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Autor: Edilza Ramos*
19 de Abr de 2010
O dia do índio, 19 de abril, foi instituído em 1943, por Getúlio Vargas, depois de quatro séculos do "descobrimento" do Brasil e de contato do homem branco com a população nativa. Já houve época em que esse dia era bem lembrado, mas nos dias atuais está olvidado. Falar com precisão sobre o total de índios no Brasil é um pouco duvidoso, pois ainda em nossos dias se fala em estimativas e não em contagem direta. Isso se deve a uma série de fatores como o desconhecimento das línguas indígenas pela grande maioria da população brasileira (incluindo os responsáveis pela contagem) e outros que dificultam o trabalho dos recenseadores.
Não sabemos detalhe sobre os índios que vivem nas cidades, o que fazem quantos são exatamente, etc. Segundo fontes históricas, no início da colonização brasileira, o contingente populacional indígena girava em torno de quatro a cinco milhões de índios espalhados pelo país. Hoje com base no censo de 2005, da Funai (Fundação Nacional do Índio), a população indígena no Brasil é estimada em 358 mil índios distribuídos em 215 etnias que falam em torno de 180 línguas distintas. Cerca de 60% vive na Amazônia Legal e o restante nas demais regiões do país.
De acordo com o censo do IBGE, o percentual em relação à população brasileira, é de 0,2%. Esse percentual demonstra as dimensões do extermínio da população nativa, durante o período colonial, onde milhares de índios foram dizimados pela violência e pelas doenças trazidas pelos invasores brancos.
Naquela época, o índio era visto como um obstáculo para a ação empreendedora dos povos europeus, que buscavam a qualquer custo a posse e a exploração das riquezas naturais do território brasileiro. Bem que a população indígena poderia ter seguido outra trajetória, já que era detentora de uma cultura própria, com seus costumes, línguas, crenças, tradições e organização social.
Às atividades dos missionários europeus, nos primeiros tempos da colonização do Brasil, também poderiam ter contribuído muito mais para melhorar as condições de vida dos nativos bem como direcioná-los rumo a sua libertação, mas esses missionários estavam a serviço de uma elite dominante que defendia apenas seus interesses, por isso, tais atividades, só levaram ao desaparecimento das crenças religiosas e de outras tradições culturais dos povos indígenas.
A ação de "atrair" e reunir os índios nas missões (e muitos estavam ali contra sua vontade) com o pretexto de "pacificar" e ensinar-lhes um ofício, não deixa de ser considerado um tipo de escravidão, tendo em vista que eram submetidos a hábitos completamente alheio aos de sua cultura. Muitas das comunidades tribais que sobreviveram à ação dos brancos ao longo do tempo vivem em meio à miséria, doenças, descaso das autoridades e discriminação pelo resto da sociedade "civilizada".
Os órgãos que foram criados, mais tarde, para proteger os índios como o extinto SPI (Serviço de Proteção ao Índio), criado em 1910, e a Funai (Fundação Nacional do Índio), criada em 1967, na realidade nunca resolveram de forma exemplar a situação dos povos indígenas. Por último, surgiram várias organizações não governamentais com a missão de prestar também assistência às comunidades indígenas. Estas organizações movimentam uma considerável quantia de recursos financeiros, entretanto sabe-se que uma parte do dinheiro movimentado por elas é desviado para outros fins, enquanto outra parte é gasto com mordomias para seus gestores.
Algumas organizações não governamentais são administradas pelos próprios índios, que depois de aprenderem muitas ilegalidades com os brancos, agem da mesma forma com relação aos recursos financeiros que movimentam. A emancipação desses povos não seria uma forma mais viável para a solução de seus problemas? Visto que, Hoje, em muitas comunidades indígenas, já há um número considerável de índios com formação superior atuando em diversos ramos de atividades.
Mas já que o Estado brasileiro insiste em manter o indígena sob sua tutela, não seria oportuna a aplicação de políticas mais específicas que atendesse as peculiaridades de cada nação indígena? Quem sabe até fosse possível tornar algumas auto-suficientes, tendo em vista que, em alguns casos, dependendo da região, as aldeias se localizam em áreas que possuem muitas riquezas naturais.
Então enquanto não se resolve a questão das comunidades tribais, e acho pouco provável que isso possa ocorrer em pouco tempo, vamos assistindo um processo de descaracterização em meio a muita desordem, violência, tráfico de drogas, prostituição, analfabetismo, etc. o que não deixa de ser um verdadeiro reflexo da sociedade em que vivemos hoje, pois assim como os brancos, os índios têm uma facilidade enorme de assimilar o lado ruim das coisas, e isso se torna muito mais fácil, na medida em que eles, hoje, além do contato com os brancos utilizam equipamentos tecnológicos dos mais modernos possíveis como computadores, celulares, televisão e outros.
Na verdade o homem branco só complicou a vida desses povos a partir do momento em que invadiu seu habitat natural, ignorou sua cultura, impondo, muitas vezes, de forma arbitrária, além de outras coisas, nomes e chefes. Resquícios das velhas práticas coloniais. Embora vivendo hoje em suas reservas, onde grande parte delas já está demarcada, a minoria sobrevivente constantemente é aliciada por pessoas inescrupulosas e maliciosas que consegue com facilidade penetrar em suas terras, às vezes com consentimento dos próprios índios, devastando florestas, contrabandeando produtos naturais, animais silvestres e praticando a venda de drogas.
Ultimamente temos visto cenas impressionantes de índios atacando nas estradas e até cobrando pedágio, um total absurdo. São conseqüências, em parte, de uma imposição cultural européia em detrimento da cultura nativa, que se iniciou no período colonial e se reflete de forma bastante negativa nos dias atuais. Infelizmente este tem sido o cenário de muitas aldeias espalhadas pelo país.
Portanto a comemoração do dia do índio, não é mais um ato grandioso, mas ainda tem lá suas virtudes. Afinal depois de tanto tempo e de tanto massacre, os povos indígenas não desapareceram no seio da população mestiça. O índio brasileiro não se transformou totalmente em homem branco, e nas últimas décadas observamos um pequeno crescimento demográfico em suas comunidades mesmo em meio a tantos aspectos negativos.
* Edilza Ramos é graduada em História e pós-graduada em Avaliação Educacional pela UFMA.
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