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Um devoto das baratas em busca de respostas sobre o clima

O Globo, Sociedade, p. 17
07 de Jan de 2018

Um devoto das baratas em busca de respostas sobre o clima
Para Vitor Tarli, insetos são importantes medidores da saúde e do futuro das florestas

POR FERNANDO EICHENBERG
ESPECIAL PARA O GLOBO

PARIS - Não seria surpresa se, certa manhã, Vitor Dias Tarli despertasse de seus sonhos transformado em uma gigantesca barata, a exemplo do personagem Gregor Samsa na obra "Metamorfose", clássico da literatura de Franz Kafka. Vitor convive com baratas diariamente. Mais do que isso: estuda-as com paixão e afinco. O paranaense de 29 anos é um dos raros especialistas brasileiros em baratas, e atualmente desenvolve uma pesquisa de doutorado sobre o tema no Museu Nacional de História Natural, em Paris. A instituição francesa de pesquisa e difusão da cultura científica naturalista, fundada em 1793, possui uma das maiores coleções de baratas do mundo.
Repulsivas para a maioria da população, as baratas são um verdadeiro objeto de adoração para o pesquisador. Quando iniciou os estudos na faculdade de Biologia do Centro Universitário Filadélfia (UniFil), em Londrina (PR), Vitor queria ter uma barata como animal de estimação, mas não conseguiu a autorização materna.
- Uma vez falei para a minha mãe que ia criar uma barata, mas ela não deixou. Disse: "Quando você morar sozinho, pode fazer o que quiser, mas enquanto estiver aqui em casa, não!". Preferi não insistir - lembra. - Com as baratas domésticas, existe realmente uma preocupação com higiene e saúde, já que elas vivem em locais sujos e podem transmitir doenças. Mas, em relação às baratas silvestres, de florestas, seria possível ter uma em casa sem arrumar problemas.
Antes de explorar esse universo, Vitor pensava, como a maior parte das pessoas, que existiam apenas quatro ou cinco espécies transitando pelos lixos e esgotos urbanos. A realidade, no entanto, é bem mais ampla:
- Há 5 mil espécies de baratas conhecidas no mundo, de um total estimado em cerca de 20 mil. No Brasil, são 720 descritas, sendo que 4 mil poderiam existir em nosso território - revela. - É um dos países com maior diversidade. As pessoas sempre se surpreendem quando digo que estudo baratas. Mas daí tento explicar o que isso significa.
ESTUDOS SOBRE O CLIMA
De acordo com Vitor, baratas silvestres têm um papel importante como polinizadoras e, assim, são indicadoras da qualidade de florestas, podendo servir como uma ferramenta para estudos sobre as mudanças climáticas.
- Quanto maior a diversidade de baratas encontradas em florestas, maior é a qualidade ambiental e a preservação da mata - justifica.
Para desenvolver sua tese sobre a evolução e distribuição de baratas no Brasil, Vitor foi a campo durante um mês e meio coletar amostras nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.
- Em nossas caminhadas, quando vemos um tronco em início de decomposição, podemos encontrar baratas escondidas embaixo dele. Elas também podem se infiltrar nos locais em que a casca começa a se soltar da árvore - explica Vitor, que coleta o inseto desde que fazia mestrado em Entomologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
Desde sua chegada à França, o pesquisador revisou a descrição de três espécies de baratas e descreveu outras cinco novas, descobertas na Mata Atlântica. Seu estudo deve ser publicado em breve na revista científica "Zootaxa", especializada em taxonomia (ciência que lida com a identificação e classificação dos organismos).
No Museu Nacional de História Natural francês, que possui uma coleção de 60 mil baratas, Vitor tem como orientadora de tese a também brasileira Roseli Pellens, responsável pela dinamização das pesquisas em macroecologia da instituição. Nascida em Santa Catarina e formada em biologia e em ecologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com vários trabalhos sobre baratas no currículo, Pellens se mudou para a França em 2007, e hoje define protocolos de pesquisa para as equipes do museu, onde trabalha de forma permanente.
- A barata tem um papel para o transporte e a dispersão de micro-organismos, mas que ainda é difícil de se precisar. Mas elas estão sumindo. Se você tira a floresta, elimina os habitats, as baratas desaparecem. E quando você faz uma simulação considerando mudanças climáticas, nossos modelos mostram que as espécies têm dificuldade em sobreviver - alerta Pellens, que é casada com o francês Philippe Grandcolas, especialista em baratas de reputação internacional.
CRISE NO BRASIL AFETA PESQUISAS
Se dependesse de sua vontade, haveria mais brasileiros estudando no museu francês, mas a atual conjuntura brasileira, segundo ela, não colabora.
- Nos últimos dois anos, ouço colegas dizendo que estão sem dinheiro para pesquisa, com muitos trabalhos estagnados. Candidatos sempre há, só não estão vindo mais para cá porque não há mais bolsas e recursos - ressalta ela.
Vitor encerra seu período de pesquisas no museu no início do ano que vem, quando retornará ao Brasil, mas diz que, se pudesse, estenderia sua estada na França.
- Gosto do trabalho de campo, e neste sentido o Brasil é melhor, devido à área de biologia e florestas. Hoje, no entanto, a crise econômica dificulta a obtenção de oportunidades e recursos para pesquisa. Então, se fosse possível, ficaria mais alguns anos por aqui.
O pesquisador só tem uma certeza: onde estiver, continuará fiel ao estudo de seu inseto preferido.

O Globo, 07/01/2018, Sociedade, p. 17

https://oglobo.globo.com/sociedade/pesquisador-usa-baratas-para-entende…

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