OESP, Geral, p. A12
20 de Jun de 2004
Um atlas vai mostrar o vaivém do litoral brasileiro
Pesquisadores estão mapeando as alterações da costa, causadas muitas vezes pela ação humana
Evanildo da Silveira
A linha costeira do Brasil, que se estende por mais de 8 mil quilômetros, não é assim tão imutável como costuma aparecer nos mapas. Ela vai alterando-se ao longo do tempo. Em alguns pontos avança continente adentro, abrindo caminho para a invasão do mar. Em outros, empurra o oceano, alargando as praias. É um vaivém eterno, que agora começa a ser estudado e mapeado por equipes de pesquisadores de 16 universidades e instituições de pesquisa. O trabalho vai resultar no Atlas de Erosão e Progradação Costeira do Litoral Brasileiro, que deverá ser publicado ainda este ano.
Segundo o coordenador do projeto, Dieter Muehe, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o objetivo do estudo é realizar um diagnóstico nos Estados litorâneos sobre as tendências de erosão e progradação (o contrário de erosão) da linha de costa, identificar áreas críticas, para serem monitoradas a longo prazo, e as razões da ocorrência desses fenômenos.
Além disso, o atlas servirá para subsidiar a elaboração de planos diretores de ocupação da orla costeira. "A intenção é evitar a urbanização em áreas críticas e estabelecer a largura de uma faixa na qual não será permitido edificar", explica Muehe. "O atlas também servirá para alertar sobre efeitos de intervenção do homem por obras de engenharia em segmentos costeiros vulneráveis."
Exemplos na mudança da linha da costa não faltam. Eles foram observados em todos os Estados. O que ocorre em Guamaré, no norte do Rio Grande do Norte, é um deles. "Ali existe uma erosão acentuada", diz a geóloga Helenice Vital, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). "O fenômeno está pondo em risco dutos da Petrobrás. Eles foram instalados a 1,5 metro de profundidade e hoje estão expostos à erosão."
O monitoramento mensal da área dos dutos entre 2000 e 2004 revelou uma taxa de erosão de 25 metros por ano. Trabalhos mais recentes utilizando dados históricos mostraram que, entre 1872 e 2001, o mar "comeu" mais de 1 quilômetro do terreno local. As causas, segundo Helenice, são naturais. "Os estudos têm mostrado que este é um fenômeno natural e está relacionado principalmente à morfologia do fundo marinho e à falta de entrada de sedimentos", explica. "Nesta área não há rios que possam contribuir com sedimentos."
Barragens - O mar também vem se mostrando insaciável em Sergipe e na Bahia. Uma equipe coordenada pelo pesquisador José Maria Landim Dominguez, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), percorreu os cerca de 1.200 quilômetros das costas dos dois Estados, dois terços dos quais a pé, e encontrou vários locais com processo erosivo grave, a maioria deles por causa naturais.
É o caso do trecho sul da planície de Caravelas, no extremo sul da Bahia.
"Ali houve um recuo da linha de costa de mais de 200 metros nos últimos 40 anos", explica Dominguez. "Também encontramos recuo da linha costeira de uma ilha na desembocadura do Rio Jequitinhonha (500 metros nos últimos 10 anos), e no pontal de Mangue Seco, na foz do Rio Real (cerca de 500 metros nos últimos 4 anos)."
O mais grave dos casos de erosão foi causado pelo homem, no entanto.
Trata-se da Vila do Cabeço, na foz do Rio Francisco, em Sergipe. A vila, onde viviam mais de 100 famílias, foi simplesmente tragada pelo mar em poucas semanas, em 1998. "A causa foram as barragens construídas no Rio São Francisco", explica. "Elas retiveram, além da água, os sedimentos, ou seja, a areia que repunha a que era levada pelo mar da desembocadura do rio. Sem essa reposição, a praia onde ficava a vila foi tragada pelo mar."
Molhes - O que o mar tira de um local quase sempre devolve em outro. Um exemplo disso é visto no Rio Grande do Sul.
Separadas pelos molhes do porto de Rio Grande, as Praias do Cassino e de São José do Norte vivem situações opostas. A Praia do Cassino, localizada ao sul de Rio Grande, sofreu progradação, ou seja o mar recuou por causa da retenção de sedimentos pelos molhes, cujo comprimento é de cerca de 4 quilômetros.
Segundo Lauro Calliari, da Fundação Universidade de Rio Grande (Furg), em certos locais, por exemplo, entre 9 e 12 quilômetros ao sul dos molhes, a praia aumentou cerca de 412 metros nos últimos 50 anos. "Em contrapartida, a Praia de São José do Norte, chamada de Praia do Mar Grosso, diminuiu sua largura em cerca de 120 metros nos últimos 30 anos", explica Calliari. "Isto deveu-se justamente à falta de sedimentos que deveriam passar para o outro lado e não passaram por causa dos molhes."
Caso grave, no entanto, ocorreu na Praia de Hermenegildo, mais ao sul do litoral gaúcho, quase na fronteira com o Uruguai. "Lá a urbanização deu-se sobre as dunas frontais, o que agravou a erosão natural", diz Calliari.
"Hoje a praia desaparece a um ritmo de 3 metros por ano e muitas casas já foram derrubadas. O problema se tornou crítico porque o homem construiu num lugar inadequado, sobre as dunas, pois na época de implantação do balneário do Hermenegildo não se conheciam esses fenômenos erosivos no Brasil."
Farol - O lugar mais intrigante que os pesquisadores encontraram, contudo, fica no litoral central do Rio Grande do Sul, nas proximidades do Farol da Conceição, no município de São José do Norte. Lá a praia já diminuiu sua largura em torno de 150 metros nos últimos 50 anos, o que causou a queda do farol e agora ameaça a casa do faroleiro.
As pesquisas mostram que nesse lugar existe uma concentração de energia de ondas maior (ou seja, maior altura de ondas) por causa de bancos de areia que existem na plataforma marinha entre 12 e 30 metros de profundidade.
"Esses bancos funcionam como lentes que fazem com que as ondas fiquem mais altas", explica Calliari. "Assim, as ondas mais altas numa tempestade vão causar nesse local maior erosão."
Meta da pesquisa é gerenciar melhor ocupação da orla
Intenção do Ministério do Meio Ambiente, que financiou pesquisa, é criar faixa sem construções
A idéia de fazer um levantamento completo das alterações da costa brasileira partiu do Ministério do Meio Ambiente (MMA). O objetivo é fazer um mapeamento de todas as áreas que estão sofrendo erosão e das que correm maior risco de passar por esse processo, para melhor gerir a ocupação delas.
"A intenção é estabelecer uma faixa, de largura variável conforme o maior ou o menor risco de erosão, na qual não se poderá construir", explica Álvaro Roberto Tavares, do Projeto de Gestão Integrada dos Ambientes Costeiro e Marinho, do ministério.
O MMA solicitou então que a Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (Secirm) financiasse os projetos, com recursos do Sistema Global de Observação do Oceano (Goos, na sigla em inglês), do qual o Brasil participa. O pedido foi aceito.
Com o levantamento, o Ministério do Meio Ambiente quer evitar que o poder público venha a ter de gastar dinheiro para recompor áreas erodidas ou ajudando as pessoas prejudicadas. "Também servirá para os próprios cidadãos, que saberão quais as melhores áreas para construir", diz Tavares. "Eles poderão evitar colocar seu patrimônio em área de risco." (E.S.)
OESP, 20/06/2004, Geral, p. A12
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