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Um bilhão em risco

O Globo, Ciência, p. 32
02 de Jun de 2011

Um bilhão em risco
Moradores de favelas dos grandes centros são os mais ameaçados pelas alterações climáticas, alerta estudo do Banco Mundial

Marcelle Ribeiro

SÃO PAULO - Um bilhão de pessoas que vivem nas áreas mais pobres dos grandes centros urbanos do mundo estão diretamente ameaçadas pelas mudanças climáticas globais em curso, alerta estudo inédito divulgado ontem na C40 São Paulo - encontro das 40 grandes cidades de todo o mundo em busca de soluções para o aquecimento global. O estudo mostra que essas pessoas são as mais expostas a deslizamentos de encostas, enchentes e inundações em razão da elevação do nível dos mares.
A exposição aos riscos é exacerbada por fatores comuns a áreas mais pobres, em geral de favelas, como falta de saneamento, infraestrutura urbana e serviços, além de desnutrição e saúde precária dos indivíduos.
- Para muitas pessoas pobres que vivem em cidades, enchentes e deslizamentos frequentes já são um fato da vida - afirmou o presidente do Banco Mundial, Robert B. Zoellick, durante o encontro. - As mudanças climáticas vão piorar o quadro. Por isso, precisamos colocar as cidades na linha de frente da luta pela adaptação (à elevação das temperaturas) e da redução do risco de desastres naturais.
A principal autora do estudo, Judy Baker, afirmou que o trabalho revela exemplos positivos de como alguns prefeitos estão preparando suas cidades para as mudanças e faz recomendações na área de redução de riscos:
- Os pobres vão sofrer mais e em primeiro lugar os impactos (das mudanças climáticas) e é por isso que não temos tempo a perder na preparação das cidades.
Para facilitar o financiamento de ações contra as mudanças climáticas, o presidente do Banco Mundial assinou ontem um memorando de entendimento. O documento foi assinado também pelo presidente da Rede C40 (que reúne 59 cidades do mundo para lutar pelo meio ambiente), o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg.
No ano passado, o banco investiu US$ 5 bilhões em financiamentos para o desenvolvimento de áreas urbanas nas cidades do C40. Segundo Zoellick, o banco tem hoje US$ 15 bilhões investidos nestes municípios. A verba para mudanças climáticas pode chegar a US$ 50 bilhões nos próximos anos, mas ele não detalhou em que período isso pode acontecer.
Zoellick explicou que o Banco Mundial também pretende ajudar as cidades com assistência técnica em medidas relativas à redução de emissões de CO2, o principal gás do efeito estufa. Ele destacou a necessidade de os países medirem de forma padronizada as emissões:
- Como atacar problemas, se não medimos? Como arrecadar mais fundos se não sabemos o que as cidades já fazem? Métricas comuns vão permitir isso, vão facilitar que se consiga financiamentos privados.
Segundo Zoellick, é preciso saber as necessidades e prioridades de cada cidade para que o Banco Mundial decida como e com quanto pode ajudá-las.
No primeiro dia do encontro, prefeitos de todos os continentes apresentaram medidas adotadas para conter as mudanças climáticas.
A vice-prefeita de Paris, Anne Hidalgo, defendeu a necessidade das "cidades compactas", em que, num mesmo bairro, estão concentradas oportunidades de lazer, moradia e trabalho. Desta maneira, os moradores não têm que passar horas no trânsito - um dos principais responsáveis pela emissão de gases na atmosfera - para ir de casa ao emprego. Para isso, a prefeitura de Paris determinou que prédios em construção no centro da cidade tenham apartamentos para diferentes classes sociais. O prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, espera que a cidade americana adote o pedágio urbano para diminuir o trânsito de veículos no centro, medida que até hoje não conseguiu implantar.
Já o prefeito de Melbourne, na Austrália, Robert Doyle, contou que na sua cidade foi feita uma parceria com o setor bancário para que os donos de edifícios antigos que quisessem fazer reforma conseguissem empréstimos melhores caso se comprometessem a tornar os imóveis mais ecologicamente corretos.
O prefeito de Addis Abeba, na Etiópia, Kuma Demeksa, relatou a campanha bem sucedida que fez com que a área verde da cidade aumentasse significativamente depois que cada habitante foi incentivado a plantar duas árvores por ano.

Bill Clinton elogia o Brasil
Ex-presidente dos EUA usou dados antigos

O ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton elogiou o Brasil pelo trabalho que o país vem fazendo para conter o desmatamento da Floresta Amazônica - provavelmente sem ter visto os últimos números sobre o problema -, durante a C40 São Paulo Summit. A fundação dele, a Clinton Climate Initiative, tem uma parceria com a rede C40.
Clinton citou dados antigos, que indicavam que o Brasil havia reduzido
em 70% a taxa de destruição da Amazônia. Porém em maio o governo divulgou que o desmatamento na região cresceu 27% entre agosto de 2010 e abril de 2011, se comparado ao período anterior.
O democrata comparou os resultados do Brasil aos de outros países e elogiou o país por produzir etanol, que ele chamou de combustível eficiente, e pelo fato de a maioria dos carros brasileiros rodar com álcool ou serem híbridos. Clinton também defendeu o fim dos aterros sanitários (Marcelle Ribeiro).

O Globo, 02/06/2011, Ciência, p. 32

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