentes no rio Negro, que divide o país. Foi a pior enchente no país em 50 anos. Um ano e meio antes, o Uruguai sofreu o temporal mais forte dos últimos 40 anos, com ventos de até 160km/h.
Dez pessoas morreram.

No Peru, projeções indicam que, se forem mantidos os níveis atuais de aquecimento global, a Floresta Amazônica pode ter duas décadas de seca entre os anos de 2071 e 2100.

O Globo, 13/10/2007, Ciência, p. 28

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