Valor Econômico, Opinião, p. A9
Autor: SILVA, José Graziano da
28 de Dez de 2015
Um clarão de sensatez
Pela primeira vez na régua do tempo, as nações da terra afrontaram o hábito e a conveniência, olhando para além das fronteiras, conflitos étnicos e contenciosos econômicos para enxergar no planeta um bem indiviso, finito e em perigo
José Graziano da Silva
A percepção de que vivemos uma mudança de época deu um salto no final de 2015. Esse talvez seja o maior legado do ano velho para o tempo novo que se aproxima.
A cúpula de Paris definiu o acordo inédito para o clima, que agora precisa ser implementado rapidamente e conjuntamente.
Estamos diante de um acontecimento de indiscutida importância para o futuro da humanidade.
Pela primeira vez na régua do tempo, as nações da terra afrontaram o hábito e a conveniência, olhando para além das fronteiras, conflitos étnicos e contenciosos econômicos para enxergar no planeta um bem indiviso, finito e em perigo. Esse reconhecimento emergiu singularmente visível como um clarão de sensatez, a partir de Paris.
A fotografia dessa revelação é o Acordo do Clima que busca dar materialidade factível à travessia que a grande família humana pactuou na capital francesa.
Somos muitos caminhos, mas temos um único destino - e ele precisa de cuidados expressos em obrigações comuns. Essa é a base do novo consenso.
A tentativa anterior feita em 1997, com o Protocolo de Kyoto, não teve êxito em reduzir a dinâmica do efeito estufa. Kyoto cobria apenas 11% das emissões; sem a adesão da China e EUA era um relógio desprovido do despertador: desarmava a prontidão das nações e não convencia o mercado a investir em baixas emissões.
Agora é diferente. Cento e oitenta e oito países - os ricos, os pobres e os em desenvolvimento -já apresentaram planos voluntários de redução de emissões na cúpula francesa, as chamadas Contribuições Pretendidas Nacionalmente Determinadas.
Conter o acréscimo crítico da temperatura em dois graus Celsius, e até abaixo disso - como conseguiram impor os pequenos países insulares em desenvolvimento, ameaçados em sua própria existência, exige muito mais que boa vontade. O Acordo do Clima, porém, trincou a inércia que abrigava a subestimação, a indiferença e o fatalismo diante da premência comprovada.
A vigência de um protocolo global, com revisão quinquenal dos planos nacionais, cria um novo trilho. Será através dele que a humanidade seguirá viagem de agora em diante.
Dar materialidade a essa travessia é o que faz da despedida do ano velho um sopro de esperança na virada do calendário.
Um dos marcadores dessa passagem é a aprovação, em setembro último, da Agenda de Desenvolvimento 2030 e seus dezessete Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.
A erradicação da fome e da pobreza extrema com o uso justo, equilibrado e sustentável da terra é um dos seus pilares. Dele estendeu-se a ponte da justiça social até Paris. Ergueu-se, assim, uma via de mão dupla na caminhada global para um equilíbrio que jamais ocorrerá entre a natureza e a sociedade humana se esse não for também uma reconciliação da humanidade com ela mesma.
O novo pacto reconhece as diferentes responsabilidades e capacidades em reverter práticas que nos levaram à borda do precipício ambiental.
O que pavimenta o esforço comum é a contrapartida da cooperação internacional. Sem o apoio financeiro a países e comunidades mais pobres a equação não fecha: a premissa de um futuro sustentável é que ele seja também justo e inclusivo.
Não se trata de isentar os mais frágeis, mas de dotá-los dos requisitos para não deixar ninguém para trás em direitos e deveres.
Mais de 80% das Contribuições Pretendidas Nacionalmente Determinadas apresentadas em Paris incluíram a agricultura no mutirão pelo clima - caso, sobretudo, das nações em desenvolvimento, a maioria das quais tem no uso da terra o seu principal motor econômico.
Essa determinação de adaptar uma atividade essencial à sobrevivência e segurança das nações agrícolas resultará também em um importante fator de mitigação do aquecimento climático.
Cerca de 25% da emissão global de gases de efeito estufa advém da agricultura e dos usos da terra - incluindo-se a atividade dos pequenos agricultores, dos pescadores artesanais e dos povos da floresta.
Portanto, não há nada mais encorajador do que isso.
Significa que a luta contra a pobreza e a fome incorporou definitivamente o requisito da sustentabilidade fazendo da agricultura um aliado do baixo carbono, não um obstáculo a sua implementação.
Em nenhum outro terreno essa interdependência tem condições de gerar respostas tão rápidas quanto na esfera da segurança alimentar.
As ferramentas estão disponíveis. O que falta é um salto na difusão de técnicas, cepas e opções de manejo de baixo impacto - disponíveis, repita-se - que permitam abastecer mais de 9 bilhões de bocas em 2050, sem aniquilar os recursos que formam as bases da vida no planeta.
Ativar plenamente esse potencial implica trazer para o chão firme da cooperação internacional o conceito de justiça climática defendido pela sociedade civil e recordado ali até pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, e pelo presidente da França, François Hollande. Em outras palavras, colocar os mais vulneráveis aos eventos extremos, à fome e à miséria no centro do financiamento climático que deve alcançar pelo menos US$ 100 bilhões ao ano, a partir de 2020.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), condensará experiências de todo o mundo para compor um programa de apoio com o objetivo de fomentar essa transição em diferentes latitudes.
O maior desafio de uma mudança de época consiste em harmonizar as pendências do tempo que se despede, com os imperativos do ciclo que pede para nascer.
É disso que tratará a FAO no caminho para a próxima reunião global do clima, em novembro de 2016, em Marrocos. Ali será consolidado o mapa de passagem para fazer da luta por justiça social e segurança alimentar e nutricional um predicado do equilíbrio requerido no uso da terra no século 21.
José Graziano da Silva é diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO).
Valor Econômico, 24-28/12/2015, Opinião, p. A9
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